Diários do isolamento #35: Luisa Geisler

Diários do isolamento

Dia 35: A pesares

Luisa Geisler

 

Acabei hoje Zona Quente, um thriller de não ficção de 1994, a respeito do surgimento e quase-momentos-fatais com vírus causadores de febres hemorrágicas, como o marburgvirus e o ebolavirus. Se você não lembra da histeria (justificada) com o ebola alguns anos atrás, só quero dizer: vomitar o próprio intestino e taxa de letalidade de até 90%.

Tenho lido muito da ganhadora do Nobel Svetlana Aleksiévitch. Meu favorito é Vozes de Tchernóbil, que é uma não ficção que dialoga com o pior desastre nuclear da história, a explosão da usina nuclear de Tchernóbil. Gosto de trechos, do aspecto humano, de como pessoas encontram soluções, encontram esperança, em ideias potencialmente idiotas que nem sabem se funcionam totalmente. Como, por exemplo, tratar queimaduras com leite. Existe uma série da HBO que usa algumas histórias do livro.

Essas duas histórias reais me fazem pensar em como tudo poderia estar pior, muito pior. Como o coronavírus, por mais que seja perigoso, poderia ser pior. Uma das teorias da conspiração de que “é um vírus criado em laboratório” é facilmente rebatida com a ideia de: se é um vírus criado, por que não foi criado mais fatal? Há vírus muito mais perigosos, cujas vacinas já entram num protocolo de existência. Não se conhece muita gente que morreu de raiva (o vírus), mas não recomendo buscar no Google.

Então, sim, poderia ser pior.

Apesar de causar sobrecarga no sistema hospitalar, poderia ser pior. Apesar de que milhares de pessoas vão morrer, vão ficar sem emprego, poderia ser pior. Apesar de que a economia vai sofrer um baque gigante, poderia ser pior. Apesar de nosso presidente ser inútil, há presidentes recomendando injetar desinfetante para curar o vírus (Trump).

Uma grande preocupação em minhas crônicas aqui é meu aspecto classe média sofre. Estou bem em casa. Tenho eletricidade, internet, até álcool gel. Eu já trabalhava em casa. Tenho trabalho por algum tempo. Tenho uma rede de segurança e apoio. Sou branca, (relativamente) sã de corpo. Mozão conseguiu adaptar parte do trabalho para casa. Meus gatos são lindos e saudáveis. Não tenho filhos, que poderiam aumentar ansiedade e dificultar uma rotina. Uma boa parte da família faz e respeita quarentena e não espalha fake news sobre hidroxicloroquina e OMS. Nunca, em toda minha vida, precisei me preocupar se haveria saneamento básico onde moro. Eu entendo que estou no pico de um Everest de privilégio.

É claro, é claro, isso tudo apesar de trabalhar com cultura, apesar de temer por todos aqueles que amo, apesar de saber que vamos sofrer mais cortes, apesar de ter parado com vários tratamentos contínuos e provavelmente já estar com deficiência de vitamina D. Apesar de que cada vez que vejo a cara da mula eleita, quero morrer de raiva (vírus ou não).

Estou no pico do Everest do privilégio de uma situação que também poderia ser pior. Não é uma explosão nuclear. Não é ebola. É ficar em casa.

Não estou reclamando de lavar a louça ou fazer comida. Talvez não seja bem o pico do privilégio, porque lavo roupa. Mas existe uma narrativa vigente sobre o privilégio de estar em casa, que é a narrativa de que “é só ficar em casa”. Eu, Luisa, adoro ficar em casa. Sou campeã olímpica de não ir a eventos.

Mas não gosto de não poder comemorar Páscoa com minha mãe. Não gosto de dizer para minha avó que ela não pode conhecer seu bisneto de dois meses (meu sobrinho, o mais belo bebê). Não gosto de não poder ir ao teatro, cinema, ao mercado escolher. Não gosto de que amigos autores tenham que fazer lançamentos online de ebooks. Odeio livrarias fechadas. Não gosto que não pude abraçar os queridos coautores do Corpos secos, um romance apocalíptico sobre mortos-vivos no Brasil que lançamos este mês. Não gosto do susto que tomo quando um amigo diz “minha mãe foi internada hoje” e não gosto de sequer cogitar como seria lidar com a notícia eu mesma. Não é da louça que reclamo.

Eu estou bem. Mas não estou. Poderia estar pior. Mas poderia estar muito melhor.

Me sinto inútil. Compro do comércio local, não acumulo papel higiênico, nem abóboras, dou uma gorjeta significativa para entregadores de aplicativo quando não consigo contatar os próprios mercados/restaurantes e fazer pedidos sem mediação. Porque sou extremamente grata a todas as pessoas que são trabalhadoras essenciais — e nem sabiam.

Sei que todo mundo quer que acabe, sei que está difícil para todos — alguns mais que outros. Mas na narrativa do “você deveria agradecer o que tem”, na narrativa do “está mais difícil para os outros”, acabamos esquecendo o começo da frase: sim, está difícil para nós. E por um instante, eu penso nisso. Que está ruim, mas eu posso pensar nisso. Eu não preciso ser uma instagrammer #blessed ou feliz que ajusta a rotina sem problema.

Sofrer é válido. É por isso que se escreve. A cientista Nancy Jaax tratava macacos das Filipinas doentes de uma doença misteriosa, até se dar conta de que havia um furo em seu macacão de segurança, e na outra camada, da outra veste também. Ela quase pegou Ebola, se não fosse pela última (primeira) camada de luvas, a mais fina, as luvas descartáveis comuns. Eu senti agonia por ela. Não disse: “Mas pelo menos a Nancy tinha um teto em cima da cabeça, e um marido que a amava e dois filhos.” Não disse: “Nancy teria que ficar de quarentena isolada, só lidando com pessoas em macacão de astronauta tirando amostras de sangue, mas pelo menos ela tinha plano de saúde.”

Parto do pressuposto de que se você tem internet e é alfabetizada, é uma pessoa privilegiada também. Por mais que seja verdade, por mais que esteja difícil para “todos (os outros)”, está difícil para nós também. Por mais que pensemos nos outros, também é importante ver o nosso sofrimento. E aceitá-lo. Acho que será um adendo à seita do outro post. E tá uma merda pra todo mundo. Pode ser uma merda mais suave, mas merda é merda igual.

***

Luisa Geisler nasceu em 1991 em Canoas, RS. Escritora e tradutora, é também mestre em processo criativo pela National University of Ireland. Pela Alfaguara, publicou Luzes de emergência se acenderão automaticamente (2014), De espaços abandonados (2018) e Enfim, capivaras (2019), além de Corpos secos, romance distópico de terror escrito a oito mãos com Natalia Borges PolessoMarcelo Ferroni e Samir Machado de Machado a ser lançado em breve. Foi vencedora do Prêmio Sesc de Literatura por duas vezes, além de finalista do Prêmio Machado de Assis, semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura e duas vezes finalista do Jabuti.

 

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