Duas cenas

Marília Garcia

 

Na primeira, estou sem poder ver meus pais, parentes, amigos. Falo com eles pelo telefone. Ouço a voz de outra pessoa enquanto, deste lado, olho pela janela, arrumo, limpo, empilho os livros, o telefone pendurado na orelha. O destino pesando, a catástrofe presente. Deparei esses dias com um poema da Anne Carson (de 2005) que descreveu bem a cena que tem se repetido comigo. Mas que só passou a existir para mim, de fato, depois que li o poema dela:

 

Linhas

Falo com minha mãe enquanto arrumo as coisas. Livros ao lado do telefone.
Clipes
num prato de louça. Restos de borracha são manchinhas na mesa. Muito
aflita,
ela me fala da morte. Começo a virar todos os clipes para o outro lado.
Pela
janela vejo o desenho da neve caindo em linhas retas. Conto à minha mãe,
amor
da minha vida, o que comi no café. A neve em linhas retas vai caindo
mais
depressa. O destino fez pesar as pontas (para nos apressar)
quero
dizer a ela -- sinal da piedade divina. Ela não quer me prender
mais diz, não
quer ficar me devendo nada. Os milagres passam. Os
clipes
estão alinhados para sempre. Piedade divina!, até quando
vamos
sentir esse peso queimando, disse a criança tentando ser
gentil.

 

Ela fala com a mãe enquanto arruma as coisas, as linhas (versos) do poema vão caindo com a neve e misturando as vozes, trazendo a mãe pra dentro da fala da filha, uma voz em off para as cenas que vai descrevendo. Ouço várias vozes em off enquanto vejo o desenho da chuva pela janela e espero o destino pesar em algum ponto.

**

Na segunda cena, estou com minha filha ouvindo o disco A arca de Noé (de 1980), de Vinicius de Moraes, quando de repente se entreabre, por uma fresta microscópica da escuta, a possibilidade agora inimaginável: o momento depois do dilúvio, pós-catástrofe, a calmaria que deveria suceder à tempestade

Momento tão distante que mal existe como possibilidade. Sequer conseguimos criar algum espelho na ficção. Mas eis que diante desse disco, tomei um susto ao vislumbrar a chance. Também ouvia essas canções quando era criança e sempre fico muito sentimental quando elas tocam aqui. Esse disco me traz de volta uma espécie de atmosfera da infância e talvez tenha sido por isso, por essa sobreposição de tempos, que pude sentir certa doçura em meio à dureza de agora. Ao ouvir os versos iniciais, maravilhosamente idílicos (na voz de Chico Buarque), fiquei bastante comovida.

 

Sete em cores, de repente
O arco-íris se desata
Na água límpida e contente
Do ribeirinho da mata.”

 

Em seguida, na voz maravilhosamente idílica de Milton, “abre-se a porta da arca” e sai de dentro Noé, com todos os seus bichos, para encontrar o verde e o mundo. Os esforços dele para criar uma coleção do mundo cumpriram a razão de ser e a partir da abertura da arca, o mundo poderá ser refeito, repovoado, repensado. Imersos em tempos tão sombrios, é impossível imaginar que vamos chegar a isso. Por enquanto o idílio parece perdido num passado remoto, e não projetado para um futuro possível.

Há mundo por vir?, volta a pergunta de Sousândrade (de O guesa, de 1888) e é muito difícil conseguir pensar nos mitos e personagens da “reconstrução”. Robinson Crusoé também refaz seu mundo, depois da catástrofe pessoal. Sozinho em uma ilha, precisa recriar tudo a partir dos poucos objetos e recursos que têm à mão. O processo é lento, sobretudo se feito por um homem só. Um dia ele consegue sair da ilha, depois de ter criado um novo mundo para si. Mas por onde começaremos essa reconstrução?

 

***

Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).

 

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