Diários do isolamento #39: Jarid Arraes

 

Então, então você acha que consegue distinguir o paraíso do inferno, os céus azuis da dor? Consegue distinguir um campo verde de um trilho de ferro gelado? Um sorriso de um véu? Você acha que consegue distinguir?

Quero te contar sobre os tremores das minhas mãos. Eu sempre tive um tremeliquizinho nas mãos, e que vai e volta dependendo, penso hoje, do que está acontecendo na minha vida. De vez em quando, o tremor vem discreto, só quando seguro objetos de certa maneira específica. Depois some, só vem falar comigo muitos dias mais tarde. Mas agora minhas mãos estão tremendo muito, mesmo paradas, mesmo quando olho para elas tentando dizer, aguentem aí. Elas tremem quando seguro o celular, quando tento tirar uma foto, quando mexo um copo. É um balanço rápido, mas discreto. Eu sinto a fraqueza das mãos dissimuladas. Elas acham que eu não estou percebendo.

 Agora penso que tudo treme porque o mundo treme o Brasil treme e não tem sistema nervoso que não se liquidifique junto. Acho que é isso. Isso e a cafeína do refrigerante que tenho bebido todos os dias. Eu tinha parado de beber refrigerante e só bebia café descafeinado. Ainda não bebo, ainda sou a pessoa que parou porque é melhor pros nervos, é um cuidado com a ansiedade, um carinho pra que ela não fique chateada comigo e se aguente quieta. Mas a pessoa que sou enquanto o mundo e o Brasil são triturados, essa pessoa talvez seja outra e ela voltou a beber refrigerante.

Você já parou pra considerar não consumir mais cafeína? Essa é sempre uma das primeiras coisas que recomendo para quem sofre com muita ansiedade, depressão, pânico, estresse pós-traumático. Eu digo, dá uma segurada nos estimulantes. Açúcar também, pega leve bem leve. Claro que você deve fazer terapia, se puder, e buscar ajuda psiquiátrica, se precisar, se puder, e meditar e fazer exercícios físicos, se conseguir. Mas se não dá, pelo menos pare com as substâncias estimulantes. Pare durante o isolamento social e me diga como é. Porque eu, parece que eu esqueci.

Minhas mãos estão tremendo todos os dias. Elas travam de vez em quando, e me dá um sentimento ruim quando preciso destravar e pegar de outro jeito nas coisas. Penso que melhoraria, se eu fosse a pessoa de dois meses atrás. Penso no meu avô que teve Parkinson, no meu irmão que treme uma mão também. Me diga como é não sentir a cafeína, o açúcar e o tremor. Eu acho que esqueci, porque minhas mãos tremem todos os dias.

 

Eles te convenceram a trocar seus heróis por fantasmas? Cinzas quentes por árvores? Ar quente por uma brisa fria? Consolo por mudança?

Você acredita que recebi um e-mail todo em CAPISLOQUE, todo em letras maiúsculas, de uma pessoa que comprou meus livros e cordéis na minha lojinha e que achou um absurdo a demora para receber? Eu mandei e-mail pros compradores explicando que ainda não terminei meu tratamento de câncer, mas essa pessoa estava chateada, muito chateada, e me escreveu com todos os valores de sua grosseria.

Eu entendo quem é rugoso e áspero. Só é mais difícil entender quando eu sou obrigada a tatear os relevos. Mas eu entendo e respondo quase formando texturas na minha superfície. Eu digo eu não sou uma livraria eu não tenho uma linha de produção eu faço tudo sozinha eu sou uma autora independente com meus cordéis e além de tudo eu tenho câncer imagina só isso então estou com um pouco de medo de encarar os Correios sabe mas não se preocupe já cliquei no botão que devolve o dinheiro para seu cartão de crédito pode desenrugar. E você acredita que a pessoa respondeu em letra minúsculas e disse, que pena, eu queria muito os livros.

Eu entendo o impulso e a raiva. E depois a decepção, principalmente consigo mesmo, porque seu impulso acabou levando a um resultado diferente do que você queria.

 

E você trocou um papel de figurante na guerra por um de protagonista numa cela?

