Diários do isolamento #53: Eliana Sousa Silva

Diários do isolamento

Dia 53: As escolhas que fazemos...

Eliana Sousa Silva

 

Um dia após o outro e a pandemia vai tomando os contornos já anunciados, desde o seu início, pelas autoridades da área da saúde. A contaminação se torna real para mais pessoas, atingindo-as de modo implacável. Esse processo segue na direção prevista: as favelas e as periferias. No Rio de Janeiro, temos uma situação bastante preocupante por já vivermos, antes mesmo da crise do coronavírus, um desleixo completo em relação à implementação e à manutenção de políticas públicas mais básicas na cidade.

Esta semana — para além de aprofundar minha consciência sobre a falta de uma perspectiva sistêmica, com respostas por parte dos governos às demandas de socorro à população neste momento de crise — fui dominada por um cansaço físico que me deixou dois dias sem querer sair da cama. Não tive os sintomas relatados da Covid-19. Fui, sim, dominada por uma tristeza enorme que me sucumbiu a ponto de me tirar da rotina.

Quando olho ao meu redor e tento dar concretude ao que sinto e ao que busco apreender desse período, vem um sentimento que me abate demasiado. A pandemia tem trazido uma visão precisa da situação do Brasil, estampando de forma objetiva a nossa falta de preparo, como país, para lidar com os desafios de uma crise aguda como a que vivemos. Reconhecendo as especificidades de cada estado para mitigar o avanço da contaminação pelo coronavírus, temos em comum o fato de nenhum deles ter condições de absorver a demanda emergencial que se apresenta.

É nesse contexto que a pandemia da Covid-19 comprova algo que já vinha sendo dito por especialistas da área da saúde, pela sociedade civil e muitos ativistas sobre a importância do Sistema Único de Saúde, o SUS, e de seus profissionais nos diferentes níveis de atenção à saúde dos brasileiros. O sucateamento e o desmonte dessa estrutura nos últimos anos é algo que pode ser sentido de forma inexorável neste momento.

Pode ser sentido ao máximo pelos moradores das dezesseis favelas da Maré diariamente quando procuram algum atendimento relacionado à saúde. As sete Clínicas da Família e na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) vivem uma situação crítica: não há um serviço que supra a demanda usual e consiga ainda responder aos suspeitos da Covid-19. O abandono pelo município em algumas dessas estruturas é difícil descrever.

Chamo atenção para uma reflexão sobre algo que tem me deixado muito desapontada: precisar lidar com muitas demandas graves, de variadas ordens, e, quando olho ao meu redor, não vejo a mínima presença do Estado — seja em âmbito municipal, estadual e muito menos federal. Reconhecer que tudo isso acontece por causa das escolhas históricas que fazemos no campo da política, principalmente, é muito duro.

O Brasil talvez seja a nação que mais tem negligenciado o seu povo, quando olhamos para países de todos os continentes. De forma catastrófica, vem tomando um rumo único na condução da crise, numa lógica onde a morte é naturalizada, numa narrativa de que são dano colateral à pandemia. Como lidar com uma lógica tão perversa?

A prefeitura do Rio divulgou que, até 3 de maio, a cidade registrou 6.448 casos confirmados de coronavírus — 28 identificados como moradores de alguma das favelas da Maré — e 603 mortes, seis delas na Maré. O problema é que, no mesmo período, a equipe social da Redes da Maré — ONG da qual sou fundadora e diretora há mais de vinte anos — registrou o relato de 146 pessoas que, após irem ao médico, apresentavam os sintomas da Covid-19. Só foi possível acompanhar diretamente a família de 81 delas, onde tivemos 18 mortes confirmadas. Ou seja, temos claramente um problema de subnotificação da situação das pessoas infectadas pelo coronavírus no Brasil e, em conseqüência, das suas mortes.

Enquanto isso recebemos diariamente mensagens de pessoas que procuram, de forma desesperada, meios de subsistência. Buscam resistir a esse momento sem morrer, seja pela contaminação pelo vírus, seja por passar muitos dias sem ter o que comer. Confesso que escrever esses episódios me deixa com um nó na garganta, sem fôlego.

