Engasgos em Glasgow

Claudio Angelo

Mapa que demonstra a extensão da onde de calor no Canadá e Estados Unidos em 29 de junho de 2021 (ESA)

 

O filminho do apocalipse parece ter sido colocado para rodar em fast-forward neste meio de ano. Primeiro foi a onda de calor mortal na América do Norte, com temperaturas batendo os 49oC na costa oeste do Canadá. Depois as enchentes da Europa Central, com centenas de mortos e desaparecidos na Alemanha e nos Países Baixos. E aí o equivalente a oito meses de chuva despencando em um único dia em Henan, na China. A água que sobra lá falta no Centro-Sul do Brasil, ameaçado de apagão pela pior estiagem em 91 anos, e na Sibéria, onde uma extensão de florestas equivalente a meia Bélgica pega fogo enquanto escrevo. Um vídeo gravado na Estrada dos Ossos, no gélido nordeste da Rússia, lembra o inferno da Transpantaneira no ano passado. E olha que a temporada de furacões no Caribe ainda nem começou.

Nos últimos anos a Terra ganhou um calendário quase fixo de desastres. O ano começa com ondas de calor na Austrália, às vezes nevascas nos EUA e ciclones na Ásia. Aí vêm as ondas de calor no hemisfério Norte, os incêndios florestais no Mediterrâneo, depois na Califórnia, depois furacões no Atlântico, para fechar com ondas de calor marinhas matando corais no mundo inteiro e enchentes em São Paulo e no Rio. Tragédias naturais que ocorriam uma vez a cada 50, 100 ou 500 anos estão se tornando recorrentes, algumas praticamente anuais.

Os eventos climáticos extremos estão mais extremos e o clima está mais variável porque existe mais energia na atmosfera. Desde o século 19, o planeta aqueceu em média 1,2oC, e a previsão é que ultrapassemos 1,5oC antes do meio do século, talvez nos próximos dez anos. O desequilíbrio energético, com a Terra acumulando mais calor do que consegue dissipar, aumenta a evaporação dos oceanos. Muito grosseiramente, mais vapor e mais moléculas agitadas significa tempestades mais fortes e mais concentradas – ou seja, as estiagens também ficam maiores porque, quando chove, chove tudo de uma vez.       

Depois de passar décadas primeiro negando o problema e depois enrolando para enfrentá-lo, a comunidade internacional pareceu enfim ter despertado em 2021 para o fato elementar de que a atmosfera não tem partido e ninguém está a salvo. Com a posse de Joe Biden, os três maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta – Estados Unidos, China e União Europeia – parecem ter entrado numa nova fase da busca por hegemonia econômica, medida em venda de placas solares. Um teste importante desse ímpeto ocorrerá em novembro, quando 196 países deverão se reunir em Glasgow, na Escócia, para uma rodada definitiva de negociações internacionais sobre o clima.

“Deverão” porque a COP26 (sigla em inglês para 26a Conferência das Partes da Convenção do Clima da ONU) ainda não está garantida. Tudo dependerá do grau de sucesso da reabertura do Reino Unido com a variante delta bombando mundo afora. Os planos dos anfitriões, porém, são grandiosos: em 31 de outubro, na sua abertura, a COP26 deve receber chefes de Estado, inclusive Biden. Não há nenhum motivo técnico para reunir presidentes e premiês, já que nenhum novo acordo está sendo fechado. Conferências do clima só se tornaram cúpulas globais duas vezes – em 2009, quando Copenhague fracassou em produzir um acordo global, e em 2015, quando EUA e China enfim se entenderam e permitiram que o Acordo de Paris acontecesse. Glasgow seria apenas uma reunião burocrática, de ajustes finais no texto do Acordo de Paris, não fosse a insistência de britânicos e americanos em transformá-la num divisor de águas político.   

O governo de Boris Johnson vem insistindo na reunião presencial por dois motivos: primeiro, porque a conferência já está atrasada; deveria ter sido feita em 2020 e foi adiada por motivos pandêmicos. Segundo, porque em Glasgow serão em tese concluídas as regras para um mercado de carbono global, elemento-chave para impulsionar a nova economia verde na qual europeus, americanos e chineses apostam sua recuperação pós-Covid. Ocorre, porém, que a cimeira enfrentará alguns engasgos fundamentais, que espelham as próprias dificuldades da nova ordem mundial pós-pandêmica. E aqui vale a máxima dos versos do The Who: “Meet the new boss. Same as the old boss”. O velho chefe é a desigualdade.

