Diários do isolamento #48: Luisa Geisler

Diários do isolamento

Dia 48: Os passados pra trás

Luisa Geisler*

 

Um aviso importante antes deste texto:

Temos um problema grave de subnotificação. Estima-se que o número de casos de Covid-19 no Brasil é superior a 1,6 milhão. Temos um estouro de pessoas com causa mortis por “síndrome respiratória aguda”. Como se houvesse algo matando pessoas de forma respiratória. Por mais que os Estados Unidos estejam com mais contaminados e mortos oficialmente, isso é porque os Estados Unidos têm testes. O Brasil, considerado um dos epicentros do vírus no mundo, realiza cerca de 1.597 testes por milhão de habitantes, sendo que os Estados Unidos fazem 44.132 testes por milhão de habitantes, e são criticados por este ser um número baixo. Pra piorar, muitos dos testes no Brasil nem são confiáveis.

Vamos fazer de conta, fazer um grandessíssimo de conta, que os números divulgados são reais. Porque são reais, só são incompletos.

São dados reais e incompletos como a campanha da Secretaria Especial de Comunicação da Presidência da República: “Mais de 48 mil brasileiros já estão curados da Covid-19.” O #NinguémFicaPraTrás . Um número real? Real. Mas incompleto? Incompleto também. É como dizer que nunca falamos dos milhares de judeus que sobreviveram ao Holocausto.

Dito isso.

 

O projeto Inumeráveis Memorial é uma página no Instagram que ajuda a se situar. No dia de entrega deste texto, 8 de maio, eram 9.190 brasileiros mortos por Covid-19.  Deixados para trás.

Sobre João Tavares, de 81 anos, vítima de coronavírus em São Paulo, a página diz: “O melhor jogador de baralho de todos os tempos. Mas tem algo que ele fazia melhor: ser marido, pai e avô.”

Sobre Zulmira de Souza, 87, anos, vítima de coronavírus em Igarapé-Miri (PA), a página diz: “Mesmo não sabendo demonstrar seus sentimentos, ela tinha o coração do tamanho do mundo.”

Sobre Ricardo Maeda, 44 anos, vítima de coronavírus em São Paulo, a página diz: “Ia ser um pai completo. Não teve tempo.”

 

Sérgio Sant’Anna está internado por coronavírus.

A vontade é de ir montar guarda na frente da casa da Lygia Fagundes Telles e Nélida Piñon.

 

Já perdemos — não por coronavírus, mas no meio desta pandemia — Rubem Fonseca, Luiz Alfredo Garcia-Roza.

Em termos de artistas, o presidente só lamentou a morte de MC Reaça em 2019.

Ninguém fica para trás, exceto por aqueles cuja morte o presidente não lamenta. Esses entram na conta do “E daí?”.

 

E por algum tempo, confesso, via certa ironia nos defensores do presidente Jair Bolsonaro que iam às ruas, que protestavam pela “abertura” da economia, que protestavam que era só uma gripezinha, que deveríamos dar hidroxicloroquina aos pacientes. Essas pessoas se aglomerando e uma semana depois no Twitter pedindo orações por entes queridos com a doença, ou eles mesmos. Ou as pessoas que se aglomeram, adoecem e pedem que se use hidroxicloroquina no tratamento e depois vão para o Twitter dizer para “não cometer o mesmo erro”. Como o prazer de dizer “eu avisei”, eu via certa diversão em testemunhar o arrependimento alheio. Mas o Covid-19 não é linear. Ele não ataca precisamente a pessoa que fala bobagem na internet com quem eu discordo. Ele ataca uma criança de quatro meses que mora junto com o sujeito. Ataca o vizinho que pegou elevador junto.

Não consigo mais ver ironia em ninguém. Nem nos líderes mundiais, como Boris Johnson, que pegaram coronavírus depois de subestimar sua contenção. Ninguém mais devia pegar essa doença.

 

São 9.265 mortos pelo vírus no Brasil, em 8 de maio. Até a publicação do texto, certamente chegaremos a 10 mil. Um cálculo que só será divulgado no meio da semana, porque além de subnotificados, esses testes demoram.

E são 9.265 João Tavares, Zulmira de Souza, Ricardo Maeda, Aldir Blanc, Luis Sepúlveda, Adam Schlesinger, Naomi Munakata, José Carlos de Vasconcelos, Maria da Glória, Ana Lúcia Veloo, Reinaldo Pacheco, Maria Volpe, David Wu Tai, Fernando Sampietro, Orlando Alves dos Santos, Wilma Bassetti Lirola, pessoas que criam, que fazem mágica e movimentam o mundo.

 

Ninguém fica pra trás, exceto os que não têm hospital ou respirador.

Ninguém fica pra trás, exceto os que não têm a dignidade de saber a causa da morte.

Ninguém fica pra trás, exceto os que morrem de causa “indeterminada”.

Ninguém fica pra trás, exceto o discurso idiota de hidroxicloroquina; agora o deixado para trás é Sérgio Moro.

Ninguém fica pra trás, exceto os que já estão há quinhentos anos sendo consistentemente deixados para trás.

Ninguém fica pra trás, exceto os que não têm a mínima condição de prestar Enem este ano.

Ninguém fica pra trás, exceto os que politicamente não interessam, ou não interessam mais.

Ninguém fica para trás, exceto os que não entram no cálculo.

Ninguém fica pra trás, porque fomos passados para trás. Muitos passados — os nossos passados.

Ninguém fica pra trás, exceto os que morrem.

 

***

Luisa Geisler nasceu em 1991 em Canoas, RS. Escritora e tradutora, é também mestre em processo criativo pela National University of Ireland. Pela Alfaguara, publicou Luzes de emergência se acenderão automaticamente (2014), De espaços abandonados (2018) e Enfim, capivaras (2019), além de Corpos secos, romance distópico de terror escrito a oito mãos com Natalia Borges PolessoMarcelo Ferroni e Samir Machado de Machado a ser lançado em breve. Foi vencedora do Prêmio Sesc de Literatura por duas vezes, além de finalista do Prêmio Machado de Assis, semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura e duas vezes finalista do Jabuti.

 

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