Lembro, neste instante, de dona Dalva. Chegou na entrada do Centro de Artes da Maré procurando por dona Eliane — é assim que muitas pessoas me chamam, trocando o “a” pelo “e” do meu nome. Demorei um pouco a atendê-la, pois são muitas demandas ao mesmo tempo e cada vez que vou até o portão muitos moradores acabam se aglomerando em busca de uma cesta de alimentos. Esse tem sido um grande desafio no espaço de recepção e saída das doações para as famílias.

Dona Dalva chegou com um cartão da Caixa Econômica Federal na mão. Contou-me que morava em Benfica, bairro que fica a trinta minutos da região da Maré. Ela estava ali porque a comadre, que mora na Nova Holanda, favela onde está localizado o galpão das doações, havia dito que talvez pudéssemos ajudá-la com uma cesta de alimentos. Foi quando vi uma lágrima sair dos olhos dela ao relatar que achava que, na sexta-feira anterior, receberia o auxílio de 600 reais do governo. Mas, após esperar mais de seis horas numa fila, disseram que não tinha caído nenhum dinheiro na conta dela.  

Dona Dalva mora sozinha. Com pernas e rosto muito inchados, havia operado os rins não fazia muito tempo. Pedia-me que a ajudasse com uma cesta de alimentos, mesmo ela não morando na Maré, pois fazia duas semanas não tinha nenhuma comida em casa. Eu olhei para aquela senhora, em seus sessenta anos, e fiquei muda, atônita, imaginando que ela havia saído de outra região e vindo até a Maré buscar uma ajuda de alimentos porque, provavelmente, não sabia a quem recorrer.

É aqui que volto ao ponto inicial desse texto, sobre as escolhas históricas que temos feito para os governos deste país. Perguntei-me sobre os espaços de assistência social que deveriam acolher qualquer cidadã ou cidadão como dona Dalva neste momento. Por que pessoas como dona Dalva nem se lembram de procurar essas estruturas, já que elas existem? Quer dizer, consta a sua existência, mas não a sua efetividade como política pública.

Esse foi um dia daqueles que meu estômago embrulhou e não consegui sequer comer. Obviamente, ofereci a ela uma das trezentas refeições que temos feito, diariamente, para a população de rua e, também, organizei uma cesta de alimentos para ela levar para casa. Lembro de João Cabral de Melo Neto, poeta nordestino, ao tornar poesia o rio Capibaribe e a miséria que o atravessa, em “O cão sem plumas”:

 

O que vive

incomoda de vida

o silêncio, o sono, o corpo

que sonhou cortar-se

roupas de nuvens.

O que vive choca,

tem dentes, arestas, é espesso.

O que vive é espesso

como um cão, um homem,

como aquele rio.

 

Que possamos, no futuro, (des)aprender sobre o que este momento tenta nos ensinar e que este rio tão espesso de dentes, arestas e dor possa se tornar espesso de pulsão de vida, na luta diária, que nunca se findará: “porque é mais espessa/ a vida que se luta/ cada dia,/ o dia que se adquire/ cada dia/ (como uma ave/ que vai cada segundo/ conquistando seu voo).”

 

***

Eliana Sousa Silva nasceu em Serra Branca (PB) e morou na Maré durante 25 anos. É autora do livro Testemunhos da Maré (Aeroplano, 2012) e fundadora da Associação Redes de Desenvolvimento da Maré, da qual é diretora.

A Redes da Maré promove mais de vinte projetos de desenvolvimento local, arte, cultura e educação nos territórios da Maré, com destaque para o Curso Pré-Vestibular Comunitário da Maré, o Programa Criança Petrobras na Maré e o movimento “A Maré que Queremos”, com mobilização social e fórum permanente para debater a melhoria da qualidade de vida nas comunidades da região.

Recebeu diversos prêmios, entre os quais o Empreendedores Sociais, da Ashoka (2000). Atualmente é também consultora do Canal Futura e da Associação Cidade Escola Aprendiz, de São Paulo, e está escrevendo um livro sobre a criação da Redes da Maré, que será publicado pela Zahar.

 

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