Diários do isolamento #101: Jessé Andarilho

Diários do isolamento 

Dia 101: Portelinha 

Jessé Andarilho 

 

Quem acompanha o meu perfil no instagram sempre vê fotos de crianças sorrindo quando estão pegando livros ou brincando ali na frente da nossa biblioteca comunitária, o que vocês não imaginam é a realidade da maioria delas.  

Em Antares, tem uma área chamada de Portelinha, ocupada por barracos de madeira, esgoto a céu aberto e pobreza extrema.  

Morar na Portelinha é como morar em Antares estando em Santa Cruz, como morar em Santa Cruz estando em Ipanema, como morar em Ipanema estando em Nova York.  

As pessoas são julgadas pelo CEP, não pelo CPF. E a Portelinha é a favela dentro da favela.  

Aquelas crianças são chamadas de menina da Portelinha, ou menor da Portelinha. Eles não têm nomes, apelidos ou identidades. São chamados de forma pejorativa devido à realidade da moradia onde vivem.  

Eis que surge a biblioteca Marginow. Ali a Luiza, o Thalles, a Yasmin, que sempre que coloca as tranças rosas prefere ser chamada de Arlequina, ganham espaço e atenção. Ali aquelas crianças são tratadas da mesma maneira que as outras. Não tem tratamento especial e nem diferenciado. Ali elas brincam juntas, dividem as escolhas dos livros e são convidadas para participar das atividades.  

Meus filhos andam de skate e ensinam as crianças dali da mesma maneira que brincam e convivem com as crianças de Antares e dos bairros vizinhos. Comentei com a minha filha, Geovanna, sobre isso e ela ficou abismada. Ela não sabia que existia isso bem ali no meio da favela.  

Quem assistiu ao filme O poço, na Netflix, pode se ligar na referência.  

Ontem foi o meu aniversário. Completei 39 anos e fiz questão de comemorar de forma discreta, somente com a presença de parte da minha família, lá na biblioteca. As crianças da Portelinha compareceram da mesma forma que as outras crianças de Antares e dos bairros vizinhos.  

Não foi uma festa com as crianças da Portelinha, foi uma comemoração com as crianças e com a minha família.

 

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Jessé Andarilho nasceu em 1981 e foi criado na favela de Antares, no Rio de Janeiro. Filho de vendedores ambulantes, trabalhou com diversas atividades na sua comunidade, até ler seu primeiro livro, aos 24 anos. Foi quando, no trajeto de aproximadamente três horas que fazia de trem de sua casa até o trabalho, passou a usar o bloco de notas do celular para contar histórias. Dessas anotações surgiu o romance Fiel, publicado pela Objetiva em 2014. Em 2015, foi convidado para integrar o grupo de redatores da novela Malhação, da TV Globo. Foi diretor de reportagem do programa Aglomerado, da TV Brasil, e produtor da Cufa – Central Única das Favelas. Fundou o C.R.I.A., Centro Revolucionário de Inovação e Arte, e o Marginow, com a proposta de dar visibilidade aos artistas da periferia. Em 2019, publicou, pela Alfaguara, seu segundo romance, Efetivo variável. Atualmente, Jessé Andarilho realiza palestras em todo o Brasil, contando um pouco da sua história e mostrando como sua vida foi transformada pela literatura.

 

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