Diários do isolamento #58: Jessé Andarilho

Diários do isolamento

Dia 58

Jessé Andarilho

 

Você também acredita nessa parada de ano perdido? Você acha mesmo que ficar em casa no isolamento social é a mesma coisa que deixar de viver? Alguém aí está congelado, não tem sentimentos, não deu um sorriso, não reclamou do som alto do vizinho, não pirou com as notícias do nosso desgoverno?

 Gente, a vida não é só produzir. Nem todo aprendizado vem só das escolas, faculdades e cursos. Nem tudo é trabalho, assim como a vida não pode ser apenas uma preparação para o futuro.

 Viva o agora. Em casa ou na rua, de preferência de máscara — não por conta do que possa acontecer lá na frente, mas pelo que pode acontecer agora.

 Nem sabemos se vamos viver pra contar histórias. A gente que vive nas periferias está mais do que acostumado com essa incerteza do amanhã, mas sempre que você troca ideia com o nosso povo, você encontra felicidade, alegria de viver e esperança em dias melhores.

Vencer na vida não é ter fama, carros e uma casa grande pra morar. Vencer na vida é viver cada dia da melhor forma possível e esperar que exista um amanhã, pra comemorar o hoje e transformá-lo em ontem.

Faça uma experiência. Experimente ficar um dia sem assistir televisão e procure colocar em prática aquele talento esquecido ou perdido por causa da loucura que é viver sem o isolamento social.

Escreva um livro, cante uma música que marcou a sua vida, faça uma maratona de série, experimente cozinhar pratos diferentes, mude as posições dos seus móveis, fotografe fotos antigas e compartilhe na internet.

Isso tudo vai te lembrar de como você era uma pessoa legal. Será que muita coisa mudou na sua vida? Será que você se reconhece quando olha no espelho?

Ficamos isolados de nós mesmo enquanto vivíamos uma vida de verdadeiro isolamento de quem somos. Quantas coisas legais deixamos de fazer porque temos que trabalhar duro para pagar as contas que nós mesmo fazemos. Muitas delas nem são tão essenciais, mas como sabemos trabalhar, trabalhar e trabalhar muito, nos permitimos esse endividamento para escoar nosso suor em coisas materiais.

Sabemos que as contas não vão parar de chegar, mas podemos ao menos diminuí-las. Meu pai me dizia que se eu não conseguisse ganhar mais, eu deveria tentar gastar menos.

Será que precisamos mesmo daquele tênis de mil reais?

Será que é esse carro mesmo que eu preciso, já que o mais barato vai me levar ao mesmo lugar?

Eu sei que não é da minha conta o que você gasta e com o quê, mas vivemos no mesmo limite do absurdo. Será que a vida antes dessa pandemia que nos prendeu em casa era mais livre do que agora?

Será que essa máscara que estamos usando para sair de casa é diferente da que usamos no dia a dia para mostrar ser alguém que nem sabemos se somos, ou será que precisamos dela para mostrar para as pessoas o que a gente acha que elas gostariam que a gente fosse?

Vamos viver e cuidar da nossa saúde mental. O tédio de uns é o sonho de muitos...

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Jessé Andarilho nasceu em 1981 e foi criado na favela de Antares, no Rio de Janeiro. Filho de vendedores ambulantes, trabalhou com diversas atividades na sua comunidade, até ler seu primeiro livro, aos 24 anos. Foi quando, no trajeto de aproximadamente três horas que fazia de trem de sua casa até o trabalho, passou a usar o bloco de notas do celular para contar histórias. Dessas anotações surgiu o romance Fiel, publicado pela Objetiva em 2014. Em 2015, foi convidado para integrar o grupo de redatores da novela Malhação, da TV Globo. Foi diretor de reportagem do programa Aglomerado, da TV Brasil, e produtor da Cufa – Central Única das Favelas. Fundou o C.R.I.A., Centro Revolucionário de Inovação e Arte, e o Marginow, com a proposta de dar visibilidade aos artistas da periferia. Em 2019, publicou, pela Alfaguara, seu segundo romance, Efetivo variável. Atualmente, Jessé Andarilho realiza palestras em todo o Brasil, contando um pouco da sua história e mostrando como sua vida foi transformada pela literatura.

 

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