Diários do isolamento #104: Jessé Andarilho

Diários do isolamento 

Dia 104 

Jessé Andarilho 

 

Um amigo meu saiu de cadeia na semana passada e me disse que leu o Fiel na prisão e teve que escrever o que achou sobre o livro em um papel pra ganhar alguns dias a menos dentro daquele lugar. 

 

Ele também me contou que viram o Faustão indicando meus livros e foi uma alegria só. Foi um tal de: "Eu conheço o Jessé" pra lá e pra cá. Fui assunto por dias ali dentro. Ali onde os heróis são outros.

 

Quando eu falo que a leitura liberta, muita gente acha que estou viajando e falando bobagem. 

 

Quando comecei a escrever, eu só queria contar histórias e mostrar pra galera que eu conheço algumas visões do nosso mundo. 

 

Queria fazer uma comunicação com as bolhas que já existiam, mas eram chamadas de panela. 

 

Desde criança eu sempre entrei nas panelas diferentes em todos os lugares por onde passei. Sou tipo o sal, tá ligado? Estou até em algumas receitas doces. 

 

Às vezes me sinto com o Bené do filme Cidade de Deus. Tenho amigos evangélicos, amigos do rap, amigos bandidos, amigos políticos, amigos bandidos políticos, professores, escritores... 

 

Saber que meus livros chegaram tão longe é muito gratificante. Receber essa notícia foi melhor do que qualquer elogio ou resenha de famosos e doutores da literatura. 

Quero continuar na missão de escrever e ajudar a libertar pessoas, mesmo que seja só um pouquinho. 

 

Você precisava ver a alegria com que ele falou isso pra mim. E, sem querer ser exibido, mas outras pessoas já me disseram que leram meus livros na cadeia. Só que foi a primeira vez que alguém me contou sobre essa remissão de pena. 

 

É triste saber que amigos meus foram parar naquele lugar. Foi como eu disse, tenho amigos em vários lugares. Amigos que nunca andei junto, mas são meus amigos por algum motivo. 

 

Cada pessoa tem um motivo pra escrever. Escrever é o meu motivo. 

 

Às vezes bate aquela preguiça ou o foco é desviado por alguma coisa, mas sei que é isso que acontece com leitores também. 

 

Então bora focar. Pra viver dos livros, temos que viver para os livros. 

Tá provado e comprovado que livro livra. Então viva a liberdade. 

 

***

Jessé Andarilho nasceu em 1981 e foi criado na favela de Antares, no Rio de Janeiro. Filho de vendedores ambulantes, trabalhou com diversas atividades na sua comunidade, até ler seu primeiro livro, aos 24 anos. Foi quando, no trajeto de aproximadamente três horas que fazia de trem de sua casa até o trabalho, passou a usar o bloco de notas do celular para contar histórias. Dessas anotações surgiu o romance Fiel, publicado pela Objetiva em 2014. Em 2015, foi convidado para integrar o grupo de redatores da novela Malhação, da TV Globo. Foi diretor de reportagem do programa Aglomerado, da TV Brasil, e produtor da Cufa – Central Única das Favelas. Fundou o C.R.I.A., Centro Revolucionário de Inovação e Arte, e o Marginow, com a proposta de dar visibilidade aos artistas da periferia. Em 2019, publicou, pela Alfaguara, seu segundo romance, Efetivo variável. Atualmente, Jessé Andarilho realiza palestras em todo o Brasil, contando um pouco da sua história e mostrando como sua vida foi transformada pela literatura.

 

Acesse a Letrinhas nas redes sociais