Deuses, heróis, Olimpo e Wakanda

Ana Maria Bahiana

Cena de Pantera Negra.

Sempre gostei de quadrinhos, mas nunca fui muito chegada em super-heróis. Alguma coisa inerente à própria definição da criatura me entediava: o fato de ser super, necessariamente retirado do mundo humano, e ameaçado apenas por outros seres igualmente super, os super-vilões. Nesse setor trans-humano, eu preferia os deuses das mitologias grega e egípcia – seus mitos me pareciam mais próximos da experiência humana, repletos de erros e falhas, inveja, paixão e desespero. Gostava especialmente das histórias de desafios impossíveis e malsinados – Prometeu, Ícaro, Aquiles e seu calcanhar. E os viajantes do submundo, esses sim super-heróicos para mim, super em sua dimensão tão humana, a da perda: Deméter, Perséfone, Orfeu.

Fora desse universo, meus heróis favoritos eram de carne e osso mesmo, do Yukon de Jack London ao Sítio do Pica-Pau Amarelo. Eu dava uma certa trégua para o Batman, que afinal era um cidadão comum usando uma fantasia altamente desconfortável e improvável, e o Príncipe Submarino, porque vivia no mar e tinha a música-tema mais esquisita dos desenhos desanimados da Marvel na TV (se você viveu nos anos 1960 e 1970 você sabe por que os desenhos eram desanimados…).

Nas tiras dos jornais, minha paixão era Modesty Blaise. Mulher, forte, destemida, muito inteligente, espiã, aventureira, viajante, poliglota, autossuficiente. Nada nela era super, apenas muito – e me fazia imaginar possibilidades muito além do que eu via à minha volta, nas vidas de outras mulheres. (O fato de ela ter sido criada por dois homens – o escritor Peter O’Donnell e o desenhista Jim Holdaway, ambos britânicos, só veio bater muitos anos depois. Uma das maravilhas da infância e pré-adolescência é acreditar que o extraordinário acontece por sua própria vontade de existir.)

Todas essas ideias e memórias vieram de enxurrada nestas últimas semanas por conta de outro emissário do mundo do mito: o Pantera Negra. Acompanhei de perto, durante duas décadas, as danças e contra-danças do projeto do filme, desde a obsessão do ator e produtor Wesley Snipes com o personagem até o fenomenal sucesso de crítica do seu lançamento, agora. Duas coisas me intrigavam – o claro poder metafórico do personagem, muito mais expressivo do que qualquer de seus companheiros do panteão da HQ, e a dificuldade de capturar toda essa complexidade num filme que, por mandato e por definição, devia ser puro entretenimento.

Sim, existem outros heróis negros no universo das HQ, mas do nome, que ecoa o Partido dos Panteras Negras dos anos 1960, às origens, no calor da luta pelos direitos civis e à sua natureza humana e utópica – rei de uma nação Africana livre, próspera, avançada, intocada pelos horrores do colonialismo e do tráfico humano –, o Pantera Negra não era mais um super-herói: era o exorcismo das sombras da América, e uma possibilidade de redenção.

O fato do Pantera Negra ter sido criado por dois homens brancos – o desenhista Jack Kirby e o escritor Stan Lee – é uma contradição semelhante à criação da minha adorada Modesty Blaise. Pode-se ser cínico e cheio de dúvidas, mas a inteireza de ambos os personagens revela a retidão de intenções, acima de qualquer suspeita. Quando se atravessa a fronteira da inocência, que é a fronteira da adolescência, a conexão criador-criatura aparece clara, concreta. Cabe à clareza da criatura lançar luz sobre as ideias de seu criador.

A prova dessa clareza está na adaptação da HQ para a tela, feita por um realizador negro, jovem, nascido numa família politicamente engajada de Oakland, tradicional comunidade afro-descendente da California.

Ryan Coogler vem do cinema independente e se apresentou ao mundo com Fruitvale Station, um filme simples e poderoso, de baixíssimo orçamento, sobre a vida e a morte prematura de um rapaz negro de Oakland, na noite de ano novo de 2008. Sua capacidade para fazer um filme comercial veio a seguir com Creed, uma refrescada na mitologia de Rocky, um Lutador. Seria o bastante para encarar a engrenagem gigantesca do combo Marvel + Disney? O bastante para atender a fome insaciável de bilheteria desse monstro e ao mesmo tempo ampliar as possibilidades mitológicas do herói, reposicionando seu significado, vindo da luta pelos direitos civis e o fim da segregação, nos anos 1960, no mundo da globalização e do terrorismo institucional e de varejo?

Sim. É tão raro ver isso – um produto pop que também é um trabalho pessoal, duas horas de entretenimento que também contêm ideias e reflexões sobre soberania e representatividade, uma oferta de distração que abraça as possibilidades do mito, da metáfora, daquilo que parece uma coisa para nos permitir pensar em outras, vendo além do véu.

O absurdo que mora no coração da ideia do super-herói pode ser uma fonte de gozação – que é o que a maioria dos filmes da Marvel acaba fazendo. Mas também pode ser um convite à utopia. Um convite a ser além dos limites criados por outros, a ser muito, a ser além. A ser super.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do Brasil e Folha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

 

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