De onde vem o texto: um almoço com Scheherazade

Ana Maria Bahiana

Num restaurante bacana asian-fusion no coração do coração da parte executiva da “indústria”, dois amigos produtores querem saber como uma pessoa descobre que sabe e gosta de escrever.

O coração do coração da parte executiva da “indústria” se chama Century City – muitos e muitos anos atrás, era parte do backlot da 20th Century Fox, e muitos filmes clássicos da era de ouro de Hollywood (inclusive os de Carmen Miranda) foram rodados ali. Em 1963, quando o Cleópatra de Elizabeth Taylor e Richard Burton levou o estúdio à beira da falência, a Fox foi obrigada a vender uma parte dos terrenos do backlot – e assim nasceu Century City, que hoje abriga praticamente todas as agências de representação, as empresas de gerenciamento e divulgação de talentos variados, e os grandes escritórios de advocacia de entretenimento da cidade.

Há uma ironia poética aí, mas voltemos ao assunto.

Meus amigos produtores me perguntam isso porque, mesmo depois de anos e anos de trabalho – um deles é uma produtora “oscarizada”, com filmes-recorde de bilheteria no currículo –, ainda não entendiam precisamente de onde vinham as histórias que eles produziam e o que nos motivava a enfrentar (e aturar) os processos complicados, lentos e muitas vezes dolorosos de produção, edição e publicação.

Respondi dizendo que só podia compartilhar minha experiência pessoal, mas que suspeitava, por leituras e conversas com outras pessoas das artes escritas, que a razão era comum a todos nós: escrevemos porque não tem outro jeito. Porque é como respirar. Porque é incontornável, inevitável como a dor e o amanhecer.

“Os personagens descem não sei de onde, puxam uma cadeira e começam a falar com você, contando sua história”, digo. “E uma vez que você ouve a história, você tem que escrevê-la. Porque senão… Senão você não dorme mais, não come mais, não pensa em outra coisa.”

Chegam os pratos principais. A conversa recomeça depois de uma breve pausa para degustação e elogios ao chef. “Isso acontece com você também, mesmo sendo não ficção?”, a produtora fodona quer saber. “Sim”, respondo. “Não tem a menor diferença se o personagem é real ou fictício, se são fatos ou lendas. A narrativa baixa, encarna, possui. Especialmente a narrativa boa, suculenta. Essa é danada. Ou você põe na tela/página ou você não tem mais sossego nessa vida.”

“E isso é o que nos faz aturar tudo o que vem depois”, continuo. “Porque uma vez que a narrativa foi para a página, tem que ir pro mundo. Tem que ser compartilhada. Os roteiristas com quem vocês trabalham querem, em primeiro lugar…”

“… ser pagos!”, o produtor exclama.

“Claro!”, continuo. “Mas, além disso, elas e eles escrevem os filmes que querem ver. E juro: se esses roteiros e argumentos não se manifestarem como obras compartilháveis, a frustração é quase insuportável.”

Dou um exemplo: de como me tornei uma produtora acidental porque não conseguia viver com a história que tinha nascido inteira – visualmente, inclusive – numa tarde de engarrafamento num canyon de Los Angeles, em 1998, sem que ela encarnasse como o que deveria ser: um filme. E como a experiência foi maravilhosa e terrível e mudou a minha vida completamente, para melhor e para pior.

Mas como, sobretudo, tinha me dado licença para explorar toda a gama da expressão escrita, para voltar a meus primeiros passos como pessoa que escreve, quando eu ainda não sabia escrever e pedia pro meu pai ligar o gravador de rolo, para que eu contasse as histórias que tinham aparecido assim, inteiras e inesperadas, na minha cabeça de criança. Foi bom honrar isso, reconhecer isso.

"E aí", continuo, "essa história toda me ensinou que provavelmente nunca serei um de vocês, mas posso garantir que continuo escrevendo tudo, sempre, inclusive as histórias que imaginei que seriam filmes, mas que precisam ser compartilhadas de todo modo, então…"

Então me dei licença para escrever tudo, ficção, poesia, roteiros, argumentos e tudo mais.

Vem o café, um expresso bom e forte numa xícara do tamanho de um pequeno balde. Contas são pagas, abraços são dados, fica no ar a conversa de um novo almoço.

Lá fora é uma tarde estupidamente linda de primavera, e vou andando e pensando que não disse toda a verdade aos meus amigos produtores. Que a verdade completa é que somos todos Scheherazade, contando histórias para adiar a morte. Hoje não, sultão, hoje não. Hoje tenho uma história para contar.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do Brasil e Folha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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