Em tradução (balões)

Caetano Galindo

Chris Ware. © 2019 Larry D. Moore. Licenciado sob CC BY-SA 4.0.

 

O grande Érico Assis, cronista mór aqui deste espaço, se prepara pra lançar um livro com os textos que vem publicando aqui desde o começo (na minha modesta, os melhores textos que este blog já viu). Aliás, se você quiser dar uma mão pro rapaz, clica aqui.

Foi lendo a coluna do Érico que eu aprendi quase tudo de mais sério, importante e aprofundado que sei sobre o mundo dos quadrinhos. Fui leitor de gibis, claro, quando criança. E tateei um pouco no mundo das graphic novels, que ao menos pra minha geração foi marcado definitivamente pela chegada de Sandman. Lembro nitidamente de ter nas mãos um exemplar de Elektra Assassina, da dupla Sienkiewicz/Miller, e de ter percebido um “peralá”… Aquilo ali tinha outras pretensões. E outros resultados.

Nos últimos anos, de novo com o apoio do Érico e de gente como André Conti, fui transitando mais nesse mundo, conhecendo gente como Alison Bechdel, Nick Drnaso e, acima de tudo, Chris Ware. (Eu cheguei a usar o Ware de apoio até num texto que publiquei aqui falando da morte da minha mãe!)

Neste momento, entre o caos de gerir em tempos pandêmicos um programa de pós-graduação de uma universidade pública brasileira e o caos de viver em tempos pandêmicos, ponto, o trabalho de tradução que fica piscando e tentando me atrair (eu juro, Emilio, vai chegar no prazo) é justamente a última obra de Chris Ware.

Não vou (ainda não, pelo menos) falar da qualidade do livro, Rusty Brown. Ware vive sendo chamado de James Joyce dos quadrinhos. Pra mim basta como referência.

O que me interessa hoje é só comentar com vocês um pouco do que tem sido pra mim o “choque térmico” de passar pra tradução de quadrinhos.

A primeira dificuldade é logística.

Em vez de trabalhar com um pdf de texto, você precisa trabalhar com arquivos muito pesados, que precisavam ser ampliados pra dar acesso ao texto nos balões. No caso de Ware, isso é ainda mais complicado pelo costume que ele tem de desenhar o livro todo, dos créditos às notas, passando por comentários nas margens, rodapés e tudo mais que se possa imaginar.

Depois há o fato de que você precisa ficar pensando na pobre pessoa que vai ter que transferir a tua tradução pro documento final. É bom pensar se vai ficar claro que o que você está traduzindo ali é o terceiro balão do quarto quadrinho de baixo pra cima, na coluna da direita.

Aliás, traduzo só os balões?

E o pano de fundo? O que está escrito, por exemplo, no quadro-negro de uma sala de aula?

Sem contar que você precisa imaginar que as pessoas vão ter que fazer o teu texto caber no mesmo balão que antes comportava o texto inglês, sempre mais enxuto. (Aliás, é impressão minha ou o Ware desenha os balões com uma “folga” de uma linha, já pensando nos pobres tradutores??). A coisa passa a ser uma estranha versão de tradução poética, onde você precisa cuidar do conteúdo, sim, mas a forma é um elemento restritivo importante.

A isso tudo se somam as preocupações normais da tradução de prosa, especialmente de diálogos, que na minha experiência se destilam em: faça tudo parecer bom português brasileiro falado de verdade por brasileiros de verdade.

Mas, pera….

Que brasileiros?

O “elenco” tem muitas crianças. E crianças de um passado recente meio Stranger Things, que por sorte eu conheço bem (eu e Ware temos mais ou menos a mesma idade….)

É tudo, pra mim, muito novo. Mas é tudo, pra mim, muito empolgante. Afinal, o que é a tradução literária de qualidade se não, justamente esse constante jogo de tentar aparar as arestas do que parecia uma solução decente até ela ficar boa, e depois limar os cantos dessa solução boa até que ela cumpra com as exigências daquele texto, daquela forma, daquela fôrma… repetidamente…?

Chris Ware, o desenhista, já me ensinou a ver o mundo de outra forma.

Chris Ware, o criador, já me ensinou a ver as pessoas de outra maneira.

Chris Ware, em tradução, já está me ensinando muito sobre uma atividade que eu em teoria deveria dominar.

 

***

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

 

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