Diários do isolamento #55: Luisa Geisler

Diários do isolamento

Dia 55: Lições felinas

Luisa Geisler

 

Ao longo desta pandemia, vi uma série de memes a respeito de “imitar gatos ao longo da quarentena”. As piadas incluem lembrar de comer, dormir, se priorizar, alongar, se manter ativo e limpo. Sempre com a imagem de um gato com a pata levantada e lambendo a bunda, com aquela flexibilidade que não terei nem mesmo com mil vídeos de ioga em casa do YouTube. Um excelente artigo de opinião no El País, diz que No fundo, todos estamos nos transformando um pouco em gatos. Tenho três gatos e posso afirmar que o meme pode ser levado mais longe.

Acontece que gatos, como o coronavírus, são misteriosos, pouco objetivos. Quanto mais conhecemos nossos próprios gatos, menos entendemos. Os gatos mudam, apesar de vermos padrões depois de certo tempo. O gato muda de opinião. O gato não quer a comida do pote às vezes, e outra quer. É o pote? Ou a ração? Ou a hora do dia? É o gato. Gatos quando têm medo têm medo. Medo de quê?

Uma vez, a gata sumiu. O gato (o outro) estava sentado em um móvel e nos observava atentos. Abrimos todos os armários, conferimos janelas fechadas. O segundo gato parecia rir de nossa preocupação. Ativamos síndico, vizinhos, andamos pelo bairro. Quando me sentei no sofá fedendo de suor, olhei para o segundo gato. Ele estava em um móvel pesado que ficava na frente de um compartimento da churrasqueira. A gata havia se espremido atrás do móvel e estava entre carvões. Imunda. Mas dormindo tranquila. Quando a pegamos, não entendeu nada. Gatos não entendem nada. Eles não nos preocupam de propósito. Eles só são. O coronavírus só é. Ele só quer se multiplicar, existir no máximo de pulmões possíveis. Em termos evolutivos, matar o hospedeiro é uma ideia ruim.

Donos de gatos relatam animais mais afetivos que nunca no meio da quarentena. Os meus seguem sem ligar. Acostumados com a minha presença, estranham minha ausência, na verdade. Quando viajo para eventos literários (lembram de eventos literários?), uma gata destrói papel higiênico. Seja pela minha presença ou seja por conta da escassez de alguns produtos de higiene, ela parou. Se isso é “mais afetivo”, não sei dizer.

 Não encontro dados no Brasil, mas nos Estados Unidos, o site de adoção de animais de estimação Petfinder, teve um aumento de 43% no tráfico de pessoas ao longo da pandemia.

Amo meus gatos. Não os chamo de parasitas, nem sugiro que querem me matar. São animais afetivos que me procuram quando têm medo, frio e querem carinho. São inteligentes e fofos. Ronronam, o que me faz pensar que causo algum afeto. Têm um instinto para tristeza que eu, uma cética, não saberia explicar. Aninham-se em mim. Eles só sabem. Mas eles só são assim.

Ao contrário de cães. Cães querem agradar de fato. Cães foram muito mais evolutivamente selecionados, com raças distintas e deformações genéticas que hoje vemos como “fofas” — mas que impedem que alguns vivam além de dez anos saudavelmente. E eu amo cães. Já tive cães. Mas cães são animais caóticos porém bons — se usarmos um sistema de personalidades de RPG. O gato é apenas o caos.

Aceitar o caos do coronavírus é aceitar o caos felino. Acho que esta é a grande lição do coronavírus (aqui caberiam mais memes) e gatos. Mais do que a importância de tentar manter a rotina, manter higiene, lutar contra a depressão, comer quando se tem fome, saber a importância de ficar juntos, acho que meus gatos estavam me preparando para o coronavírus. O gato diz: não entendeu? Foda-se.

De novo: gatos são uma escolha voluntária minha e, por mais bagunça que façam, acredito que trazem mais alegria que tristeza. A tristeza vem desse enigma, de por que arranhar o braço esquerdo mas não o direito do sofá. E agora, talvez, entenda como um treino para mais caos. Ao pisar na minha cara sem motivo. Ao ficar incomodando para abrir a porta só para não entrar depois.

Eu não entendo coronavírus, quarentena, tenho dificuldade de entender aqueles que pensam diferente de mim. Não entendo por que acham que coronavírus não é contagioso em feriados ou páscoa. Não entendo o que acham que academia é necessidade básica. E todos esses eventos e fenômenos está cagando e andando se eu entendo ou não. Gente morre igual.

Talvez o importante mesmo seja fazer o que dá. Em meio ao caos social, econômico e político. Em meio a tantos números e gráficos e tabelas e tentativas de controle. Em meio ao medo, a raiva, as postagens cada vez mais malucas em redes sociais. O absoluto medo, de perder emprego, de ter perdido o emprego, da mãe que não respeita quarentena, do corte de horas, da demissão, da nova live do Átila Iamarino, de seguir demitido, de números, do fim do seguro-desemprego, de não ter vacina, do fim do auxílio emergencial que nem rende para nada, de não ter nem água ou comida, do pai que acha que lavar a mão o tempo inteiro é história de marca de sabão, do primo que posta selfie na academia.

Talvez o importante mesmo seja fazer o que dá. Não gritar, não entrar em pânico, manter higiene pessoal, dormir bem, se alimentar bem, ficar com quem a gente gosta, não surtar, tentar fazer alongamento respeitando o próprio limite. É o que o gato faz. Porque o resto é o caos.

 

Nota de fim:

Este deve ser meu último post nos “Diários do isolamento”. Nos vemos no blog da Companhia, onde sigo contribuindo mensalmente. Aí falamos da pandemia, do Corpos secos, do que surgir. Fiquem bem, fiquem em casa.

 

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Luisa Geisler nasceu em 1991 em Canoas, RS. Escritora e tradutora, é também mestre em processo criativo pela National University of Ireland. Pela Alfaguara, publicou Luzes de emergência se acenderão automaticamente (2014), De espaços abandonados (2018) e Enfim, capivaras (2019), além de Corpos secos, romance distópico de terror escrito a oito mãos com Natalia Borges PolessoMarcelo Ferroni e Samir Machado de Machado a ser lançado em breve. Foi vencedora do Prêmio Sesc de Literatura por duas vezes, além de finalista do Prêmio Machado de Assis, semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura e duas vezes finalista do Jabuti.

 

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