Diários do isolamento #108: Jessé Andarilho

Diários do isolamento

Dia 108

Jessé Andarilho

 

Querido diário. Me despeço de você e agradeço por dividir comigo seus ouvidos e por ter me aturado durante esse longo período de pandemia. As coisas não foram tão boas assim, e eu sei que reclamei muito enquanto te contava o que passei.

Tive muitas perdas. Amigos, parentes e ídolos. Passei por alguns perrengues e você sabe que precisei me resguardar em casa enquanto via meus amigos atuando na linha de frente do combate à fome e a outras necessidades fundamentais para a prevenção contra o vírus.

Como vivo de histórias, mas não posso contá-las para pagar as minhas dívidas na praça, escrevi um livro infantil chamado Super Protetores, sobre a luta dos profissionais de saúde na luta contra o corona. O livro saiu em formato digital, no projeto “Leia para uma criança”, do banco Itaú.

Depois de três meses eu consegui ir para as ruas e entrar na batalha pelos meus. Não contei pra você que consegui arrumar um montão de cestas básicas e pude ajudar a associação dos moradores de Antares, a favela em que cresci. Porque o que a mão direita faz, a esquerda não precisa saber. Aprendi isso na minha época de evangélico e é por esse motivo que não tem nenhuma foto minha entregando cestas básicas no instagram.

Mas como a gente não quer só comida, resolvi fazer algo mais e como você já sabe, tirei um projeto do papel e abri a biblioteca comunitária em Antares. Tomei todos os cuidados possíveis tentando seguir as orientações da OMS, e também fiz umas pesquisas sobre os cuidados a ter com os livros depois que recebia dos leitores. Uma amiga da biblioteca de Londres me deu várias dicas.

 

A biblioteca funciona na parte externa do antigo posto policial de Antares, enquanto faço a reforma "aos poucos" da parte de dentro. Os móveis que abrigam os livros têm rodinhas e isso facilita na hora que a gente abre e fecha a biblioteca.

Muita gente me questionou sobre o porquê de abrir uma biblioteca no meio de uma pandemia. Poucas pessoas sabem da realidade daquela favela.

Mandar ficar em casa, usar álcool em gel e trabalhar de home office é mole, mas muitas pessoas nem televisão em casa têm. Emprestar livros e incentivar a leitura como passatempo também #TavaLendo.

Participei de muitas lives. Eu disse muuuiiitas. Teve dias que fiz mais de três na sequência, com pessoas diferentes. Participei de clubes de leituras, dei palestras para escolas e até universidades nas gringas.

Trabalhei no Uber quando a coisa apertou e até encontrei uma leitora da nossa biblioteca vendendo balas no sinal de trânsito na Barra da Tijuca. A Luiza deve ter uns seis anos, e ela abriu um sorrisão quando me viu no carro ali no trabalho dela. Confesso que meu coração se despedaçou ao ver uma criança que adora livros vendendo balas no sinal e um autor de livros que já foi até traduzido para outro país, e que publica na maior editora do Brasil, tendo que trabalhar no Uber pra levar o alimento para casa.

Mas bola pra frente, querido diário. A gente sabe que a vida não é fácil pra ninguém, e tudo vira história pra gente contar e mostrar como a vida é fora dos cartões postais.

E pra finalizar, saiu um livro sobre mim numa coleção chamada Cabeças da periferia, da editora Cobogó. O livro fala sobre a minha escrita, cultura e território.

Quero agradecer mais uma vez por ouvir minhas histórias e por me aturar nesses dias de luta e dias de glória. Entre mortos e feridos estamos aqui vivos, e isso é o que importa.

Se cuida, porque uma nova onda está chegando.

 

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Jessé Andarilho nasceu em 1981 e foi criado na favela de Antares, no Rio de Janeiro. Filho de vendedores ambulantes, trabalhou com diversas atividades na sua comunidade, até ler seu primeiro livro, aos 24 anos. Foi quando, no trajeto de aproximadamente três horas que fazia de trem de sua casa até o trabalho, passou a usar o bloco de notas do celular para contar histórias. Dessas anotações surgiu o romance Fiel, publicado pela Objetiva em 2014. Em 2015, foi convidado para integrar o grupo de redatores da novela Malhação, da TV Globo. Foi diretor de reportagem do programa Aglomerado, da TV Brasil, e produtor da Cufa – Central Única das Favelas. Fundou o C.R.I.A., Centro Revolucionário de Inovação e Arte, e o Marginow, com a proposta de dar visibilidade aos artistas da periferia. Em 2019, publicou, pela Alfaguara, seu segundo romance, Efetivo variável. Atualmente, Jessé Andarilho realiza palestras em todo o Brasil, contando um pouco da sua história e mostrando como sua vida foi transformada pela literatura.

 

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