Em tradução (o tempo)

Caetano Galindo

Edição americana de Memórias póstumas de Brás Cubas, traduzido por Flora Thomson-DeVeaux

 

Eu hoje sou o vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPR. Assim mesmo, tudo com iniciais em caixa alta, que é pro indivíduo perceber cotidianamente o quanto ali é sério e o quanto ele, vice em caixa baixa, não está à altura.

Uma das coisas legais que a gente anda fazendo é um evento online, chamado Brasil em Todas as Línguas, onde tradutores de literatura brasileira para outros idiomas falam sobre o seu trabalho e conversam com pesquisadores importantes da área de estudos da tradução em universidades daqui e de fora. É bacana mesmo. Dá uma olhada aqui.

O penúltimo episódio da nossa segunda “temporada” foi estelar. Recebemos a Flora Thomson-DeVeaux, que recentemente transformou Machado de Assis em fenômeno literário nos Estados Unidos com sua versão de Memórias Póstumas de Brás Cubas. E a mediação foi de ninguém menos que José Luiz Passos, o Zé. Uma gringa no Rio de Janeiro, um brasileiro em Los Angeles. Coisas dos encontros virtuais…

Eu, como anfitrião, fiz a apresentação e saí de cena, pra cuidar de banners, inscrições, perguntas dos espectadores. Mas a conversa foi sensacional, e fiquei me coçando pra entrar no jogo. 

Uma das questões levantadas foi a ideia recorrente de que as traduções envelhecem mais rápido que os originais. Eu tinha os meus vinténs pra oferecer. Mas me contive nas coxias e, no final, quando ainda retive a Flora um tempo depois de encerrada a sessão ao vivo, achei que era chatice demais alugar a orelha da coitada com isso. 

Então, ora, uso aqui este espaço pra dizer o que eu queria.

Pobres de vocês.

Pra dourar a pílula, vou resumir tudo a uma imagem. Um símile algo laboriosamente estendido.

Pense na Estátua da Liberdade. Sabia que ela não era verde?

Quando os franceses deram a escultura de presente aos americanos, em 1886, com projeto do grande Gustave Eiffel (sim, o da torre), pensaram numa estátua de cobre, cientes de que ela mudaria de aparência ao ficar exposta ao clima, e contentes com isso. Originalmente ela era dourada, logo ficou marrom, e depois assumiu o tom esverdeado que hoje lhe é característico.

Eu não preciso me estender muito aqui. Você já viu onde eu quero chegar. Uma obra literária original é como a estátua da liberdade. Ela muda lentamente, com a passagem do tempo, e nós vamos nos acostumando à cara que ela tem no nosso tempo. 

Se você for comprar uma réplica da Estátua da Liberdade, não vai querer uma peça dourada, por mais que ela de fato tenha sido projetada e inaugurada desse jeito. Você quer uma reprodução daquilo que reconhece como real, diante dos teus olhos.

De novo, sem grandes suspenses, está mais do que claro que o meu argumento aqui é que traduções são essas réplicas. Uma réplica da estátua, se produzida, digamos, em 1900, vai reproduzir o original como ele se mostrava em 1900. Mais ainda, vai reproduzi-lo com os materiais e as condições de manufatura de seu tempo, e segundo as expectativas comerciais do seu tempo. Ela será um retrato da Estátua em 1900, para o gosto das pessoas de 1900.

E vai ficar presa no tempo.

Não vai lentamente ficar verde. Não vai recobrar parte de seu brilho quando o original for restaurado, como foi no final do século 20. 

A réplica atende a outros fins, tem outra expectativa de vida. E vai, sim, ficar datada de uma maneira específica. Bem diferente do original. Pode virar “antiguidade”, pode virar memorabilia, mas vai envelhecer num compasso diferente. E com rumos diferentes.

Porque envelhece mais rápido?

Talvez não. 

Talvez a questão justamente seja que ela não envelhece. Ela se mantém presa aos ditames de seu tempo, ao olhar e à expectativa de quando foi produzida.

O original, não. Se for uma grande obra de arte, ele sempre ganha. E nosso afeto vai acompanhar mesmo as mudanças que transformem sua superfície dourada em oxidação, em pátina, em verde-mofo. E será isso, e apenas isso, que vamos aceitar como sua verdadeira condição.

Por enquanto.

E replique-se!

 

***

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

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