Diários do isolamento #91: Jessé Andarilho

Diários do isolamento

Dia 91

Jessé Andarilho

 

Já passei o dia todo ao lado de uns caras que são Guardiões do Crivella. Os caras são bizarros. Eles endeusam o bispo e odeiam o pessoal da Globo e da esquerda.

Eles ficam observando tudo ao redor. Se aparecer alguém de vermelho ou fazendo live, eles chegam junto pra ouvir o que a pessoa está dizendo.

O dia que passei ao lado deles foi bizarro. Eles estavam cheios de ódio porque na semana anterior alguém tinha jogado um ovo no bispo e eles não conseguiram matar o cara porque havia muita câmera no lugar.

Um dos caras falou em matar mesmo. Ele disse que mata e morre pelo Crivella.

Não é só nos hospitais que eles atuam. O bagulho é muito doido. Sem falar que eles acham realmente que o prefeito é maravilhoso e que a Globo mente.

Se você assistir à Rede Record só vai aparecer notícia boa do Crivella. Na emissora deles, o Rio de Janeiro é uma fazenda Canaã.

E tem um montão de gente que entra na onda dos caras. Eles são tão covardes que estão a serviço do prefeito e, pra atrapalhar as matérias na tevê, gritam o nome do presidente.

Não sei aonde isso vai parar, mas só sei que tem grande chance de o prefeito ser reeleito.

Um guardião que me dá raiva é o assessor especial das palmas. O cara ouve as merdas que o prefeito fala e, quando percebe um respiro do Crivella, inicia os aplausos. Eu me divirto com esses caras. É bizarro. E eles te olham atravessado se você não aplaudir com eles.

O Rio de Janeiro continua lindo. Lindo de morrer. Cuidado com o que fala. Um guardião pode aparecer.

Se você não ouviu falar sobre os Guardiões do Crivella, dá uma pesquisada no Google e vai entender do que estou falando.

Você pode querer saber o que eu fazia ao lado do pessoal do Crivella. É que estou escrevendo um livro chamado Esquema, que conta a história de um motorista de van que virou vereador no Rio de Janeiro.

E, sempre que posso, eu ando por lugares que você não teria coragem e nem estômago pra ficar por cinco minutos.

 

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Jessé Andarilho nasceu em 1981 e foi criado na favela de Antares, no Rio de Janeiro. Filho de vendedores ambulantes, trabalhou com diversas atividades na sua comunidade, até ler seu primeiro livro, aos 24 anos. Foi quando, no trajeto de aproximadamente três horas que fazia de trem de sua casa até o trabalho, passou a usar o bloco de notas do celular para contar histórias. Dessas anotações surgiu o romance Fiel, publicado pela Objetiva em 2014. Em 2015, foi convidado para integrar o grupo de redatores da novela Malhação, da TV Globo. Foi diretor de reportagem do programa Aglomerado, da TV Brasil, e produtor da Cufa – Central Única das Favelas. Fundou o C.R.I.A., Centro Revolucionário de Inovação e Arte, e o Marginow, com a proposta de dar visibilidade aos artistas da periferia. Em 2019, publicou, pela Alfaguara, seu segundo romance, Efetivo variável. Atualmente, Jessé Andarilho realiza palestras em todo o Brasil, contando um pouco da sua história e mostrando como sua vida foi transformada pela literatura.

 

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