Do haver e das variáveis

Daniel Gil*

 

 

Em tempos de quarentena, é comum a gente pensar na própria vida como quem faz em abstrato um balanço geral. Toma-se nota — no pensamento — do que se fez e daquilo que desde sempre se desfaz. E, de tudo, se deduz aquela diferença que substancia a subjetividade predisposta ao “vir-a-ser”. Neste cenário, faz-se lancinante a poesia retirada da “tristeza diante do cotidiano”, da “cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido” e, quanto mais, desse “heroísmo estático”, desse “medo de ferir tocando”. “O haver” (leia abaixo na íntegra) seria um dos carros-chefes de O deve e o haver, anunciado mas inconcluso volume poético de Vinicius de Moraes. O poeta apresentou a ideia de seu livro do seguinte modo, em entrevista ao Estado de São Paulo, em 1979: “Trata das coisas que foram feitas e das que me escaparam. É uma autocobrança das coisas que a vida me ofereceu e que eu deixei fugir”.

Para quem não sabe, “deve” e “haver” são termos típicos da contabilidade de pequenas empresas; protagonizam o livro caixa por meio também de alcunhas mais contemporâneas: débito e crédito, entrada e saída, receita e despesa. A partir dos valores anotados e calculados nas duas variáveis, tem-se o saldo, isto é, a diferença, o que Resta — daí a palavra-refrão de “O haver”. Concorre ao significado amplo do poema, por sua vez, algo que aponta para um possível porvir, em que pese o infinitivo: o verbo “haver” deu origem na língua portuguesa à própria flexão do tempo futuro (acontecer > acontecerá).

Vinicius levou-o a público por quatro vezes, sempre com reescritas ou pequenos acertos. A primeira versão consta do Diário de Notícias de 15 de abril de 1962; mas ele reaparece com significativas alterações n’O melhor do Pasquim 1969/70; em 1977, o poema é recitado no álbum Antologia poética. A última versão pertence a uma edição de luxo de 1978, O falso mendigo, coletânea organizada por Marilda Pedroso, com xilogravuras de Luiz Ventura. O poeta concederia à organizadora alguns poemas ainda inéditos em livro.

Toca-se ali, em dado momento, nos propósitos da poesia: “essa imensa/ Piedade de sua inútil poesia e sua força inútil”. Não nos deparamos, então, com a suposta utilidade debatida nas cátedras — o prazer estético, a expansão da linguagem, o sustento do espírito... —, mas outra, ou melhor, a falta de utilidade na tentativa de fazer com que ela sirva como um agente estabilizador: do “coração queimando como um círio/ Numa catedral em ruínas”; da “tristeza”; da “súbita alegria”; da “vontade de chorar diante da beleza”; da “piedade de si mesmo”. A inutilidade a que Vinicius se refere diz respeito à incapacidade de o ato da escrita ser um alento para as dores advindas de sua “capacidade de ternura”, essa mesma que o arrasta à poesia. A resultante do ofício dentro de si é aparentemente diversa daquela auferida pelos leitores, os quais, em algum grau ressarcidos da inquietude compartilhada, não questionam em absoluto a contribuição.

 

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Leia abaixo o poema "O haver", de Vinicius de Moraes, que está em Poemas esparsos, volume de escritos inéditos e póstumos.

 

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo:
Perdoai... — eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano, ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de se comprometer sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm hoje nem ontem.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
E transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visã
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do Grande Medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da Treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do próprio reino.

Resta essa fidelidade à mulher e a seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.

 

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Daniel Gil nasceu em 1981, no Rio de Janeiro. Poeta e ensaísta, organizou recentemente livro póstumo de Vinicius de Moraes, Roteiro lírico e sentimental da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (Companhia das Letras, 2018); é autor de O amor curvo (Oito e Meio, 2018). Doutor em Literatura Brasileira (UFRJ), é secretário executivo da Editora UFRJ.

 

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