Diários do isolamento #109: Jarid Arraes

Diários do isolamento

Dia 109

Jarid Arraes

 

 

Hoje é a última vez que escrevo esse diário. Quase nove meses depois do último dia em que saí de casa sem imaginar que, durante o ano inteiro, meu apartamento seria todo o meu mundo. Sem desconfiar que na última vez em que fechei a porta meus pés que entravam só sentiriam outros relevos mais cinco vezes. Todas para ir ao hospital.

Comecei essa série dizendo que não sabia quando terminaria meu tratamento contra câncer. Achei que poderia esperar mais um pouco, apesar de todos os sinais em luzes estroboscópicas alertando o contrário. Achei que em três meses faria a radioterapia. Depois quatro, depois cinco, depois seis. E eu, que tive uma pequena metástase, adiei algo urgente pensando na urgência do coletivo.

Hoje me questiono quantas pessoas mais pensaram desse jeito. Porque a verdade, sendo sincera, é que senti um medo com tamanha intensidade que a sombra desse medo cobriu os contornos de outro. Anterior.

Na segunda semana de novembro, fui internada para fazer a radioterapia. Fiquei isolada dentro do isolamento. Um quarto pequeno, quatro paredes, um banheiro. Tudo coberto por plásticos e tecidos que protegiam os objetos da radiação que saía do meu corpo. O meu corpo cansado pelo ano e por muitas etapas do mesmo sentimento. Primeiro achei que conseguiria lidar bem me isolando. Disse que estava em paz com minha própria companhia. Durou, mas deixou de ser apenas isso. A raiva chegou, a incredulidade também. Em seguida, uma espécie de aceitação diante das fotos de festas e bares. As fotos de festas e bares dos meus próprios amigos e colegas de trabalho literário.

Mas enquanto estava isolada dentro daquele quarto cheio de avisos exclamativos em amarelo (cara, como eu detesto essa cor), eu abandonei a compreensão. Não podia me forçar a ficar em paz. Meu corpo radioativo me dizia que eu deveria sentir e enunciar cada palavra do meu pensamento inconformado. Porque não, eu não posso compreender. Eu não me importo se você não aguenta mais, porque eu também não aguento. Mas você saiu, você chamou amigos para sua casa, foi para um bar, foi ao parque de diversões, fez stories e fotos nas praias do Rio de Janeiro. Eu não me importo se você não aguentava mais, porque eu também não aguentava. Mas eu fiquei entre as paredes de casa e as paredes do hospital, sozinha. Ainda mais. Sem meus bichos, sem meu namorado. Saí do hospital direto para um hotel, porque não poderia ficar perto desses quatro seres vivos que me ajudam a viver o isolamento de tantos meses.

Eu me senti tão solitária. E não de um jeito bom, não aquela solidão que eu aprendi a cultivar com conforto durante muitos anos. Eu me senti solitária porque não podia confiar mais na minha cabeça. Estar só, estar certa, será que errada, será que radical, por que fiz essas escolhas, por que só naquela semana eu dei o último passo para matar o câncer, o literal câncer, dentro de mim?

Espero que tenha sido o último passo.

Agora novembro está acabando e eu sei que será pior.

Preciso ser honesta com vocês que me leram e leem esse último texto: minha cabeça não faz sentido. Ter essa bola no topo do corpo não tem sido um auxílio. Meu cérebro quer me apagar. Borrar minhas fronteiras. Romper as linhas que seguram todos os líquidos do meu corpo. Mais do que lágrimas, os líquidos que me fazem viva. E eu não consigo escrever sobre isso.

Lembro de todas as vezes em que meus diários diziam que eu não conseguia organizar os pensamentos, que eu não tinha nada para dizer, ou que por ter muito a dizer o melhor era calar.

Entre notícias, números, dores, efeitos colaterais pós-radiação, entre as paredes da sala, preto e cinza (minhas cores favoritas): meu corpo se esforçando para me matar e para me ajudar a viver.

