Diários do isolamento #4: Jarid Arraes

Jarid Arraes

Os “Diários do isolamento” são parte do projeto Leia Em Casa — que está oferecendo uma série de conteúdos especiais para quem vai permanecer em casa nos próximos dias — e pretendem fazer um registro coletivo de uma experiência nova, inesperada, cheia de incertezas e que ainda não sabemos quanto tempo durará.

A ideia é tentar diminuir a distância entre as pessoas, aproximando vozes distintas, de áreas, opiniões e idades variadas, como uma conversa em que os relatos se complementam. A cada dia um autor diferente traz para o leitor um texto sobre a vivência deste momento difícil em que a união é fundamental para mantermos a saúde física e mental. Participam da do projeto Jessé Andarilho, Elvira Lobato, Fábio Moon, Jarid Arraes, Eliana Souza Silva, Alejandro Chacoff e Luisa Geisler.

E nunca é demais lembrar: em tempos assim, a leitura e a informação são essenciais — e o livro segue sendo a melhor companhia.

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Diários do isolamento

Dia 4

JARID ARRAES*

Foto por Jarid Arraes

 

Hoje encontrei uma babá levando uma criança para passear num carrinho de bebê. Vi pelo vidro do elevador, abri um pouquinho a porta e fechei. Deixei que fossem. Quando o elevador voltou, peguei o pacote que estava no chão e que tinha sido deixado ali para mim. Eram livros que não comprei, livros desses que ganho porque tenho um número bom de seguidores nas redes. Fiquei pensando como pode. Como pode aquela mulher ter que descer pra passear com um bebê, como pode uma editora me enviar um pacote de livros pra que eu presumidamente faça uma propaganda gratuita. Como pode, nesse contexto, que eu tenha que descer dentro do elevador em que um condomínio inteiro tem descido, assinar num caderno que um condomínio inteiro tem assinado, para, pela clara expectativa dos outros, trabalhar de graça depois de me expor ao vírus? Sorte que dessa vez o pacote foi deixado no elevador. Só tive que me desfazer da caixa como quem se desfaz de uma maldição; depois limpei os livros, depois os esqueci na estante. A irritação comendo minhas beiradas.

Não tenho mais trabalho. Todos os eventos que iria fazer foram cancelados. Estou, desde o dia 11 de março, em isolamento. Não saí nenhuma vez. Fiz compras de farmácia pela entrega do site e compras de mercado por WhatsApp, o que eu já tinha hábito de fazer com o mercadinho da rua ao lado. Duas coisas mudaram: parte do conteúdo da compra e o sentimento de culpa. Minha feira do isolamento tem coisas que eu não comia há muito tempo, por exemplo, pizza e lasanha congeladas; ou coisas que como com pouca frequência, tipo arroz e feijão. Pensei no que é mais fácil pra substituir os dias de delivery. E pensei no que é mais duradouro. E apesar de ter deletado o delivery de comida pronta, a relação com a entrega do mercado e da farmácia também é cheia de culpa. É um sentimento que vem com um fantasma muito inteligente. Ele argumenta. Você diz que a estrutura social, que o governo, que o sistema político. Ele diz e a sua escolha, e como você se posiciona, por que vale para umas coisas e para outras não. E talvez seja possível viver com a contradição interna. A gente vive girando entre tantas coisas que nos agoniam e nos fazem sentir como pessoas piores.

Não sei.

Todos os dias escuto meu vizinho sair para trabalhar. Da última vez em que ouvi ele voltar, sua filha, que é alguns anos mais nova que eu, falou muito irritada para que ele tirasse logo o sapato e fosse lavar a mão o braço o rosto e largue essa pasta aí. Ele respondeu com um tom tão humilde e cansado, parecia que a filha era sua mãe e ele estava com medo de ficar de castigo. Disse eu vou tomar banho, eu vou tomar banho. Fiquei triste, como pode, como pode. Já é 26 de março e ele continua saindo para trabalhar. Já é 26 de março e a moça que é babá tem que descer para passear com um bebê. Vinte e seis de março e eu sei que não vou ter dinheiro para outra feira grande, conta de telefone, gás, luz, cartão de crédito, remédios. Eu estava quase terminando meu tratamento de câncer. Faltava um exame e a radioterapia. Me disseram que tratamentos para câncer não seriam interrompidos, mas eu tenho alguns sintomas de coronavírus. Por enquanto, não quero sair do meu isolamento e ficar ainda mais vulnerável fisicamente. A rádio vai ter que esperar? O que consegue esperar?

Nem a vida, nem a morte, esperam. São movimentos, espasmos, pulos, sustos, insights, estralos. Espera é a palavra mais desencaixada.

Antes de entrar em isolamento, quase marquei uma consulta com meu cirurgião só para agradecer pela cirurgia. Porque, sabendo da metástase, em suas palavras, limpou tudo. Foi até o quarto, depois da cirurgia, e falou pro meu namorado que limpou tudo, limpou tudo. E mesmo que eu tenha agradecido várias vezes pelo seu trabalho, quando fiz o penúltimo exame de imagem e outro médico disse que agora estava tudo perfeito, sem sinal de metástase, eu senti que não tinha agradecido o suficiente. Eu queria levar uma caixa cheia de presentes para meu cirurgião.

Gosto de dar presentes meio exagerados, muitas coisas juntas, e provavelmente ele deve ser casado e deve ter filhos, não sei, não reparei nas mãos dele, que coisa, mas eu quase marquei a consulta só pra isso. O nome dele é Renato. Como eu não posso ir ao hospital entregar presentes, vou mandar uma mensagem – por WhatsApp – agradecendo: Renato, você me poupou de tanta coisa. Que imensa e linda é a Ciência. Renato, provavelmente você não está isolado, está trabalhando até mesmo fora da sua área, como uma das participantes da minha mentoria de escrita que também é médica. Renato, eu desejo que vocês fiquem bem. Penso nisso sempre. Penso muito.

Penso, agora, enquanto escrevo, nos projetos literários que estão pausados. Nos problemas literários que estão por resolver. Me sinto pendurada pelo pé esquerdo, o sangue todo descido para a cabeça. Nunca soube esperar.

O que tem me ajudado é o videogame. Jogo Animal Crossing, Pokémon e The Sims 4 mais do que assisto séries e filmes. Sei que tenho que me exercitar, então vou jogar Just Dance. Gostaria de jogar o Ring Fit Adventure, mas não consigo encontrar em lugar nenhum – a produção foi interrompida na China por causa do coronavírus. Queria ter Mortal Kombat 11, acho que vou providenciar. Não fico entediada e observo com curiosidade os relatos de quem está em casa há quatro dias e já não suporta o isolamento. Nunca imaginei que justo eu seria uma das pessoas que mais estaria confortável com a própria companhia.

O que me devora com dentinhos de agulha é saber que tudo já mudou para pior. É não saber o que será. Ou saber algumas coisas que serão.

Comida, trabalho, salário, dinheiro, casa, água, saúde, liberdade, arte. Todos os dias as mesmas palavras deixando minha cabeça pesada.

 

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Jarid Arraes nasceu em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 1991. Escritora, cordelista e poeta, é autora dos livros Um buraco com meu nome, As lendas de Dandara e Heroínas negras brasileiras. Atualmente vive em São Paulo, onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres. Tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel. Redemoinho em dia quente (Alfaguara) ganhou o prêmio APCA de Literatura na Categoria Contos/Crônicas.

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