Em tradução (O eu que resta)

Caetano Galindo

Foto: Abstract Aerial Art/ Getty Images

 

Eu falo um inglês meio mais ou menos. Quer dizer, funcional. Não passo vergonhas demasiadas. Mas estou longe de ser daqueles que parecem espiões, que podem passar por nativos. Falo um inglês decente de estrangeiro. (Na verdade, em várias ocasiões em que encontro escritores ou escrevo para eles, faço questão de me desculpar, dizendo pra eles ficarem tranquilos que eu “leio” inglês bem direitinho. E, afinal, é isso que se deve esperar de mim como tradutor. Espero.)

Eu nunca morei fora, nunca fiz aula (a única língua que eu estudei em ambiente formal, e da qual eu tenho um diploma universitário, é o francês), nunca estive em “imersão” no mundo anglófono. Aprendi aos trancos, ouvido música e vendo filme legendado, fundamentalmente porque eu gosto de tentar entender outras línguas. Mas, como se pode ver pelo tamanho dessa introdução, e pelo tom geral que ela tem, isso também me incomoda um pouco. Em algum lugar eu sinto que “deveria” falar um inglês perfeitinho, como o português da Alison Entrekin, por exemplo. (E não imagine que meu francês, a essas alturas, é muito melhor.)

Eu sou fraco de caráter. Queria me transformar em outros em outras línguas, queria apagar minhas marcas… Não consigo, acochambro, e me acomodo.

*

Agora a gente estava assistindo uma série islandesa (Trapped, recomendo…). E eu, que tenho esse inglês, um pouco de alemão, um tantinho de dinamarquês, fui ficando angustiado com a “quase” compreensão de várias frases e decidi dar uma estudada na língua. Só por diversão. Cada um com suas diversões. Me deixem.

Aí claro que a portinha se abriu. E eu, que tive poucos contatos com a cultura islandesa na vida, voltei pra fonte maior de qualquer criatura criada nos anos 80. Björk Guðmundsdóttir berrando em Birthday, dos Sugar Cubes. E, depois, a carreira inteira da doida.

Na verdade, fazia uns anos que eu não acompanhava a produção dela (ando me desligando da música pop…). Mas não vou nem comentar da música, ou isso aqui não acaba. Só a língua. E o quanto ela, que tinha já a manha de soltar uns versos em islandês mesmo no meio das canções inglesas dos Cubes, anda cada vez mais descaradamente estrangeira. Ela sempre tendeu a dizer matter, por exemplo, aspirando o primeiro “t”, conforme as regras da sua ilha. Mas agora fala respect com um “r” inicial mais vibrado que o de um italiano animadão.

Ela não quer se fingir de nativa.

Ela não é nativa. E não tem vergonha disso.

E esse negócio me põe comovido pra diabo. Quando Regina Spektor fala russo, quando Björk vibra o “r”. É como se você tivesse acesso a uma parte mais íntima, mais de verdade da pessoa. Como se ela deixasse entrever que aquela superfície da língua estrangeira é mera casca.

E a gente não tem essa sensação no nosso próprio idioma, né? Essa casca é colada. A gente não retira e nem sente. Ela protege e define. Ela é a gente. E no fundo é por isso que a gente vira tradutor: sempre por esse interesse pelas línguas estrangeiras, pelos seus detalhes e curiosidades (os islandeses se cumprimentam dizendo feliz, e se chamam de fulano meu, como termo de carinho), mas acima de tudo por essa relação de amor e fascínio pela nossa própria língua, por uma dedicação a ela que precisa nos levar a falar português sem qualquer sotaque. Perfeito. Cuidado.

Meu inglês falado é quase bom.

Meu francês, depois de uns três dias por lá, fica quase ótimo.

Nas outras línguas eu me viro em graus variados.

Mas no português brasileiro eu me garanto. Pode confiar. E é disso que eu preciso cuidar, no interesse dos autores e dos leitores. E é bom lembrar disso. Obrigado, Björk mín.

***

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James JoyceDavid Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

 

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