Se seu corpo nunca tentou te matar, é inútil tentar te oferecer qualquer explicação.

Mas a vida continua, insolente.

Quando saiu a lista dos cinco finalistas do Prêmio Jabuti e o meu livro Redemoinho em dia quente estava lá, eu não soube. No dia seguinte, quando os níveis de radiação ficaram mais baixos, só à noite, eu deitei na cama do hotel e li as mensagens que me parabenizavam. “Você merece”. Essas duas palavras sempre me atingem. Que bonito é que pessoas pensem que mereço coisas boas porque escrevi algo que conversou com elas.

Eu tenho um poema, o título é “goro”, e nele digo que não é de merecimento que falo. “Porque tudo não passa de correnteza e logo é parado na barragem”.

Mas a vida continua, trêmula.

A nova edição do Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis também foi lançada durante essa pandemia. Participei da Feira de Frankfurt. Coisas muito boas aconteceram. Um dia vou lembrar dessas coisas que preencheram minha sala e deitaram comigo numa cama de hospital, numa cama de hotel, na cama de casa. Senti tanto frio, tanta dor no pescoço, tanta náusea. Enchi uma mão toda de comprimidos e pílulas, cada uma delas para lutar contra meu corpo que tenta me matar. Para que menos dor, para que menos queimação, para que menos pesadelos.

Eu queria, digo para vocês, que essa última entrada de diário falasse algo finalizador. Que eu tivesse uma notícia sobre o fim da pandemia, sobre a vacina que tomei. Não tenho nada do tipo para compartilhar.

O que tenho é isso. A vida continuando. Espero que compreendam. Espero que meu diário tenha feito alguma diferença aos que leram. Se não fez, se foi apenas um conjunto de textos com mil nós, também sinto que cumpri o que precisava cumprir. Os nós continuam aqui.

Hoje, 20 de novembro, acordei cinco horas da manhã para assistir ao novo clipe do BTS.

O título da música é Life Goes On.

A vida continua.

No vídeo, os sete artistas coreanos estão dentro do dormitório onde ficam juntos enquanto fazem música e ensaiam. Cantam a música num estádio vazio. Cada assento ocupado apenas por uma luz que representa os fãs que estariam ali. Melancolia, tristeza, solidão, mas também o reconhecimento dos amigos que estiveram juntos, tiveram uma turnê gigante cancelada e mesmo assim fizeram shows de produção imensa com transmissão online em cinco ângulos de câmeras diferentes.

Justo agora que explodiram no mundo de um jeito muito maior do que já tinham explodido antes. Como “Dynamite”, para citar uma das músicas que fizeram parte desse ano e que eles entregaram com a intenção de despertar um pouco de alegria.

Talvez como resposta, o vídeo de Life Goes On é o contrário do vídeo anterior. Termina em preto e branco, ao contrário do vídeo de “Dynamite”, que explode cores pelo céu enquanto eles dançam e seus sorrisos preenchem as telas.

Como resposta, é saudade. É a contradição. A câmera trêmula, como a vida.

Assim termino meu diário do isolamento. O projeto acaba aqui. Como sou pessimista, não descarto a possibilidade de que volte depois. Mas aqui digo, a gente se vê. Fica combinado que a gente se vê.

 

"Não há final à vista

Existe uma saída?

Meus pés se recusam a se mover

Feche seus olhos por um momento

Segure minha mão

Para o futuro vamos fugir

 

Como um eco na floresta

O dia vai voltar

Como se nada tivesse acontecido

Sim, a vida continua

Como uma flecha no céu azul

Outro dia está voando

No meu travesseiro, na minha mesa

Sim, a vida continua

 

A vida continua"

 

 

***

 

Jarid Arraes nasceu em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 1991. Escritora, cordelista e poeta, é autora dos livros Um buraco com meu nomeAs lendas de Dandara e Heroínas negras brasileiras. Atualmente vive em São Paulo, onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres. Tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel. Redemoinho em dia quente (Alfaguara) ganhou o prêmio APCA de Literatura na Categoria Contos/Crônicas

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