Derek Walcott: 1930 - 2017

Dereck Walcott faleceu hoje aos 87 anos. Poeta, dramaturgo e ensaísta, nasceu em 1930 na ilha de Santa Lucia, e em 1992 tornou-se o primeiro escritor caribenho a receber o prêmio Nobel de literatura. 

Walcott é autor de Omeros, um poema destinado a permanecer entre os mais belos e instigantes deste século. Neste livro, se o mar e os negros pescadores de Santa Lucia fornecem a matéria-prima, um vasto arsenal de imagens, ritmos e texturas tropicais, são os arquétipos da Ilíada e da Odisseia, as personagens míticas de Aquiles, Helena, Heitor e Filoctete (além do próprio Homero, encarnado num pescador cego, de nome Sete Mares), que definem as linhas mestras do poema. Misto de poesia, mito, romance e roteiro de cinema, Omeros é também uma meditação sobre questões cruciais do mundo contemporâneo, como a destruição da natureza, a identidade das minorias e o desenraizamento individual e coletivo.

Leia a seguir um trecho de Omeros.

* * *

I

“Foi assim que, num amanhecer, nós talhamos aquelas canoas.”
Philoctete sorri para os turistas, que com suas máquinas fotográficas
tentam tirar sua alma. “Logo que o vento traz a notícia

para os laurier-cannelles, suas folhas se põem a tremer
no instante em que o machado da luz do sol fere os cedros,
porque podiam ver os machados em seus próprios olhos.

O vento levanta as samambaias. Soam como o mar que alimenta
                                                                                                   [a nós
pescadores durante a vida inteira; e as samambaias se curvaram:
                                                                                                     [Sim,
as árvores têm que morrer! Assim, punhos premidos nos paletós —

porque estava frio nas alturas — e a respiração fazendo plumas
como a névoa, passamos o rum. Quando voltou, a bebida deu
ânimo para a gente se tornar assassinos.

Eu ergo o machado e rezo por força nas mãos,
para ferir o primeiro cedro. O orvalho me enchia os olhos,
mas atiro mais um rum branco. Então avançamos.”

Por algum dinheiro extra, sob uma amendoeira marinha,
ele lhes mostra uma cicatriz feita por uma âncora enferrujada,
enrolando uma perna das calças com o lamento ascendente

de uma concha. Ela ficou enrugada como a corola
de um ouriço-cacheiro. Não explica a sua cura.
“Tem coisas”, sorri, “que valem mais do que um dólar.”

 

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