Se você pudesse ouvir os estralos das minhas mãos, seria mais fácil entender porque tenho tanta raiva, e por que me decepcionei tanto, e por que quero distância definitiva, e por que reclamo tanto das pessoas que poderiam, mas continuam botando cafeína pra dentro na companhia dos amigos.

Meus olhos também são outros olhos e as pálpebras também estão trêmulas. A esquerda sempre se perturba toda quando a vida está pesada. As pessoas estão jogando pesos pra todos os lados e quem será que vai segurar? Talvez a escritora idiota não indo aos Correios. Talvez a imbecil que evita sair para pegar o elevador quando escuta os vizinhos subindo e descendo para seus trabalhos e vidas externas. E a rua está mais barulhenta do que semana passada. Está tudo tão irresponsável que tenho dificuldade de escrever se não fechar todas as portas, janelas e ligar o ventilador e o ar condicionado. Eu quero me recolher dentro de um white noise e me encaracolar inteira de raiva.

Se você pudesse dizer algo para quem está furando o isolamento, você usaria Caps Lock, vários, para capislocar sua raiva? Qualquer hora dessas eu mando uma mensagem e digo, você está traindo a confiança de quem lida com mãos trêmulas. Mas ninguém disse para o cérebro confiar nas pessoas. Essa é uma escolha.

 

Como eu queria, como eu queria que você estivesse aqui. Somos apenas duas almas perdidas nadando num aquário, ano após ano, repetindo o mesmo velho caminho.

Ontem eu liguei o bluetooth entre o celular e a televisão e ouvi música. Eu gosto de ouvir música bem alto, bem alto, mas meu namorado acha desconfortável e então eu aceito ouvir mais ou menos alto. É que eu estou sempre buscando a sensação da adolescência, quando eu estava descobrindo a música. Quando eu deitava de barriga pra cima na cama, fechava os olhos, e sentia os solos, o baixo e a voz me transportando para outro lugar, talvez outra dimensão, e meu corpo inteiro era completado pelas notas. Eu me trancava no quarto da chácara dos meus avós, colocava uma fita K7 com músicas variadas do Led Zeppelin, e me sentia incrédula. Então música era isso?

A tarde chegando ao fim, eu descobrindo como ouvir música.

Faz tempo que não sinto desse jeito. Ontem foi quase. Coloquei Pink Floyd e a memória do meu quarto todo tomado veio cheia de vida. Eu quase cheguei lá.

Mas, sabe, minhas mãos estão me distraindo. Elas tremem e eu vejo pessoas que gostava fazendo tudo errado. Eu me transformo num ser rugoso e áspero. Que treme.

Eu queria que você pudesse entender. Mas, se não puder, me faz um favor? Coloque Pink Floyd pra tocar.

 


E como encontramos os mesmos velhos medos.
Queria que você estivesse aqui.

 

(Os trechos em itálico são uma tradução da música “Wish you were here”, do Pink Floyd. Essa é a minha interpretação da poesia da letra, mas ela foi escrita para abordar a relação de Waters e dos outros músicos da banda com o ex-membro Syd Barret e seus problemas com drogas, parte do que o levou para fora do grupo. A letra é ainda baseada num poema de Waters, sobre Syd, em que ele fala sobre como o amigo se afastou da realidade. Ela é cheia de referências, incluindo uma alusão a uma letra escrita por Syd, “Hold you tighter so close/ Yes you are/ Please hold on to the steel rail”. “Wish you were here” também expressa a dicotomia entre ambição e idealismo. Essa foi uma das raras vezes em que Roger Waters e David Gilmour compuseram juntos uma música. Se você lê em inglês – ou se usar um tradutor –, talvez queira entender melhor o contexto da música e de certas expressões dúbias, não capturadas aqui por minha tradução. Veja aqui.

 

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Jarid Arraes nasceu em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 1991. Escritora, cordelista e poeta, é autora dos livros Um buraco com meu nomeAs lendas de Dandara e Heroínas negras brasileiras. Atualmente vive em São Paulo, onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres. Tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel. Redemoinho em dia quente (Alfaguara) ganhou o prêmio APCA de Literatura na Categoria Contos/Crônicas.

 
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