Diários do isolamento #33: Eliana Sousa Silva

Diários do isolamento 

Dia 33: “Dificilmente um vírus que não se vê vai assustar...” 

Eliana Sousa Silva 

 

A frase que dá título a este texto é de um morador da Nova Holanda, na Maré. Perguntei a ele o que achava do fato de a população das favelas, em geral, mostrar desconfiança com o discurso das autoridades da saúde — no país e no mundo — sobre gravidade do que pode ocorrer nessas áreas, caso não se cumpra o isolamento social recomendado. “Dificilmente um vírus que não se vê vai assustar...”, disse ele. Ponderei, reconhecendo as dificuldades concretas dos moradores de favelas em cumprir os protocolos preconizados para a não contaminação pelo coronavírus — não é apenas uma questão de desejo, obviamente. “Fica difícil pra nós saber se isso tudo é verdade, Eliana. Cadê o vírus? O vírus da dengue a gente consegue ver, mas esse aí ninguém enxerga. Será verdade, mesmo?”, indagou.  

Confesso que arregalei os olhos quando ele me perguntou se tudo o que estava acontecendo era mesmo verdade, se não podia ser um grande complô. Será que a China não tinha plantado essa doença? Outras doenças já tinham matado muito mais gente e ninguém nunca fez esse alarme todo de parar tudo. Nessa hora, meu sentimento foi um misto de raiva e perplexidade. Constatar que uma parte significativa da população brasileira lê a realidade e a sua própria vida a partir de pensamentos e visões que destorcem, manipulam e estão a serviço da manutenção do estado de coisas que gera a desigualdade e a violência que nos acompanham historicamente me causou esgotamento. Senti-me prostrada diante daquele morador, buscando forças para argumentar que há muita coisa além do que ele percebe, e eu também, claro.  

Olhando para o meu fazer, a minha energia, dei-me conta de que esta foi a última semana do primeiro mês da campanha “Maré Diz Não ao Coronavírus”. Um mês de entrega de cestas de alimentos e kits de higiene pessoal e limpeza aos moradores das dezesseis favelas da Maré. Como já partilhei aqui, essa ação emergencial que a Redes da Maré definiu realizar como resposta ao momento atual envolve várias frentes de trabalho: (i) a doação direta de alimentos e outros itens; (ii) a preparação de refeições diárias; (iii) a elaboração de conteúdos de comunicação sobre prevenção à Covid-19; (iv) a produção de máscaras; e (v) o acolhimento de moradores que, no contexto da crise, demandam informações sobre seus direitos ou que, em diferentes situações, sofrem algum tipo de violência.  

Temos o desafio gigante de lidar com necessidades de famílias que já se encontravam em situação de pobreza extrema. Dimensionamos inicialmente em 6 mil o número dessas famílias, mas agora há também as que começam a perder renda em função dos efeitos da crise. Chega a apavorar o número de pessoas que nos procuram todos os dias, pois fica patente o tamanho e a profundidade da negligência do Estado brasileiro com a maioria da sua população.  

São demandas de muitas ordens. Das mais básicas — relacionadas à escassez de comida e à falta de informações sobre como lidar com a contaminação pelo coronavírus, que chega cada vez mais perto — às específicas do campo da saúde. Com estruturas já bastante precárias, hoje o sistema de saúde na Maré não tem a menor condição de atender à sua população. E já começa a ser visto de forma clara o que temíamos desde março de 2020, quando foi anunciada a necessidade de quarentena no país: a contaminação das populações de favelas e periferias.  

As notícias sobre moradores que procuram atendimento médico e que vêm a falecer estão se tornando corriqueiras. E o mais grave é que não se tem um diagnóstico claro sobre as razões dessas mortes. Alguns óbitos apontam, por exemplo, insuficiência respiratória, mas a recomendação é que o enterro seja feito com os protocolos de uma pessoa contaminada por coronavírus, que é o caixão lacrado, um número restrito de pessoas acompanhando o funeral e sem velório. Ou seja, os testes para identificação da Covid-19 não chegaram às pessoas das áreas periféricas do Rio de Janeiro e, acredito, de outras regiões do país. O triste é constatar que já sabíamos disso tudo de antemão.     

