Diários do isolamento #99: Jessé Andarilho

Diários do isolamento

Dia 99: Cinema Marginow

Jessé Andarilho

 

No meio da correria na favela uma senhora me abordou e me disse:

– Meu filho é seu fã e do Xamã!

Acho que estamos no caminho certo. Inspirar jovens aqui na área é também uma forma de mudar o mundo começando pela base.

São essas coisas que me fazem levantar todos os dias e trabalhar com força pra mostrar outras possibilidades pra menozada.

Eu poderia até meter a mão no bolso e montar uma biblioteca top de linha com tudo de primeira, mas aí não seria uma biblioteca comunitária.

Acredito na força da rapaziada e sigo na direção da comunhão do meu povo. Por isso vocês não vão me ver tretando com os meus.

Domingo passado começamos com o cinema na Biblioteca Marginow.

Sei que estamos na pandemia e tomamos todos os cuidados possíveis para não aglomerar a criançada. Foi tudo ao ar livre, sem muita divulgação. Só falamos com os nossos leitores.

Aproveitei a vibe e o hype dos irmãos Cosme e Damião e fiz uma conexão com pessoas que compram doces e distribuem todos os anos.

E assim o nosso cinema foi recheado de doces, pipocas, bolo e refrigerante.

Descobrimos adolescentes de dezesseis anos que nunca tinham ido ao cinema. Foi lindo. Não postei as fotos nas redes porque tô meio de saco cheio dessas paradas que roubam a nossa atenção. Focar nos sorrisos e compartilhar a felicidade somente entre os presentes foi um dos melhores presentes que ganhei e doei. A vida fora da tela é maravilhosa. Às vezes é bom experimentar.

A ideia era exibir o filme Sonic, mas antes de exibir a superprodução das gringas, tive a ideia de passar o curta Segura Malandro. Um filme que gravei em Antares com os moradores e com o Xamã. Tudo produzido e realizado com amigos aqui da Zona Oeste carioca.

Vocês não têm noção do encantamento da galerinha ao ver as ruas de Antares no telão sem imagens de armas e drogas. Cada cena era comentada, cada cenário era aplaudido, cada fala era compreendida.

Parece arrogância achar que vou ajudar a mudar o mundo, mas pelo menos o mundo das cinquenta crianças que estiveram no nosso cinema e que frequentam a nossa biblioteca comunitária com certeza vai ser diferente.

Pelo menos a nova geração não vai mais precisar mentir quando perguntarem onde elas moram.

Ainda vou ver essa galera bater no peito e gritar com orgulho:

SOU DE ANTARES!!!

 

***

Jessé Andarilho nasceu em 1981 e foi criado na favela de Antares, no Rio de Janeiro. Filho de vendedores ambulantes, trabalhou com diversas atividades na sua comunidade, até ler seu primeiro livro, aos 24 anos. Foi quando, no trajeto de aproximadamente três horas que fazia de trem de sua casa até o trabalho, passou a usar o bloco de notas do celular para contar histórias. Dessas anotações surgiu o romance Fiel, publicado pela Objetiva em 2014. Em 2015, foi convidado para integrar o grupo de redatores da novela Malhação, da TV Globo. Foi diretor de reportagem do programa Aglomerado, da TV Brasil, e produtor da Cufa – Central Única das Favelas. Fundou o C.R.I.A., Centro Revolucionário de Inovação e Arte, e o Marginow, com a proposta de dar visibilidade aos artistas da periferia. Em 2019, publicou, pela Alfaguara, seu segundo romance, Efetivo variável. Atualmente, Jessé Andarilho realiza palestras em todo o Brasil, contando um pouco da sua história e mostrando como sua vida foi transformada pela literatura.

 

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