Diários do isolamento #44: Elvira Lobato

Diários do isolamento 

Dia 44: Calundu 

Elvira Lobato 

 

A sétima semana de confinamento foi dura. Estou de calundu, desanimada, sem perspectiva de dias melhores. Meu plano de fuga para o litoral norte fluminense naufragou. Sonhava escapar do Rio de Janeiro e passar alguns dias com meu filho, nora e netos na casa de praia onde estão refugiados, mas o prefeito de lá isolou a cidade e colocou barreiras para impedir o acesso de quem não for morador. Em retaliação, me esbaldei na festa virtual de aniversário da minha enteada. Toda família conectada e falando ao mesmo tempo.   

O coronavírus se aproxima cada vez mais da ilha de isolamento em que me encontro. Nos últimos dias, um amigo jornalista e um casal conhecido de meia-idade foram atingidos. Há relatos de quatro porteiros de prédios próximos com diagnóstico ou suspeita da doença, que deixou de ser uma ameaça invisível e é cada vez mais real e palpável. Da minha varanda, acompanho a passagem dos dias. A TV fala do aumento do número de pessoas nas ruas, mas o movimento nas minhas imediações tem se mantido estável, com cara de feriado. Reconheço à distância as mesmas pessoas que praticam esporte diariamente na praça em frente, e elas me parecem alheias ao risco da contaminação. 

O final de semana foi chuvoso. Vivo no Rio de Janeiro há quase cinquenta anos e os cariocas, como bem observou Adriana Calcanhoto, não gostam de dias nublados. Passei o domingo macambúzia. A vizinhança também tem estado silenciosa. Uma noite dessas o marasmo foi quebrado por uma barulheira repentina. Pensei que fosse um novo panelaço, mas em vez do som metálico das panelas ouviam-se gritos, choro, reclamações, protestos. Um morador do bloco de apartamentos dos fundos agrediu a mulher diante das crianças que tentaram defender a mãe. Toda a vizinhança se mobilizou. Alguns moradores ameaçaram chamar a polícia, e o homem se aquietou. Foi uma cena inédita no condomínio. Todos estão com os nervos à flor da pele. 

Não consigo evitar os pensamentos sombrios. Pela primeira vez, a morte ganhou espaço na minha pauta de discussão. Tenho conversado sobre a finitude com uma grande amiga que está em tratamento de câncer. É uma troca delicada de ideias, tanto da minha parte quanto da dela. Receio magoá-la; ela quer me preservar emocionalmente e exagera em ser leve ao falar de suas dores e medos. Somos ambas jornalistas. Nenhum assunto, portanto, deveria ser tabu para nós, que endossamos o lema de que não há assunto nem pergunta indiscreta. Sou curiosa sobre os momentos finais da vida, mas hesito em ir mais fundo. Às vezes choramos ao telefone. Mas ao final nossas conversas sempre descambam para a risada e nos despedimos, senão felizes, mais aliviadas. 

Minha filha caçula fala sobre a morte com uma naturalidade que nunca tive. Ela consegue ver poesia no final da vida. Eu sou da linha oposta. Criada no meio rural, cresci ouvindo histórias sobre aparição de mortos. Na minha infância, só crianças acompanhavam o enterro de outra criança, além dos parentes diretos do morto. Era um ritual de “anjinhos”. As almas penadas vigiaram minhas noites de sono quando menina. Tive medo delas mesmo depois de adulta. Quando meu pai morreu, há 25 anos, todos os filhos se aproximaram do caixão para a despedida final. Alguns choraram com a cabeça sobre o peito dele, outros lhe beijaram a face. Eu me aproximei e lhe pedi baixinho: Pelo amor de Deus, pai, não apareça pra mim. Depois do enterro dele, como por milagre, perdi o medo das almas. 

Sou, como disse, apaixonada pela vida. Se pudesse, me replicaria em vários corpos para saciar a fome de viver. Mas não encontro motivos para ser otimista neste momento. A agressividade da epidemia, a rapidez com que ela tem ceifado vidas, a inexistência de remédios para a cura seriam ingredientes suficientes para nos deixar a todos com os nervos em frangalhos. Mas isso é pouco, perto do estrago causado pelo discurso e atitudes do presidente Jair Bolsonaro, que dá demonstrações de desprezo pela vida. Pela vida dos outros, claro. Todos os dias ele esfrega sua rudeza na nossa cara. Quando o Brasil ultrapassou a China no número de mortos pela Covid, em 28 de abril, ele nos mostrou sua mesquinha filosofia de vida: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagres.”  

Passei o último Dia de Finados na cidade de Huaquechula, no México. É uma aldeia pobre com casinhas de muros de pedra, nas imediações da belíssima cidade de Puebla. As famílias recém enlutadas de Huaquechula erguem altares nas salas de suas casas para homenagear o parente morto, e os visitantes são convidados a entrar para conhecer a história dele. Nos altares, além de fotos do defunto, são depositados seus pratos e bebidas prediletas porque os mexicanos acreditam que os espíritos voltam às suas casas naquela data. Para ajudá-los a achar o altar, as famílias fazem caminhos de flores amarelas. A viagem me ensinou que reverenciar os mortos é também reverenciar a vida. Bolsonaro diria: e daí?

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Elvira Lobato é jornalista e trabalhou na Folha de S.Paulo por 27 anos. Venceu alguns dos principais prêmios de jornalismo no Brasil, com destaque para o Prêmio Esso em 2008 pela reportagem sobre o crescimento do patrimônio da Igreja Universal. Antes da Folha, trabalhou para o Diário de NotíciasGazeta de NotíciasÚltima Hora, e foi colaboradora do Jornal do Brasil e do Opinião. Elvira é autora de Instinto de repórter, publicado em 2005. Em 2016, foi homenageada pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) pelo conjunto de seu trabalho jornalístico. Em 2017, publicou Antenas da floresta: a saga das tvs da Amazônia pela editora Objetiva.

 

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