Diários do isolamento #14: Luisa Geisler

Diários do isolamento

Dia 14: A seita do não-normal

Luisa Geisler

 

Hoje inseri “coronavírus” no dicionário do Word, de forma que possa escrever a respeito sem o corretor ortográfico chiar. “Covid-19”, por sua cara técnica, nunca foi sublinhado de vermelho pelo software. Finalmente, parei de clicar em “ignorar tudo”. Adicionei ao dicionário. Meu Word se juntou à seita.

Nos anos A.C. (antes de corona), uma época de normalidade e aglomeração social, eu reclamava com uma colega de faculdade a respeito de alguma injustiça de pequeno poder de uma professora. Eu tinha recebido uma nota aquém do esperado, considerando feedbacks anteriores da professora, considerando trabalhos alheios. A colega concordava, era de fato injusto por A, B e C. Mas ela se virou para mim e disse:

— Luisa, você precisa se juntar à seita.

— Que seita?

Aceita que dói menos.

Precisamos todos nos juntar à seita neste momento.

Tem surgido uma movimentação estranha de “colocar as pessoas de volta na rua”, junto da falácia do isolamento vertical (que nunca foi estudado de fato). Supondo que o governo liberasse tudo neste instante, mandasse as pessoas trabalhar, eu não iria a um restaurante me contaminar para trazer para Guilherme, que tem tendência a asma e bronquite. A professora de pilates, que tem mais de metade de alunos idosos, não voltaria a dar aula na academia. Se voltasse, teria que lidar diariamente com cancelamentos e mudanças de horário e, sendo fatalista, convites a funerais. O funcionário de telemarketing teria que começar a tirar dias de folga porque o irmão está com febre e tosse — por mais que nem precisasse de internação. As logísticas ficariam comprometidas porque o motorista de caminhão transmitiu pro funcionário do depósito. Claudete não vai fazer o transplante de córnea porque não é essencial agora, e não tem leito no hospital para ela. A funcionária da limpeza da creche vai pegar o vírus de um aluno e vai passar para o filho, que tem diabetes infantil.

Os Estados Unidos ­— com apresentações do presidente Trump, cálculos do FBI e CDC, e o país em quarentena —, em um cenário otimista de mitigação, torcem para ter apenas entre 100 e 200 mil mortos. Cem mil mortos impactam a economia. Impactam a maior economia do mundo.

Existe sair da quarentena com menos mortos e uma economia quebrada. Existe sair da quarentena com uma economia quebrada e mais mortos ainda.

Vou ser redundante.

Opção 1: economia ruim, 100 mil mortos.

Opção 2: economia ruim, 600 mil mortos.

Lembrando que 600 mil mortos impactam a economia também, se o número de pessoas mortas em si não mexe com seu coração.

Não existe normal. Não existe janeiro de 2020. Não existe “voltar ao que era”.

Esta é a seita a que eu, você, algumas figuras de autoridade, os vizinhos no boteco e meu Word precisamos nos juntar. É difícil? É muito difícil. Muitas pessoas não querem a insegurança de não poder prever o mês que vem. Ao pedir que “a economia retorne”, na verdade, pedem que isso se resolva sem que tenham que mudar, sem que tenham que “sair da zona de conforto” seja lá o que isso queira dizer). Mas olhem para Espanha, Inglaterra, Estados Unidos e perguntem a eles: dá pra voltar ao normal? Não existe voltar. Só existe ir para frente.

Em minha literatura, gosto de pensar no não lugar. No aeroporto, no meio do caminho, no estar em casa mas não se sentir num lar, no sentimento desencaixado de “eu deveria pertencer a isso, mas não consigo”. O coronavírus nos traz ao não normal. Por mais que estejamos tentando criar regras novas de convivência, as vinte dicas para manter uma rotina em tempos de quarentena, as ações solidárias tentando proteger cidadãos em situação de rua, as sessões de house party com a família, pequenos negócios tentando se adaptar a situação como podem, as academias mandando vídeos no YouTube, o governo tentando implementar uma renda básica, os quinze alimentos pra aumentar a imunidade, os restaurantes se adaptando a entregas, a torrente diária de fake news, os vídeos com jogos para pais com crianças, as ações educativas e de conscientização em todos os cantos do país, as mil promessas de produtividade em tempos de quarentena. A infinidade de lives no Instagram.

Esta semana lancei junto de Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso, Samir Machado de Machado, editado pela Luara França, o livro Corpos secos. É a história de um Brasil pós-apocalíptico assolado por humanos transformados em “corpos secos” e quatro personagens com recursos escassos tentando atravessar o país para uma zona de segurança. É um projeto de junho de 2018. Também estamos achando um novo normal de lançamento. Não dá pra dizer “a economia vai ficar bem e vamos fazer um lançamento padrão”. Ninguém iria. Inclusive, dois dos autores são grupo de risco — eles mesmos não iriam.

Quero convidar todos à minha seita. Esta é a seita que criei esta semana. Mesmo que tenham que trabalhar, mesmo que tudo esteja instável, mesmo que a vontade seja de fingir que nada está acontecendo, mesmo que pareça que é só uma gripezinha (não é). Vai ser assim por um tempo, vamos ter que achar soluções, com ou sem corona. Vamos ter que ficar em casa. Aceitem que dói menos. Não dá para voltar. Este é o novo normal: ele não é normal.

 

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Luisa Geisler nasceu em 1991 em Canoas, RS. Escritora e tradutora, é também mestre em processo criativo pela National University of Ireland. Pela Alfaguara, publicou Luzes de emergência se acenderão automaticamente (2014), De espaços abandonados (2018) e Enfim, capivaras (2019), além de Corpos secos, romance distópico de terror escrito a oito mãos com Natalia Borges PolessoMarcelo Ferroni e Samir Machado de Machado a ser lançado em breve. Foi vencedora do Prêmio Sesc de Literatura por duas vezes, além de finalista do Prêmio Machado de Assis, semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura e duas vezes finalista do Jabuti.

 

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