Diários do isolamento #75: Jarid Arraes

Diários do isolamento 

Dia 75 

Jarid Arraes

 

Tive que cortar dois pedaços do meu cabelo porque dois nós grossos se formaram. Eles estavam na parte de trás e mais interna; além disso, o fato do meu cabelo ser volumoso e cacheado ajuda a disfarçar o resultado.  

Já cortei muitos nós do meu cabelo desde a infância. Primeiro porque não sabia como cuidar direito do cabelo crespo, sem encontrar produtos adequados, segundo porque queria fingir que não me importava com ele. Me importava tanto que o punia. Sem pentear por um mês inteiro. Se aguente aí cheio de nó. Sempre preso num coque baixo, perto da nuca, e o que ele me respondia de volta era: você me odeia. E eu odiava, claro. 

Agora, no meu isolamento durante a pandemia, os nós que se formaram não são desejos embolados de ter um cabelo liso. Apareceram aos poucos enquanto eu não percebia o costurar dos meus dedos com o xampu. A verdade é que por mais que hoje eu ame meu cabelo, o isolamento não me ajuda a cuidar de mim. 

É ridículo estar em isolamento por cuidado ao mesmo tempo em que é tão difícil desejar o cuidado. Olhar para si com olhos de cuidado. Praticar o cuidado todos os dias, como tanta gente disse para fazer no início de março. Pra não enlouquecer, disseram. Pra não perder a noção de rotina. De normal. De dia e noite. De dias da semana e datas e clima e aniversários dos amigos e dia de colocar o lixo pra fora. Mas ladainha não me alcança. Os nós são íntimos, de longa data, não precisam correr para me acompanhar. 

É isso, meu cabelo tem dois buracos. 

Sempre que abro o armário do banheiro e vejo os produtos para cuidados cosméticos com a pele, penso mas que bosta é só passar isso duas vezes por dia e depois passar esse e quando você não tá fazendo nada ou jogando videogame bem que podia colocar uma máscara hidratante vai vencer tudo dinheiro jogado no lixo, mas o isolamento não me ajuda. O isolamento quer água fria com sabonete, escova de dentes, nem olhe direto para seus olhos carimbados no espelho. Eu obedeço. Sou disciplinada quando a prática é de autonegligência. Dou risada disso, tem quem chore pelo mesmo motivo. Mas, pra mim, é um grande suspiro com sobrancelhas de deboche.  

Pois é, menina, tive que cortar dois nós bem grandes. 

Fico me perguntando quantas pessoas estão ainda se sustentando. Quantas são pessoas conscientes o suficiente para não desejar arrancar as cutículas num ritual coletivo de esmalte anticarne. Quantas não se importam se o cabelo, e as roupas, e os pés no chão. Quem ainda lava os pés antes de deitar na cama? Quem passa desodorante, corta as unhas, se depila, se modifica para uma imagem de ser saído da toca. Se é tão difícil enxergar dentro da toca. Capaz de arrancar um pedaço da cabeça do dedão na tentativa de não fazer a piada tá que nem o Zé do Caixão. 

Coisas ridículas. Pequenas. Minúsculas.  

Mas não precisa feder. O isolamento é carniça pura. 

A boa notícia é que tomo banho, dou um jeito no cabelo quando vou participar de alguma live, escovo os dentes pensando pra que foi fazer clareamento se vai botar tudo a perder escova seis sete oito dez vezes por dia sim sempre que comer e tomar chá, uso desodorante e também corto as unhas. Fiquei pensando que, se um dia o meu isolamento acabar, talvez eu até queira colocar alongamento de unhas e de cílios de novo. Apesar de ter sido um inferno de experiência e de eu ter tirado tudo, com sofrimento, porque dói de um jeito inacreditável o processo de retirar alongamento de unhas, apesar de eu ter saído do salão pensando meu deus como pode que pra tanta gente isso seja sinônimo de mulher.  

Conto com meu bom senso para não fazer nada disso. Se o meu isolamento acabar. Espero lembrar. 

A má notícia é que estou com a coluna acabada, não consigo trabalhar direito e só consigo dormir de barriga para cima. Tentando cuidar, fui procurar uma cadeira melhor do que a minha, e a minha já é ótima, e descobri que os preços estão todos altos porque muita gente começou a comprar cadeiras melhores. Também já vejo meus amigos saindo de casa, encontrando pessoas, fazendo fotos juntos com máscaras e depois aparecendo nos stories do Instagram juntos sem máscaras. Vi minha atriz brasileira favorita fazer isso. Vi a Lady Gaga sair duas vezes para comprar comida e café. Pensei eu vou matar a Lady Gaga se essa mulher morre aí que a trepeça se tora mesmo mas que merda Lady Gaga tu é toda doente mulher se cuida. 

Tu é toda doente, mulher. Se cuida. 

Mas a boa notícia é que estou jogando outra Visual Novel ótima, AI: The Somnium Files, e recomendo até bem mais do que a anterior.  

A boa notícia é que escrevi mais uma entrada desse diário, principalmente porque muitos leitores contam como se identificam. E aí eu acho que faz parte do grande suspiro esse ato de colocar no blog da maior editora do Brasil que, veja só, tem gente que não está cuidando do cabelo, todos os dias, nem da pele, todos os dias, nem da comida que entra, talvez nem das palavras que saem. Nem todos os dias. Tem gente que ainda está em isolamento e seca os olhos diante das telas enquanto o respeito pelos outros é rachado, enquanto a palavra Brasil escorre. Tem gente que só não morre porque ainda está em isolamento. E isso, se espera, seria muito contraditório.  

Boa sorte para nós que buscamos coerência todos os dias. 

O isolamento não facilita. Não ajuda mesmo.  

O isolamento é o zelo que mais machuca.

***

Jarid Arraes nasceu em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 1991. Escritora, cordelista e poeta, é autora dos livros Um buraco com meu nomeAs lendas de Dandara e Heroínas negras brasileiras. Atualmente vive em São Paulo, onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres. Tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel. Redemoinho em dia quente (Alfaguara) ganhou o prêmio APCA de Literatura na Categoria Contos/Crônicas.

 

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