A desigualdade é a marca de nascença da Convenção do Clima da ONU, o guarda-chuva que abriga as COPs. A preocupação com ela se expressa no princípio basilar conhecido como CBDR, segundo o qual os países desenvolvidos foram os principais causadores do aquecimento global verificado hoje, portanto cabe a eles pagar a maior parte da conta. Você já sabe, mas não custa repetir: as grandes vítimas do clima são as populações mais pobres dos países mais pobres. Só que o consenso acaba aí. A repartição do ônus, especialmente após a ascensão econômica da China (metade do CO2 na atmosfera hoje foi emitido após 1990), fraturou as negociações por 21 anos, foi momentaneamente varrida para debaixo do tapete em Paris, mas desde então voltou com tudo. Em Glasgow ela ganha novos contornos.

Para começar, há a questão da vacina. Países como o Reino Unido e os EUA têm grande parte de sua população adulta imunizada e estocam vacina, enquanto a África havia aplicado até maio menos de 25 milhões de doses para 1 bilhão de pessoas. Segundo a Oxfam do Quênia, no ritmo verificado até maio o continente africano levaria 57 anos para vacinar toda a população. Como o Norte global quer resolver a imensa crise climática se não é capaz de equacionar nem mesmo a emergência sanitária? Essa pergunta será feita muitas vezes em Glasgow, e a resposta britânica até agora foi insatisfatória: o país mandou meia-dúzia de vacinas carimbadas para os delegados credenciados para a COP, criando uma espécie de minicasta de furadores de fila nos países pobres, de forma a garantir a participação de representantes dessas nações no convescote escocês.

Depois, há o eterno estraga-prazeres da negociação climática, o dinheiro. Países ricos se comprometeram em 2010 a prover US$ 100 bilhões por ano para financiar a transição energética nos países pobres a partir de 2020. Não só não compareceram como vêm tentando fazer toda sorte de mandracaria contábil para disfarçar o fracasso, com considerar empréstimos e dinheiro privado como “financiamento climático”. Países emergentes como Brasil e China se aproveitam da confusão para dizer que também são “pobres” e, portanto, também querem mamar. Sem grana na mesa, os países em desenvolvimento estarão menos que dispostos a jogar o jogo do aumento de ambição das metas de corte de emissões defendido principalmente pela Europa e agora também pelos EUA.

A ironia de Glasgow é que, após passarem 26 anos melando o progresso do combate à mudança climática, os americanos subitamente querem pressa no rolê. Precisam finalizar as regras de implementação do Acordo de Paris e precisam ver o mundo caminhando para zerar emissões porque são eles que detêm a maior capacidade de inovação tecnológica para fabricar as energias que substituirão o petróleo. Como já escrevi alhures, o mar está subindo e os Estados Unidos querem vender as boias. Ao mesmo tempo, americanos e britânicos precisam dar uma sobrevida digna às suas empresas petroleiras, criando um grande mercado de direitos de poluição que permita a essas indústrias pagar (barato e a algum país em desenvolvimento) para continuar emitindo. Eu já estive errado antes, mas duvideodó que os emergentes engulam essa história sem levar pelo menos um cheque gordo para casa.

Enquanto isso, no mundo real, a Agência Internacional de Energia avisa que, se alguém estiver levando a sério a meta de Paris de estabilizar o aquecimento da Terra em 1,5oC neste século, todas as novas concessões de exploração de petróleo e carvão mineral precisam cessar neste ano. E o IPCC, o painel de cientistas climáticos da ONU, lançará neste mês um relatório assustador, mas nada surpreendente, mostrando que a Terra já está comprometida com extremos climáticos catastróficos mesmo que as emissões sejam zeradas hoje, e que adiar o esforço global de acabar com os combustíveis fósseis é um planetocídio doloso. Haja uísque escocês para encarar essa conferência de novembro.

Claudio Angelo nasceu em Salvador, em 1975. Foi editor de ciência do jornal Folha de S.Paulo de 2004 a 2010 e colaborou em publicações como NatureScientific American e Época. Foi bolsista Knight de jornalismo científico no MIT, nos Estados Unidos. Lançou, em 2016, pela Companhia das Letras o livro A espiral da morte, sobre os efeitos do aquecimento global, ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática.

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