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Em tradução (Tio)

Caetano Galindo

 

Eu sou professor de linguística. Trabalho com linguística histórica, formação da língua portuguesa, variação de uso real da língua. Essas coisas. Isso, profissionalmente, me proíbe de dar vazão ao lado “tio mal humorado” que, no entanto, todo mundo sempre há de ter.

Eu sei, cientificamente, que qualquer ideia de “esta geração não sabe mais escrever”, ou “estão acabando com a língua portuguesa”, ou “no meu tempo era melhor”, é apenas fruto da velhice incomodada com o que vem vindo. E que vindo virá!

E sei que essas reclamações estão registradas desde que as línguas são línguas. Tipo desde a Mesopotâmia tinha lá o Tio Eshkar reclamando “estão acabando com o sumério!”

Porém…. (ah, porém….)

Tem o dado da brotoeja, né? Daquelas coisas que, apesar de você saber que sim, que tá, que tudo bem, mesmo assim arrepiam o piloro e aceleram a calvície. Vejamos duas delas, em que euzinho estou em estágios diferentes de aceitação (ver-se-á), e suas eventuais relações com a tradução literária.

Uma é a dita “oração relativa cortadora”.

Quando eu fiz a minha prova didática aqui na UFPR (o momento do concurso de seleção de professores em que os candidatos dão uma aula sobre um tema sorteado na véspera), falei sobre orações relativas. Isso foi 23 anos atrás. E na época eu disse, com alguma segurança, que a “cortadora” ainda era estigmatizada.

Pois bem, foi-se o tempo.

O que que é esse bicho? Algo como “ele é um cara que eu gosto muito”. Ou “aquele livro que eu me apaixonei”. Orações que na ordem direta usariam uma preposição (gostar DE, apaixonar-se POR), mas que quando aparecem como relativas, “embutidas” numa oração maior, acabam perdendo essa preposição.

Elas, hoje, grassam alopradamente entre o pessoal que está com até uns trinta e pouquinhos anos. Estão virando a regra na oralidade mesmo das pessoas com nível mais alto de educação formal. Dia desses tive uma divertida conversa com uma orientanda, tradutora profissional, que ficou de fato surpresa quando eu disse que um véio universitário como eu realmente USA as preposições nas relativas.

No mundo dela, ninguém mais usa quando fala.

E essa construção anda começando a aparecer na escrita. Jornais sérios, sites… E ela é velha. Lembrem do Noel Rosa, noventa anos atrás, “com que eu roupa eu vou pro samba QUE você me convidou”.

Com essa eu já ando atingindo o zen. Na verdade, estou quase (mas quase mesmo) me sentindo à vontade pra usar tipo no WhatsApp. Quem sabe ela daqui a pouco apareça nos diálogos das minhas traduções. Se o projeto certo vier, eu usaria hoje.

Trata-se de aceitar a realidade.

Como no caso daquela outra que já me irritou mais: “o brasileiro ele acha ruim…”, “essa frase ela não precisa do pronome….”

:)

Mas a conexão desse mal-humoradismo pessoal com a tradução é mais clara, claro, quando se trata do imenso campo da influência algo excessiva do inglês sobre o português que a gente anda falando/escrevendo.

Mesmo eu, assumido aqui como ranheta, sei bem que 90% dos estrilos que a gente há de ver na rede são bobagens, exageros, caturrice. Menos os meus!

Detesto o uso de “mais cedo” onde um “hoje”, “hoje cedo”, ou mesmo um belo conjunto vazio davam conta do riscado.

Abomino “eu não pertenço a este lugar”.

Herdei do meu mentor o horror a “ao redor do mundo”.

E o que que é esse povo chamando Trump de “incumbente” na “inauguração” do Biden!?

Mas pouca coisa me deixa mais de olho virado que “ser sobre”. Tipo “não é sobre masculinidade, é sobre empatia”. “A democracia não é sobre direitos individuais, é sobre direitos coletivos.”

Pela milagrosa peruca mofada de Santa Caropita de Siracusa!!!

Custa escrever em português?

“Tratar-se de?” “Ser uma questão de?” “Dizer respeito a?”

Pronto.

Podem jogar pedra agora.

Meu id de tiozão está repleto, recumbente e consolado…

 

***

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

 

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

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