Em tradução (Gorman)

Caetano Galindo

Foto de Carlos M. Vazquez II

 

Ok.

Vou ter que dar os meus pitacos na espinhosa questão da tradução de Amanda Gorman.

Primeiro, cartas na mesa: eu sou homem, negro, cis, hétero, 47 anos de idade. Eu traduzi o poema que Gorman leu na posse de Joe Biden, unicamente porque me empolguei com ele e quis compartilhar, e joguei no FaceBook. Ninguém me contratou, ninguém pediu. Só semetidei mesmo.

Segundo, recentemente pipocaram “escândalos” da tradução graças ao fato de que em mais de um “mercado”, depois de reclamações do leitorado, as traduções originalmente contratadas para o livro de poemas de Gorman acabaram sendo “destratadas”. Motivo? As reclamações foram sempre as mesmas. Como pode uma mulher branca traduzir Gorman? Como pode um homem traduzir Gorman?

E as editoras, uma a uma, foram cedendo a essa pressão; retirando o trabalho da mão da tradutora branca, do tradutor homem, e encomendando nova tradução.

Entre os tradutores da minha bolha online a discussão depois disso correu solta. E entre gente muito grande. Denise Bottmann, Ivone Benedetti… só pra dar uma amostra. Você pode conferir lá se quiser.

Eu mesmo entrei muito de leve e de gaiato, sem querer atrapalhar a conversa das duas no post original da Denise. Mas aproveito aqui pra deixar o meu, pessoal, resumo da situação.

Entendo, muito, o problema da representação. Entendo que precisamos de mais tradutorAs e mais gente negra no mercado. Entendo que seria importante ter uma dessas vozes traduzindo Gorman. Entendo que a importância, digamos, simbólica dessa representatividade, nos tempos atuais, pode até ser o mais definitivo dos fatores.

Mas me preocupa demais que o papel de ponte, de aproximação de diferenças, de meio de comunicação identitariamente irrelevante acabe sendo escamoteado no processo de tradução. Para além do que muita gente já apontou, que o próprio poema inaugural de Gorman era uma conclamação à união e à superação das diferenças, para além do fato de que ela mesma já havia aprovado a indicação da tradutora holandesa, por exemplo, eu fico com essa defesa da atividade do intérprete.

Eu traduzo especialmente para ser outras pessoas. E se alguém gosta das minhas traduções eu tenho certeza que é disso que essa pessoa gosta, mesmo que não perceba.

Eu traduzo para que uma voz “outra” possa se fazer “nossa” através de mim, sem que EU seja ponto central dessa equação. Eu traduzo para dar a ver me mantendo oculto.

Minha maior identificação, em toda a minha carreira, é com a voz de Ali Smith. Mulher, queer, branca… Mas eu sinto que “sei” ser a voz dela. E sinto que é essa a mágica do nosso ofício, quando bem realizado.

Quando responsável.

 

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

 

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