Diários do isolamento #23: Elvira Lobato

Diários do isolamento

Dia 23: Mãos atadas

Elvira Lobato

 

Passei a semana debruçada sobre a máquina de costura, a produzir máscaras de pano. A maratona acabou na sexta-feira, quando se esgotou todo o meu estoque de elástico e de tecido. No sábado, uma amiga apanhou as 134 peças que confeccionei e as entregou a uma liderança comunitária em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Horas depois recebi pelo WhatsApp fotos de rostos cobertos com os tecidos que sobraram de vestidinhos, blusas e shorts de meus netos. Mantive aqueles pedaços de pano guardados por vários anos à espera de um destino útil para eles, e não poderia haver momento mais apropriado do que o atual.

Parece surpreendente, mas mal percebi a quarta semana de confinamento. Minha atenção e energia estiveram totalmente voltadas para o trabalho manual. Ao contrário das semanas anteriores, quando alternei momentos de angústia e de estresse, os últimos dias foram leves e passaram voando. Por causa da costura, parei de acompanhar a evolução da Covid-19 em tempo integral, e até a me esqueci dela por alguns instantes.

Em quase cinquenta anos de atividade como jornalista, testemunhei inúmeras tragédias e situações dramáticas de pobreza. Conheci de perto a guerra — estive em Angola, no final dos anos 80 —, vi a morte acontecer diante dos meus olhos em mais de uma ocasião no Brasil, em tempos ditos de paz. Mas nunca havia experimentado emoção como a que senti ao receber as imagens de mulheres e crianças pobres usando as máscaras que fiz com minhas próprias mãos. Penso que não percebem o quanto estão frágeis diante da pandemia. Pelas fotos, pareciam confiantes na parca proteção de minha obra.

Gostaria de usar meu tempo e habilidade para produzir mais máscaras, mas estou de mãos atadas, porque as lojas de tecidos e os armarinhos estão fechados. Acho imperdoável que as autoridades recomendem o uso de máscaras caseiras e ao mesmo tempo fechem as lojas de tecidos e aviamentos, que permitem sua confecção. Por que não foram incluídas entre os serviços essenciais, como os supermercados, as farmácias e os postos de combustíveis? Tentei comprar material pela internet, mas o prazo de entrega pode ultrapassar trinta dias úteis. A melhor saída me parece ser a permissão de funcionamento das lojas com entrega em casa.

Tenho ouvido comentários de que o coronavírus não poupa ricos e pobres, dando a entender que pode vitimar igualmente abastados e miseráveis. Nada mais hipócrita. Minha amiga Kátia, de Niterói, com quem falo todas as manhãs por telefone, resumiu a desigualdade social nesta pandemia com a seguinte frase: os ricos sofrem no iate e os pobres, na canoa furada. Sou da classe média. Estou em um cativeiro com conforto e segurança. Tenho fartura de alimentos; bom estoque de álcool em gel; dezenas de canais de TV por assinatura para me distrair e até uma bicicleta ergométrica para me exercitar sem me expor a riscos. Se contrair o vírus, possivelmente serei atendida em um bom hospital, porque tenho plano de saúde.

A população pobre das favelas e das periferias das cidades entrou nessa guerra sem água suficiente para higienizar as mãos, sem álcool que poderia compensar a falta da água e sem espaços para isolar familiares de futuros infectados. E para piorar, está à mercê da propaganda cruel do presidente Bolsonaro, que se esmera em desmoralizar o isolamento social recomendado pelas autoridades médicas.

Reduzi o tempo diante da TV, mas continuo acompanhando os programas jornalísticos sobre o coronavírus, e me chama a atenção a proeminência conquistada pelos infectologistas. Eles estão presentes em todos os canais, ensinando-nos a nos proteger do vírus e a identificar os sinais da Covid-19. Foi graças a eles que aprendi, aos 66 anos, a lavar corretamente as mãos. Tive três filhos e tratei os umbigos deles higienizando minhas mãos de forma errada. Graças a Deus sobrevivemos à minha ignorância.

Até surgir o coronavírus, os infectologistas trabalhavam no anonimato e pouco sabíamos sobre eles. Nunca conheci um pai ou mãe que batesse a mão no peito para dizer que o filho seria infectologista. Dava muito mais prestígio ser cirurgião ou cardiologista. Mas, como já existe consenso de que a Covid veio para transformar o mundo, acredito que a mudança no ranking dos ramos de maior prestigio da medicina é definitiva. Aprendemos que outros vírus piores vão aparecer. É só questão de tempo.

O prestígio dos infectologistas cresce na proporção do nosso medo e eles são instados a opinar sobre outros temas, como a saúde mental no confinamento, no que parece ser uma invasão de território dos psicólogos. Outro dia, um infectologista foi surpreendido em um programa da Globo por uma senhora que queria saber se máscara de crochê com forro de TNT é eficiente contra o coronavírus. Para meu espanto, o médico respondeu que dependia do ponto do crochê utilizado: se fosse de trama fechada, poderia, sim, ser eficaz contra o vírus.

Minha vizinhança tem estado mais quieta do que o normal. O parquinho infantil do prédio não vê uma criança faz tempo. Ontem, cheguei à varanda atraída pelas gargalhadas de duas moças que papeavam no prédio vizinho. Vasculhei as janelas dos outros apartamentos, mas foi a área de serviço de um deles que prendeu meu olhar: o secador estava repleto de máscaras protetoras. Concluí, vaidosa, que elas não eram bonitas como as que fiz e que circulam por Nova Iguaçu.

Estou há um mês sem ver meus filhos e netos. João Pedro, o mais velho, fará 12 anos na próxima semana. Ele é um garoto festeiro, e descobriu o gosto pela culinária durante o confinamento. Este aniversário ficará na memória dele para sempre. Já o imagino, no futuro, contando aos filhos, de forma teatral, sobre a grande peste de 2020.

 

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Elvira Lobato é jornalista e trabalhou na Folha de S.Paulo por 27 anos. Venceu alguns dos principais prêmios de jornalismo no Brasil, com destaque para o Prêmio Esso em 2008 pela reportagem sobre o crescimento do patrimônio da Igreja Universal. Antes da Folha, trabalhou para o Diário de NotíciasGazeta de NotíciasÚltima Hora, e foi colaboradora do Jornal do Brasil e do Opinião. Elvira é autora de Instinto de repórter, publicado em 2005. Em 2016, foi homenageada pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) pelo conjunto de seu trabalho jornalístico. Em 2017, publicou Antenas da floresta: a saga das tvs da Amazônia pela editora Objetiva.

 

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