Em tradução (Só)

Caetano Galindo

 

No Ulysses tem um trecho em que o Stephen Dedalus (sempre o cara certo pra dizer alguma coisa pernóstica) defende que os gênios não erram. Segundo ele, pra uma figura genial os erros são “portais da descoberta”.

Ele estava falando Shakespeare, Sócrates. Ele é ele.

Eu, tantinho mais chão, sempre lembro de uma frase do Jimi Hendrix, que aconselhava o músico que, num solo, toca uma nota “errada” a martelar aquela nota, voltar a ela com convição, e tentar fazer daquele erro um achado.

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Falando em solos, em erros e em gênios.

A nossa palavra vem de um latim solus, que tinha esse mesmo sentido. Cai o “l” intervocálico (ele sempre cai), regulariza a vogal final em “o”, e nós temos soo, pronunciado com duas sílabas mesmo, que era a forma da palavra até chegar o período “moderno” da língua. 

Aí a gente fez uma outra coisa genial com a palavra. Porque já no comecinho do século XVIII ela aparece no diminutivo! 

Para pra pensar: sozinho. Só a gente mesmo pra usar uma forma carinhosa pra solidão… É tão mais triste… você está sozinho……

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Nesse mesmo momento, nas primeiras décadas do XVIII, a gente importou a versão italiana da palavra, solo, em contexto musical, com o sentido de peça, ou momento de uma peça, em que um instrumento ou toca sozinho ou se destaca do grupo. Dá um passo à frente.

(Digressão: se você é músico e já tocou ao vivo, sabe que poucos momentos são de mais aguda sozinhez do que aquele segundo em que chega a deixa pro teu solo e você se prepara pra passar vergonha ou sair por cima…)

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(Outra digressão: solo, no sentido de terra, ou piso, vem de outra raiz latina… solum)

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Recentemente eu li um livro em que a tradutora se referia a uma obra de música clássica como sonata para solo de violino. Parece bonito. Parece ok. E podia ser bom, podia ser verdade. Mas quem tem algum trânsito no mundo da música erudita sabe que a expressão que de fato se usa é sonata para violino solo.

Os dicionários não necessariamente ajudariam.

O que faltou à colega (acontece nas melhores famílias) é aquela coisa preciosa e difícil de quantificar: repertório, cultura geral, estrada.

Foi simplesmente um erro.

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Quando a primeira esposa de Johann Sebastian Bach morreu ele se dedicou a escrever, como que em homenagem a ela, um conjunto não de sonatas, mas de partitas (conjuntos de danças estilizadas) para violino solo. São obras fundamentais do repertório do violino até hoje. E uma delas contém aquela que pode muito bem ser a maior composição de toda a história da música: a Chaconne, ou Ciaconna (como o próprio Bach escreveu no manuscrito).

O musicólogo Giovanni Bietti, no seu belíssimo livro Lo Spartito del Mondo, lembra que as partitas de Bach são uma espécie de triunfo da globalização avant la lettre, com peças de todos os cantos do mundo reunidas e estilizadas. A chacona, por exemplo, pode ser na origem uma dança sul-americana (dos chacos).

Ali, na mão do mestre alemão, ela ainda ostenta várias marcas estilísticas espanholadas, e um título em italiano.

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Mais do que isso, Bach deu um título também italiano ao manuscrito com o conjunto das seis partitas. Ele quis escrever seis solos para violino, mas seu italiano era falho.

Em vez de escrever sei soli, como seria correto, ele acabou grafando sei solo.

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Seus erros são portais da descoberta.

O que de fato ele acabou dizendo, em sua tentativa estropiada de usar uma língua estrangeira para homenagear a esposa morta e consolar sua viuvez?

 

Você está sozinho.

***

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James JoyceDavid Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

 

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

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