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Das páginas para as telas: o que adaptações literárias para séries nos ensinam sobre ambas as mídias

Kit Harington e Emilia Clarke como Jon Snow e Daenerys Targaryen em Game of thrones (HBO)

 

O que Killing Eve, The handmaid’s tale e Game of thrones têm em comum, além de serem três das séries mais bem-sucedidas da atualidade? São adaptações de obras literárias.

Produções para a TV baseadas em literatura — ou outras mídias — não são necessariamente um fenômeno contemporâneo, embora seja nítida a presença massiva delas nos calendários de lançamentos dos últimos anos.

Uma rápida bisbilhotada pelas indicações ao Emmy dos últimos cinco anos permite encontrar vários desses títulos: Normal people, Big little lies, Watchmen, Little fires everywhere, American crime story, Orange is the new black, Sherlock e Penny dreadful são alguns deles.

A agenda de estreias de 2021 também traz várias adaptações, como Lisey's story (adaptação de Love — a história de Lisey, de Stephen King, para o Apple TV+), The underground railroad, Sombra e ossos e Nine perfect strangers, entre várias outras.

Entretanto, os mundos da literatura e da TV não têm proximidade apenas quando a primeira é fonte de histórias para a segunda.

“A história está na essência do processo adaptativo e tanto o seriado quanto o romance compartilham afinidades narrativas”, diz a pesquisadora Yvonne Griggs, autora de Adaptable TV: rewiring the text (Palgrave Macmillan, 2018) e professora de mídia e comunicação da University of New England, Austrália.

“Assim como o romance, a série também tem a capacidade de trabalhar com narrativas em longa forma por meio da serialização; há tempo para desenvolver uma história por uma temporada toda, ou até várias.”

Griggs pondera que a maneira de contar histórias é bastante diferente em cada mídia. A televisão é predominantemente visual e, assim como a palavra escrita, dispõe de seus próprios recursos narrativos e até financeiros para apresentar uma história na tela.

“Na tela, pode-se dar vida às palavras em uma página. As possibilidades criativas são limitadas apenas por orçamento”, explica. “Um projeto de grande orçamento, como Game of thrones, só pode acontecer espetacularmente na tela quando se lê a prosa de George R.R. Martin.”

 

Essas afinidades podem justificar por que vários romancistas também são roteiristas e vice-versa. O próprio autor da saga As Crônicas de Gelo e Fogo integrou a equipe de roteiristas de Game of thrones na adaptação da HBO. Stephen King escreveu os scripts de Lisey’s story adaptando seu próprio romance. Sally Rooney foi indicada ao Emmy pelo roteiro de Normal People, minissérie baseada em seu livro, e escreve Conversations with friends, baseado em seu romance de 2017.

A lista é longa: Gillian Flynn, Michael Chabon, Neil Gaiman, Jane Goldman, Noah Hawley e Nic Pizzolato são outros nomes que começaram na escrita em prosa e trabalham em salas de roteiro. No Brasil, destacam-se Ana Paula Maia e Raphael Montes.

 

Sandra Oh (à esq.) e Jodie Comer em cena de Killing Eve, adaptada dos livros de Luke Jennings (BBC America)

 

Há quem defenda, inclusive, que a série de TV é a grande forma narrativa do século 21, após o cinema ser a do anterior e a literatura, a do século 19. É o caso da escritora Sonia Rodrigues em entrevista ao UOL em 2014. Griggs concorda e vê isso acontecer no recorte das adaptações: “A mídia da TV permite expandir o universo da história de maneiras que vão muito além dos parâmetros narrativos de seus textos de origem, seja em um romance como O conto da aia, de Margaret Atwood, em um filme como Fargo, dos irmãos Coen, ou no livro de memórias de Piper Kerman, Orange is the new black.”

Em artigo publicado no New York Times em 2014, os escritores Adam Kirsch e Mohsin Hamid discutem uma questão recorrente: se as prestigiadas produções dos canais a cabo — que ganharam força descomunal após o início da “era de ouro da TV” com Família Soprano, da HBO, em 1999 — são o “novo” romance.

“Comparar séries a romances sugere uma estranha ambivalência em relação a ambas as mídias”, escreve Kirsch. “Claramente, a comparação busca honrar a TV ao associá-la ao prestígio e à complexidade que, tradicionalmente, pertencem à literatura. Mas, ao mesmo tempo, é disfarçadamente, uma forma de agressão à literatura sugerir que os romances cederam seu papel para uma forma de arte mais jovem, popular e dinâmica.”

Hamid, por sua vez, defende no texto que as capacidades narrativas da série são quase ilimitadas e rivalizam com as da literatura — e que o romance está, inegavelmente, em crise. No entanto, uma coisa não substitui a outra. A TV não consegue transmitir na linguagem a subjetividade de indivíduos como a palavra escrita é capaz. “Romances são caracterizados pela intimidade deles, que é extrema, pela escala, que é vasta, e pela forma, que é linguística e sinestésica”, afirma.

Não é de se estranhar que ambos os formatos tenham tantos pontos de contato: no teatro da Grécia antiga, Sólon escrevia poemas para os atores declamar nas encenações de tragédias. A própria palavra “episódio” é de origem grega — nas tragédias, os epeisodion continham até duas canções ou odes, de acordo com o Online Etimology Dictionary. Como o próprio Kirsch relembra no NYT, Charles Dickens e William Shakespeare — herdeiros das tradições dramatúrgicas que percorreram o Ocidente a partir do teatro grego antigo — já tiveram suas obras publicadas capítulo a capítulo

 

O que é melhor: a adaptação ou o original?

Aqui está um ponto sensível para os fãs, que tendem a ter bastante apego ao que amam e a projetar muitas expectativas.

Marcelo Rubens Paiva e Jacqueline Cantore argumentam em Série — o livro, recente lançamento da Objetiva, que “o próprio termo já diz tudo: é uma adaptação”. “Muitos personagens novos precisam ser inventados para ampliar ou resumir a trama. Outros são fundidos para dar camadas a eles”, escrevem.

Os autores exemplificam com as diferenças entre as storylines de Daenerys Targaryen e Sansa Stark nos livros e em Game of thrones. O príncipe de Dorne envia um filho para se casar com Daenerys, mas isso não acontece na série da HBO. Sansa, nas páginas de George R.R. Martin, finge ser a irmã, Arya, ao se casar com Ramsay Bolton, enquanto na adaptação, a personagem não lança mão desse artifício.

Para Griggs, chamar a adaptação de “pior” ou “melhor” tem validade circunspecta, pois ela é um produto cultural em e de si mesmo — e o julgamento do mérito tem de se ater ao contexto específico da mídia.

“A expectativa de que um romance pode e deve fazer a transição em 100% das palavras na página para imagens em uma tela é irrealista e contraproducente”, diz a professora. “Para mim, o que é interessante é como a adaptação joga com a narrativa existente no sentido de criar algo novo, em vez de simplesmente tentar replicar o que já foi apresentado em outro lugar.”

 

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Caio Delcolli é escritor e roteirista. Já escreveu para Rolling Stone, Folha de S.Paulo, GQ e Galileu, entre outros veículos. Ele atualmente está trabalhando em seu primeiro romance. É formado em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo.

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