Diários do isolamento #87: Jessé Andarilho

Diários do isolamento

Dia 87

Jessé Andarilho

 

Aqui estou mais um dia,

Sob olhar atento da vizinha.

Que proibiu um filho de pegar livros,

Mas agora ela mesmo trouxe os filhos.

 

É impressionante o poder da televisão,

Que um dia te transforma em herói, ou em vilão.

 

Semana passada a nossa biblioteca ganhou uma enorme visibilidade,

Aparecemos no Globo Comunidade.

 

O que antes era visto com cautela,

Hoje é o orgulho da favela.

 

Eu que sempre tive raiva da burocracia,

Tive uma ideia para emprestar os livros no dia-a-dia.

 

Abri mão do controle rígido e criterioso,

E pensei em algo poderoso.

 

Como formar leitores é a minha esperança,

A nossa biblioteca funciona na base da confiança.

 

É bem fácil ter acesso ao nosso catálogo,

Basta escolher e "CatarLogo".

 

Assim o público se envolve,

Só pega outro livro depois que devolve.

 

O povo fica meio desconfiado,

Mas até agora é assim que tem rolado.

 

A nossa biblioteca funciona na raça,

Você precisa ver o olhar das pessoas quando eu falo que é tudo de graça.

 

Muito cuidado com a pandemia, e bastante álcool gel na mão,

Pega o livro e vai pra casa, seguro e com proteção.

 

Com muita graça e esperança,

Mirei na formação dos adultos e acertei na das crianças.

 

Não quero atrapalhar e nem critico as bibliotecas padrão,

Admiro quem entende do assunto e desenrola bem essa função.

 

Mas tudo na minha vida sempre foi na base da gambiarra,

Aqui nada é fácil, e a gente aprende na marra.

 

Então quando dizem que livro é artigo de luxo,

Tento fazer diferente e seguir o nosso fluxo.

 

Eles querem nos prejudicar com a tal da taxação,

Mas quem "taxa" que isso vai nos parar não imagina a nossa força de superação.

 

Dizer que livro é artigo de luxo é pensamento de lixo,

Queremos um país com mais leitores e menos ministros.

 

Em cada favela existem mais de dez igrejas,

E todo fiel carrega uma Bíblia, por mais pobre que seja.

 

Quantos espaços culturais têm na sua região?

Imagina só agora, todo mundo andando com um livro na mão...

 

***

Jessé Andarilho nasceu em 1981 e foi criado na favela de Antares, no Rio de Janeiro. Filho de vendedores ambulantes, trabalhou com diversas atividades na sua comunidade, até ler seu primeiro livro, aos 24 anos. Foi quando, no trajeto de aproximadamente três horas que fazia de trem de sua casa até o trabalho, passou a usar o bloco de notas do celular para contar histórias. Dessas anotações surgiu o romance Fiel, publicado pela Objetiva em 2014. Em 2015, foi convidado para integrar o grupo de redatores da novela Malhação, da TV Globo. Foi diretor de reportagem do programa Aglomerado, da TV Brasil, e produtor da Cufa – Central Única das Favelas. Fundou o C.R.I.A., Centro Revolucionário de Inovação e Arte, e o Marginow, com a proposta de dar visibilidade aos artistas da periferia. Em 2019, publicou, pela Alfaguara, seu segundo romance, Efetivo variável. Atualmente, Jessé Andarilho realiza palestras em todo o Brasil, contando um pouco da sua história e mostrando como sua vida foi transformada pela literatura.

 

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