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Em tradução (Fidelidade)

Caetano Galindo

 

Estava eu cá mandando áudios de zap (que é meio que metade das atividades da minha vida de quarentena… sendo a outra metade é enrolar cachinhos do desgrenhado cabelo quarentênico que ainda me resta entre o cocoruto e a nuca…). Dessa vez pra uma orientanda (oi, Francine!), a respeito do capítulo 3 da tese de doutorado dela (sobre The recognitions, de William Gaddis, um livro que eu adoro [será que eu consigo escrever sem usar tantos parênteses?])…

Ela está mergulhada numas questões super complexas de originalidade-autoria-cópia-posterioridade-autenticidade… Nem te conto. Coisa densa mesmo. Mas o meu áudio num momento tocou numa coisa que sempre aparece nas conversas sobre tradução, e que eu acho que de repente vocês aqui podiam curtir.

A questão envolve a algo malfadada noção de “fidelidade”.

Todo mundo que fala de tradução sem ter estudado o assunto acha que se trata de uma questão básica. O tradutor tem que ser “fiel”. (E, logo depois de chegar a essa conclusão, 27 entre dez textos de gente de fora da área vão dar um jeito de citar o anexim traduttore, traditore… e vão se achar mó por cima da carne-seca.)

E é claro que eu também não estou aqui pra dizer que o tradutor não deve ser fiel; nem que ele deva não ser fiel (o que seriam duas coisas diferentes). O que no entanto a gente precisa ver é que essa discussão, no senso comum, é meio banal. A coisa fica meio no campo de um truísmo indefinido. Tipo “eu gosto de ler um bom livro” (não, eu não, eu adoro ler livros péssimos! Dã…). Ou: “você precisa ser uma boa pessoa”. Ok, todo mundo concorda. Mas o problema começa quando você precisa definir os teus termos. Me explica aí então o que torna uma pessoa inequívoca, total e inquestionavelmente boa, pra ela poder sempre dizer que cabe nessa definição?

O caldo entorna.

A primeira pergunta que caberia fazer no caso das discussões de “fidelidade” na tradução seria semelhante a essa. Pedir uma definição de “fidelidade”.

Mas, por ora, vamos até deixar isso de lado, e deixa eu levantar uma outra pergunta: fidelidade a quem? Ou a quê?

A fidelidade que se cobra do tradutor é fidelidade ao autor? Ou ao texto? Ou ao seu leitor? Ou ao seu contratante? Ou todas essas (afe!)? E em que medida elas podem se sobrepor, ou se anular?

Uma tradução de Twelfth night, de Shakespeare, que queira manter a mesma estrutura métrica dos versos, o mesmo padrão de sofisticação verbal e a mesma pátina de um texto de mais de quatrocentos anos de idade seria mais “fiel” que outra, que traduza o texto em prosa, atualizando o vocabulário (e por vezes até as referências culturais) e entregando um texto mais “atual” para o leitor/espectador brasileiro?

Mas Shakespeare não escreveu um texto antigo! A peça, quando foi montada, era cem por cento contemporânea!

E Shakespeare escrevia em verso porque esse era o padrão, a convenção do teatro do seu tempo. Ninguém estranhava teatro em verso. Hoje, ninguém estranha teatro em prosa. Será que traduzir “naturalidade” por “naturalidade” não é opção?

E será que uma tradução refinada, acadêmica, com pilhas de notas e prefácios, feita para um leitor sofisticado é a única maneira de ser fiel ao projeto de Shakespeare (que na verdade nunca foi esse?). Esta editora, por exemplo, vem oferecendo lindas traduções de Shakespeare com o selo Penguin. Mas elas têm um projeto editorial, e seus tradutores seriam os primeiros a concordar que outros projetos também são viáveis.

Aliás, é mais “fiel” uma tradução que verta Twelfth night por Décima segunda noite, como pede o rigor das equivalências lexicais? Ou uma (como a maioria das que circulam por aí) que prefira Noite de reis, usando a referência que de fato faz sentido no nosso mundo lusófono?

Ao contrário do que pensa quem nunca mexeu com tradução literária (e isso vale até pra não literária!), nenhuma pergunta dessas tem resposta simples. É preciso ser fiel, mas antes há que se decidir, como, quanto, quando e a quem. É preciso estar e atento e forte, porque ninguém vai te dar soluções engarrafadinhas…

É, no fundo, igualzinho a “ser uma boa pessoa”….

 

***

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

 

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

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