Diários do isolamento #77: Jessé Andarilho

Diários do isolamento

Dia 77

Jessé Andarilho*

 

 

A onda agora é pisar no pescoço? Que porra é essa? O que essas pessoas têm na cabeça?

Não tô aqui pra falar mal da polícia, vou só dá um alô pra você se ligar e entender que somos pisados porque estamos atrás, embaixo, esquecidos e não apresentamos ameaças.

Enquanto os subempregos forem a nossa fonte de renda; enquanto vocês não abrirem mão dos seus privilégios e não enxergarem a nossa gente como seres humanos capazes de liderar, gerenciar, atuar, escrevinhar e tudo mais — essa onda de pisar na nossa cabeça nunca vai passar.

O fardado que usa a bota junto com o uniforme só comete essa brutalidade porque na cabeça dele não tem problema, não tem ninguém importante que mora onde a gente mora, que tem a cor da nossa pele, e que tem o nosso cabelo. Na cabeça deles, a gente não tem ninguém que possa correr atrás do nosso prejuízo.

Ao entrar em Alphaville, o policial sabe que se ele tratar alguém de lá com a mesma truculência que ele age por aqui vai dar merda pra ele.

Na favela não mora secretário de segurança. Favelado não é e nem tem advogado, camelô não é amigo de desembargador. E é por esse motivo que os caras sabem e escolhem o lugar para serem violentos.

Enquanto vocês não valorizarem a nossa gente; enquanto a gente não ocupar lugar de destaque; enquanto vocês não valorizarem a nossa cultura, o nosso trampo e o nosso jeito de viver — eles vão sempre achar uma forma de nos matar.

A gente só morre porque vocês não se importam com a nossa vida.

A gente tem as aulas interrompidas o tempo todo por diversos motivos: tiroteios, operações policiais, guerra de quadrilhas, enchentes. E vocês ainda reclamam de ações afirmativas que visam ajudar a nossa entrada nas universidades.

Me chamar de legal é muito fácil. Bater no peito e dizer que eu sou seu amigo é uma coisa muito fofa pra se dizer nas redes sociais.

Mas quem de vocês vieram ou virão aqui na favela onde eu nasci? Aqui onde eu trabalho todos os dias incentivando a leitura, a arte e a cultura?

Enquanto vocês não são por nós, vamos continuar dizendo que somos nós por nós. E dizer nós por nós significa que sempre seremos nós na mira deles enquanto vocês aí das suas casas curtem, comentam e compartilham as nossas dores.

Não queremos estampar nossas caras em camisas e muito menos virar hashtags em Twitter de bacana. Queremos viver e ter os nossos direitos respeitados.

Ninguém solta a mão de ninguém. Mas se nunca segurou, como vai soltar?

E agora com essa onda da máscara e do álcool em gel, ferrou de vez!

 

***

Jessé Andarilho nasceu em 1981 e foi criado na favela de Antares, no Rio de Janeiro. Filho de vendedores ambulantes, trabalhou com diversas atividades na sua comunidade, até ler seu primeiro livro, aos 24 anos. Foi quando, no trajeto de aproximadamente três horas que fazia de trem de sua casa até o trabalho, passou a usar o bloco de notas do celular para contar histórias. Dessas anotações surgiu o romance Fiel, publicado pela Objetiva em 2014. Em 2015, foi convidado para integrar o grupo de redatores da novela Malhação, da TV Globo. Foi diretor de reportagem do programa Aglomerado, da TV Brasil, e produtor da Cufa – Central Única das Favelas. Fundou o C.R.I.A., Centro Revolucionário de Inovação e Arte, e o Marginow, com a proposta de dar visibilidade aos artistas da periferia. Em 2019, publicou, pela Alfaguara, seu segundo romance, Efetivo variável. Atualmente, Jessé Andarilho realiza palestras em todo o Brasil, contando um pouco da sua história e mostrando como sua vida foi transformada pela literatura.

 

 

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