Diários do isolamento #106: Jarid Arraes

Diários do isolamento

Dia 106

Jarid Arraes

 

Meu corpo está fraco e as carnes moles querem escorrer pelas pernas que doem. Alguns dias foram quentes e mesmo assim senti frio. Todos os sistemas estão assim que só caldo de bila. É porque entrei na tomara-fase-final do tratamento contra câncer. Mais três idas ao hospital, mais uma internação, depois não sei. Já saí de casa três vezes, todas para ir a hospitais. A máscara azul, a mesma roupa, a mesma lavagem de cabelo que depois não ganha pente.

Não escrevo nada pra esse diário há várias semanas, eu acho. Isso porque tinha muito pra dizer. Então melhor não dizer nada.

Há dias conversei com meu namorado sobre sair de casa. Depois da peleja contra os stories do instagram alheio, depois de dizer em voz alta que, é isso aí, tem mais gente saindo pra se divertir do que continuando dentro pra se amofinar, depois disso eu falei que queria sair também. Fiz uma lista de lugares possíveis, nada de exagerado, mesmo desejando o cinema. Disse, vou sair, vou mesmo, vou sim. Não saí, nem vou. Talvez depois. Imagina que engraçado fazer cirurgia pra tirar órgão tomado de câncer e depois morrer porque fui caminhar pelo Parque da Água Branca. Deve estar mais abandonado que antes. Tem uma parte do parque que adoro, que parece coisa de filme de fantasia, mas os bancos têm cheiro de mijo e está tudo descascado. Imagina que engraçado. Morrer por um parque assim. Se fosse por um parque de diversões, como alguns amigos meus mostraram nos stories (e me fizeram rir muito, porque um deles vomitou na roda gigante), se fosse pelo menos por um dos negócios que giram de cabeça pra baixo e despencam e viram meme na internet com o som do Windows XP desligando. Mas o Parque da Água Branca. Seria uma burrice engraçadíssima.

Tenho me sentido burra. Estou aprendendo coreano e me frustro demais com certas dificuldades. É um autodidatismo de montanha-russa. Muitas vezes termino os estudos dos dias com vontade de chorar. Eu odeio insistir em coisas que teimam no erro. Eu desisto de qualquer jogo de videogame quando começo a perder perder perder e a coisa toda de ser divertida e estimulante se transforma em adjetivação agressiva. Largo mesmo. Largo as coisas.

Mas o coreano não. Na maior parte do tempo é bom, na maior parte do tempo é gostoso entender coisas aqui e ali numa música, numa série. Assisti três minisséries coreanas que recomendo muitíssimo: My Holo Love, Hi bye, Mama!, e Itaewon Class. Estou procurando a próxima. Enquanto isso, meus livros de gramática coreana estão passando pela alfândega, minha caligrafia melhora e eu já sei falar “eu te amo” e “me desculpe”.

Tem sido quase impossível trabalhar. E isso é parte do motivo pelo qual não tinha escrito mais nenhuma entrada do diário. Ainda estou sem conseguir sentar. Também estou sem conseguir dizer. E justo quando encontrei o assunto que precisa ser falado.

Fiz uma enquete besta no Twitter perguntando se quem me segue ainda está saindo só pra comprar comida e coisas do tipo ou se desistiram do isolamento. Não senti raiva de quem disse que saiu. Olho as redes sociais, as pessoas felizes, as máscaras no queixo, as fotos tiradas com os rostos colados, as praias, os bares, e, sinceramente, toda as toras de madeiras que faziam o fogo bem alto estão só o pito. Não é apatia, é resignação. Vai durar pra sempre. Nunca mais vou comer fora, nunca mais vou ao cinema, e isso sem falar em shows. Pode vir Lady Gaga, BTS, System of a Down, todos os artistas que tenho tanta vontade de ouvir tocando cantando dançando ao vivo, podem vir todos que eu não vou. Com certeza vou dizer, ah mas eu vou sim. Mas seria uma burrice tão grande e engraçada.

Vocês lembram que estou desde 11 de março em isolamento total, né? Eu sou engraçadíssima.

 

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Jarid Arraes nasceu em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 1991. Escritora, cordelista e poeta, é autora dos livros Um buraco com meu nomeAs lendas de Dandara e Heroínas negras brasileiras. Atualmente vive em São Paulo, onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres. Tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel. Redemoinho em dia quente (Alfaguara) ganhou o prêmio APCA de Literatura na Categoria Contos/Crônicas.

 

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