O correr da vida tem sido difícil pra mim. Lidar com a devida clareza sobre como não vacilar com os meus cuidados pessoais, principalmente com a minha saúde, é algo que me atormenta. Digo isso porque não quero esquecer em nenhum momento da importância que isso tem pra mim. E nas minhas idas para trabalhar nas ações da campanha na Maré fica evidente a relevância do que estamos produzindo a partir da articulação e do contato com a população.  

Na última sexta-feira, passei por uma dessas situações que nos fazem pensar nos limites e desgraças da vida como ela é, mas também na importância do trabalho coletivo e da partilha de valores pelo bem comum. Ao final de um dia intenso de entregas de cestas básicas e kits de higiene pessoal e de limpeza, chegou uma mensagem no meu celular, em forma de denúncia, de que alguns dos itens doados na campanha — como sabão líquido e álcool gel — estavam sendo vendidos.  De pronto, perguntei onde isso estava acontecendo e fui até lá com mais duas pessoas da Redes presentes no momento. Ao mesmo tempo, enviei mensagem no grupo dos dirigentes das Associações de Moradores de todas as favelas da Maré relatando a mensagem e informando que era preciso esclarecer rapidamente a situação. Pedi ajuda dessas pessoas, já que parte das doações é feita com a participação deles.   

Quando cheguei ao local, me deparei com um comerciante cuja loja tinha na frente bancas expondo os produtos doados à campanha. Aquela cena me causou uma indignação enorme e fui direto falar com ele. Perguntei se ele sabia que aqueles produtos não podiam ser vendidos, que era um absurdo vender algo que foi destinado à doação, enfim. Ele ficou bem nervoso dizendo que não sabia. De forma súbita, comecei a recolher os itens expostos e pedi que ele me entregasse tudo que ele havia comprado. Reclamando, ele foi pegando e trazendo para perto de mim.  

Ao mesmo tempo, alguns presidentes das Associações de Moradores se movimentaram e conseguiram descobrir a pessoa que havia feito o desvio e vendido os produtos a alguns comerciantes da área. Corri até a casa do rapaz e ele já estava muito nervoso quando cheguei. Falei da gravidade do que ele fizera e se sabia o que poderia causar em relação à campanha. Mas qual não foi a minha surpresa ao saber que, na realidade, o desvio não havia sido cometido por moradores que tinham recebido apoio, mas por alguém que trabalhava na transportadora responsável pela entrega dos produtos. Ou seja, o roubo acontecera antes da nossa distribuição à população.  

Ao saber disso, pedi ao rapaz que me levasse a todos os estabelecimentos para os quais havia vendido os produtos, pois eu precisava recolhê-los. Comecei uma peregrinação por sete locais onde estavam comercializando o sabão líquido e o álcool gel. O que sentir, o que pensar diante de fatos como esse? Sigo nessa caminhada de percalços e desafios para novas aventuras.  

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Eliana Sousa Silva nasceu em Serra Branca (PB) e morou na Maré durante 25 anos. É autora do livro Testemunhos da Maré (Aeroplano, 2012) e fundadora da Associação Redes de Desenvolvimento da Maré, da qual é diretora.

A Redes da Maré promove mais de vinte projetos de desenvolvimento local, arte, cultura e educação nos territórios da Maré, com destaque para o Curso Pré-Vestibular Comunitário da Maré, o Programa Criança Petrobras na Maré e o movimento “A Maré que Queremos”, com mobilização social e fórum permanente para debater a melhoria da qualidade de vida nas comunidades da região.

Recebeu diversos prêmios, entre os quais o Empreendedores Sociais, da Ashoka (2000). Atualmente é também consultora do Canal Futura e da Associação Cidade Escola Aprendiz, de São Paulo, e está escrevendo um livro sobre a criação da Redes da Maré, que será publicado pela Zahar.

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