Diários do isolamento #6: Alejandro Chacoff

Os “Diários do isolamento” são parte do projeto Leia Em Casa — que está oferecendo uma série de conteúdos especiais para quem vai permanecer em casa nos próximos dias — e pretendem fazer um registro coletivo de uma experiência nova, inesperada, cheia de incertezas e que ainda não sabemos quanto tempo durará.

A ideia é tentar diminuir a distância entre as pessoas, aproximando vozes distintas, de áreas, opiniões e idades variadas, como uma conversa em que os relatos se complementam. A cada dia um autor diferente traz para o leitor um texto sobre a vivência deste momento difícil em que a união é fundamental para mantermos a saúde física e mental. Participam da do projeto Jessé Andarilho, Elvira Lobato, Fábio Moon, Jarid Arraes, Eliana Souza Silva, Alejandro Chacoff e Luisa Geisler.

E nunca é demais lembrar: em tempos assim, a leitura e a informação são essenciais — e o livro segue sendo a melhor companhia.

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Diários do isolamento

Dia 6

Alejandro Chacoff

Naquela época, quando me perguntavam porque eu estava deixando Londres, eu dizia que a cidade era muito cara. E era verdade: a cidade era caríssima, eu não ganhava tanto assim, e as economias que eu juntara para escrever não durariam quatro, cinco meses na cidade, ao passo que se eu voltasse para viver na América do Sul eu poderia ficar um, talvez dois anos sem trabalhar. A minha ideia do que seria uma vida dedicada à escrita era tão vaga e cheia de esperança que abarcava quase tudo. Imaginava uma rotina frugal e ao mesmo tempo muito suntuosa. Seriam dias cheios de imersão e cafeína, mas também com distrações e noitadas; escreveria muitas horas e ainda sobrariam outras tantas para perambular; manteria uma disciplina rigorosa de trabalho e também pegaria o trem ou o metrô ao menor impulso. Eram idealizações, mas as idealizações têm o seu papel. Para começar a escrever, uma certa ingenuidade voluntariosa é necessária.  

O primeiro apartamento que aluguei em Buenos Aires era minúsculo, uma espécie de quitinete de um único ambiente, a cozinha acoplada à sala. A rua, que à primeira vista aparentava ser bucólica, era barulhenta: a fuligem subia e impregnava os vidros do segundo andar, como se o ronco dos motores que eu tanto odiava estivessem se materializando numa substância pastosa, hostil. Era difícil ler ali, era impossível escrever. Às vezes eu saía para caminhar. E rapidamente descobri que as caminhadas contemplativas de Sebald, Walser, e outros tantos autores, eram difíceis de serem reproduzidas nas ruas de uma cidade latino-americana do século XXI. Um domingo vazio, caminhando pelo centro, fui abordado por um grupo de meninos de rua – apalparam os bolsos da minha calça, mas pareceram desistir de roubar-me no meio do caminho, mexendo no meu cabelo, bagunçando-o com um misto de desprezo e ternura, sorrindo alegremente enquanto também me empurravam com força para que eu saísse do caminho. Outra tarde, o metrô quebrou: dois passageiros do vagão começaram a berrar, um obrigando o outro a se levantar em prol de um velhinho que assistia a cena com indiferença. As avenidas eram largas, e para atravessá-las era preciso correr antes que os sinais fechassem. Alguns carros paravam na faixa, obrigando os pedestres a ziguezaguear. Quando eu atravessava a rua, sentia o calor dos escapamentos nas minhas panturrilhas, e isso me deprimia — me devolvia à minha quitinete, onde, quando finalmente o ronco dos motores do dia cessava, já era tarde demais e eu precisava dormir. 

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O escritor toma medidas para salvaguardar a própria solidão para logo depois encontrar inúmeros jeitos de arruiná-la”, Don DeLillo disse certa vez numa entrevista. A frase encapsula tanto o apelo do isolamento como a dificuldade de mantê-lo. Aos que me perguntavam, eu dizia que Londres era uma cidade cara, e embora isso fosse verdade, havia fraudulência na afirmação: o que eu queria mesmo era me isolar. Desde a infância, a capacidade de calar a boca e saber ficar sozinho me parecia algo nobre. Em Buenos Aires eu tinha criado o que imaginava ser o ambiente ideal para isso. Escolhera conscientemente um entre-lugar para viver, sem as distrações de amigos próximos ou familiares, num pequeno apartamento tomado por livros. Mas não aguentava ficar ali dentro por muito tempo. A rotina solitária que eu concebera tinha se materializado; mas o seu aspecto era muito mais cinzento, mais sombrio, até, do que eu poderia imaginar. Quando eu saía para caminhar, porém, me deparava com uma cidade movimentada que também parecia hostil, fechada à experiência. 

Talvez fosse minha culpa mesmo, talvez a dificuldade e os fracassos diários da escrita me colocassem sob um estado taciturno incontornável. Mas, desde o início da quarentena, tenho pensado nas dificuldades daqueles primeiros anos — na forma como eu quicava da rua para a quitinete, da quitinete para a rua, sem sentir-me bem em nenhum dos dois lugares. Entre os muitos paradoxos de nosso tempo está o de sermos solipsistas que não conseguem ficar sozinhos. Parecemos viver o meio-termo exato entre não ter um senso coletivo e nem um senso individual pleno. A cada ano, a concentração para tarefas contemplativas se torna mais difícil; a cada ano, a articulação coletiva que a criação de bens públicos demanda parece mais distante. “Neste ano li menos livros do que no ano passado; no ano passado, li menos que no ano anterior; no ano anterior, menos que no ano que vinha antes”, Geoff Dyer escreve — isso porque ele é escritor. Uma das estranhezas do coronavírus é que ele parece talhado para o nosso tempo. É uma ameaça que parece quase levar em conta o sentido literário de forma — um desafio que engloba a absolutamente todos, testando a nossa capacidade de articulação coletiva, e que ao mesmo tempo isola absolutamente todos, testando a nossa capacidade de lidar com o eu, com as dificuldades da reclusão e da contemplação.

Agora, já mais distante da experiência, consigo até relembrar aqueles anos em Buenos Aires com certo afeto. Nunca li tanto como naquela época, e lembro do momento exato em que escrevi o meu primeiro conto, um texto impublicável, mas cuja forma eu intimamente reconhecia como distinta do que eu escrevera anteriormente. Pouco a pouco me acostumei a trabalhar sozinho, e de fato há algo ocasionalmente sublime nessa solidão específica da escrita – de um jeito muito diferente do que eu poderia imaginar, como tudo na escrita. Mas nos últimos dias tenho sido tomado por certa insegurança. Não consigo parar de checar as mensagens de Whatsapp. No começo da quarentena, discutia em áudios com um amigo próximo se as imagens dos canais límpidos de Veneza ou do céu um pouco mais claro da China poderiam gerar uma catarse. Uma semana depois, nada me parece mais ingênuo. 

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Alejandro Chacoff nasceu em Cuiabá, em 1983, e mudou-se para os Estados Unidos aos dois anos de idade. Viveu no Chile, Inglaterra e Argentina, antes de voltar para radicar-se no Rio de Janeiro, onde desde 2016 trabalha como crítico de literatura e ensaísta da revista piauí. É também colaborador de publicações como The New Yorker, n+1, The Guardian e The Atlantic. Apátridas, publicado pela Companhia das Letras, é o seu primeiro romance.

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