É preciso desentropiar a casa

Marília Garcia

 

 

Borges tem uma ótima teoria sobre a metáfora (em uma das palestras do livro Esse ofício do verso). Segundo ele, por mais variadas que sejam, quase todas as metáforas se concentram em alguns poucos modelos: o tempo como rio, a mulher como flor, a vida como sonho, a morte como noite, os olhos como estrelas...

É claro que isso é uma boutade, afinal há um número infinito de metáforas, a língua é “um mar de possibilidades” (mais uma metáfora!), ele reconhece isso, mas, como bom adorador de sistemas que era, inventa essa leitura que consegue abarcar o funcionamento de muitas metáforas. Com este sistema, ele também convida o leitor a pensar em outros possíveis modelos, como por exemplo, um que encontrei no poema “Fim e começo”, de Wislawa Szymborska.

Ela usa a imagem da “faxina” para falar do momento pós-guerra.  “Depois de cada guerra”, diz “alguém tem que fazer a faxina.” Primeiro, o sentido da “faxina” é literal, é preciso tirar o entulho do meio do caminho para os carros poderem passar com os mortos. Mas, depois que este sentido já ganhou força e é concreto, passa a ser figurado: “Às vezes alguém desenterra / de sob o arbusto / velhos argumentos enferrujados / e os arrasta para o lixão”.

Adília Lopes fala da ideia da arrumação, comparando-a com o trabalho da escrita, numa imagem que me parece seguir este modelo de Szymborska: “É preciso desentropiar / a casa / todos os dias / para adiar o Kaos / a poetisa é a mulher-a-dias / arruma o poema / como arruma a casa / que o terramoto ameaça”.

Em outro poema, Adília também trata da ideia de limpeza, mas com um sentido contrário. Chama-se “Anti nazi” e é uma boa resposta aos discursos populistas que usam a ideia metafórica da “limpeza” na política:

 

A limpeza
pode ser
pior
que a porcaria

A ordem
pode ser
a maior
desordem

 

Borges diz que o interessante da metáfora em poesia é que seja sentida como metáfora. Em outras palavras, “matar o tempo”, “quebrar o silêncio” ou “viralizar na internet” seriam “metáforas mortas”, afinal, foram “gastas” a ponto de se tornarem expressões (quando a metáfora é absorvida pela língua, passa a se chamar “catacrese”). Se um meme “viraliza” na internet, ninguém pensa em organismos acelulares que são agentes infecciosos, por exemplo, o coronavírus, “contaminando” a internet de forma literal. Por outro lado, a linguagem não deixa de criar formas de nomear a pluralidade da vida, com comparações, imagens, atualizações.

Em meio ao vocabulário da pandemia e do mundo digital (que sofreu uma aceleração nos últimos meses), quais novas metáforas devem surgir agora? O momento não poderia ser mais propício para lembrar da metáfora viral de William Borroughs (retomada por Laurie Anderson), “A linguagem é um vírus”, e nós, seus hospedeiros possibilitando sua propagação e mutação...

Por fim, uma imagem que li esses dias em um poema de Carla Kinzo. Seria outro “modelo” de metáfora, para pensar com Borges? Chama a atenção a forma paratática como ela constrói a comparação, pondo lado a lado duas coisas que podemos quebrar, verso e xícara. (“Wabi sabi” é um conceito japonês ligado à estética e à filosofia zen, que valoriza as coisas simples, incompletas e transitórias).

 

wabi sabi

quebrar um verso quebrar uma xícara

suspender do chão uma palavra
ainda quente pela asa

 

Como juntar os cacos das palavras depois de tudo? Em vez de “faxinar”, como no poema de Szymborska, talvez seja possível pegar os cacos da palavra do chão, colar os versos para refazer os sentidos e seguir adiante.

 

***

Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).

 

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