Diários do isolamento #20: Alejandro Chacoff

Diários do isolamento

Dia 20

Alejandro Chacoff

 

A hipocondria nasce de uma sensação de desamparo. Não sei como nasce, por sua vez, a sensação de desamparo que resulta na hipocondria. Presumo que ela venha de uma mistura explosiva de fatores públicos e privados. Fator público: uma hiperinflação confusa, em que o preço de um carro daqui a pouco será o de um chiclete. Fator privado: um assalto à mão armada na avenida Santo Amaro, o suposto vendedor de flores arrancando um trinta-e-oito e colocando-o na cabeça do meu pai. Fator público: vultos caindo das janelas após o confisco das poupanças. Fator privado: a dificuldade de uma língua nova, e a proibição vagamente religiosa de certas palavras contidas nela — diabo, demônio, puta, buceta.  

Quando Rosita, a Fox Paulistinha de minha avó, dormia na cama comigo, às vezes eu acordava no dia seguinte achando que estava com cólera. Era a época da aids, das fotos de Cazuza, mas por alguma razão eu tinha medo da cólera. Podia ser só uma pulga, ou um pontinho preto, ou uma remela translúcida no seu pêlo — para mim a cólera estava em todo lugar. Deve ter sido nessa época que comecei a lavar as mãos incessantemente. Lavava-as a todo momento, e nunca perdi o hábito, embora ele oscile, e, a julgar pelas instruções que tenho recebido nas últimas semanas, nunca lavei as mãos da forma correta.

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Às vezes, naquela época, ouvia o âncora do Jornal Nacional dizer “Casa da Dinda”, e então me sentia invadido. Aprender uma língua nova traz uma certa autoconsciência, e aquela expressão me parecia fora de lugar. Estranhava também os diminutivos – Ditinho, Zezinho, Dona Mariquinha. Me pareciam indignos. O cruzamento entre o mundo da infância e o mundo adulto me gerava uma angústia imensa. Era como se as expressões que eu ouvia no colégio fossem repentinamente emprestadas por gente mais velha. E quando um adulto chorava, eu me sentia desconfortável, quase ofendido por me colocarem na posição de presenciar a cena.

A hipocondria — ou pelo menos a minha versão privada de hipocondria — é um sentimento conectado à angústia da infância. É uma espécie de histeria paralisante. A sua premissa necessária é uma certa irracionalidade. O hipocondríaco não toma os remédios adequados, nem se exercita devidamente: ele simplesmente repete gestos inócuos que geram um conforto psicológico ilusório; se regojiza na sua própria obsessão, sem tomar atitudes. É uma resposta precária à instabilidade.

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Não sei se a memória das pessoas pulando das janelas após o confisco das poupanças é uma lembrança pura — pode ser que eu a misture um pouco com a das pessoas saltando do World Trade Center no 11 de Setembro. Naquele dia eu estava em Campinas, e a aula tinha sido cancelada porque o Toninho do PT, como era conhecido o prefeito da cidade na época, tinha sido assassinado. Lembro da consternação em relação ao assassinato do prefeito, que durou algumas poucas horas, se muito. Como a aula tinha sido cancelada, pudemos ver o atentado em casa. Eu vivia sozinho, estava estudando para o vestibular; vi os aviões atingirem as torres em silêncio, a TV baixinha. Foi a última catástrofe mundial que assistimos sem o ruído de trocas de mensagens, e às vezes me pergunto como teria sido aquela tragédia com os aparatos atuais: que tipos de memes surgiriam. Porque se as pessoas estão dispostas a fazer memes com outras pessoas dançando em torno de caixões, nessas tentativas de dessacralizar a morte em meio à Covid, elas certamente estariam dispostas a fazer memes dos atentados, talvez no mesmo dia em que eles ocorressem.  

Não é preciso ser nenhum gênio para entender que algo mudou depois daquele dia. Alguns diriam que o mundo se tornou mais perigoso. Outros diriam que se tornou mais teatral, começando com os pequenos rituais nos aeroportos — como se o ato de tirar cintos, sapatos e apetrechos pudesse de alguma forma salvar a todos. Em algum momento as pessoas começaram a querer mais desses rituaizinhos, desses simbolismos, como se neles tivesse contido todo o ouro político do mundo. Seria deter-me demasiado à forma desse texto dizer que foi justamente naquele período que outra fobia minha, a de avião, cresceu. Mas a atmosfera daqueles rituais certamente não ajudou. E agora os aviões estão todos parados, e as recomendacões são justamente para que lavemos as mãos incessantemente.

Às vezes, quando escrevo ficção, me pego voltando à infância. Antes eu achava que o impulso vinha de uma crença desarticulada na importância desse período de formação; mas ultimamente tenho achado que é um instinto mimético. Pois a separação entre a infância e a idade adulta que me parecia tão importante naquela época foi se tornando ainda mais difusa ao longo dos anos; e reconheço tanto na pandemia quanto nas nossas reações a ela o mesmo tipo de histeria paralisante do hipocondríaco. A pandemia pode de fato ser um momento para romper a complacência e descartar os rituais inócuos, como tantos dizem. Mas é inegável que ela também tem o caráter totalizante de um pesadelo de infância, como se ao inebriar-nos com todos os valores daquele período — o da gratificação imediata, o da crença em simbolismos baratos — tivéssemos criado uma ameaça que mais parece a ideia de uma ficção científica concebida por um menino de doze anos: “chegará um vírus invisível, e todo mundo, no mundo inteiro, não poderá mais sair.” Não gosto desse novo jeito de lavar as mãos; as juntas dos meus dedos estão ressecadas, meio feridas. O que fazer quando a hipocondria é justificável?

 

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Alejandro Chacoff nasceu em Cuiabá, em 1983, e mudou-se para os Estados Unidos aos dois anos de idade. Viveu no Chile, Inglaterra e Argentina, antes de voltar para radicar-se no Rio de Janeiro, onde desde 2016 trabalha como crítico de literatura e ensaísta da revista piauí. É também colaborador de publicações como The New Yorker, n+1, The Guardian e The Atlantic. Apátridas, publicado pela Companhia das Letras, é o seu primeiro romance.

 

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