Entre a face e a máscara: como separar criador e criatura?

Ana Maria Bahiana

Certa vez, entrevistando Steven Spielberg, perguntei se ele conseguia separar o criador ou criadora de sua obra. A pergunta era motivada por Hergé, cartunista belga criador dos personagens e quadrinhos de Tintin e companhia, e uma duradoura paixão de infância de Spielberg – tão duradoura que levou à realização do seu filme As Aventuras de Tintin, em 2011.

Criativo, mestre do traço e da narrativa, Hergé, nom de plume de Georges Prosper Remi (1907-1983), também era um simpatizante da extrema-direita que repetidas vezes incluía representações racistas de personagens não-brancos em suas histórias, e foi preso como colaborador nazista pelo governo belga depois do final da Segunda Guerra Mundial.

“É difícil”, Spielberg me respondeu. “Mas é essencial separar a pessoa da obra. No caso de Hergé, creio que ele teve uma longa jornada pessoal em que reviu muita coisa e mudou de postura. Mas o garoto que fui e sou não sabia nada disso quando se apaixonou por Tintin. Não fiz o filme em tributo a tudo de negativo que Hergé possa ter em sua vida, mas em reconhecimento de sua obra.” Spielberg fez uma longa pausa e acrescentou. “Olha, se eu não conseguisse fazer esse esforço eu jamais ouviria Wagner de novo.”

A questão voltou na minha cabeça com força esta semana. A devassa provocada pelas matérias do The New York Times e da The New Yorker sobre o segredo menos secreto de Hollywood: a predileção do ex-poderoso produtor Harvey Weinstein pela agressão sexual, assédio e estupro. No vórtex dessa devassa, o outro segredo menos secreto da indústria está sendo desvendado: agressão sexual, assédio e estupro são parte da cultura da indústria do entretenimento desde suas origens, e exige uma mudança profunda, que de fato torne esse tipo de comportamento inaceitável e intolerável e – mais importante – abra mais oportunidades para mulheres em posições de decisão e poder.

O conta-gotas das revelações vai, inevitavelmente, atingir realizadores e talentos cujo trabalho admiro. Há décadas ouço esses rumores e, mais que isso, mais de uma vez me vi em situações semelhantes. Serei capaz de separar uma coisa da outra? Serei capaz de não ver – ou, vendo, relevar – na obra dessas pessoas as reverberações de suas sombras?

Por coincidência (ou não), acabei de ler um livro excelente que, entre muitas outras coisas, é exatamente sobre esse tema. The Night Ocean, de Paul La Farge, é, sobretudo, um livro sobre escritores e sobre o poder da narrativa: é uma espécie de matriochka russa (ou um conto das Mil e uma noites...) em que uma história se aninha dentro de outra história dentro de outra história. A principal voz narrativa é de uma psicanalista de Nova York, ao mesmo tempo abalada e intrigada pelo que pode ter sido (ou não) o suicídio de seu marido, após um colapso nervoso.

O marido, pesquisador e autor, era obcecado com um escritor – H. P. Lovecraft – e, particularmente, com um episódio bizarro do que, curiosamente, foi a vida pacata de um dos maiores autores de sci-fi de terror e bizarrice: o relacionamento de Lovecraft com o antropólogo, linguista e escritor Robert Barlow, quando ele ainda era um menino de 13 anos.

Não vou dizer mais nada porque La Farge tece uma trama perfeitamente entrelaçada, onde fatos são infinitamente menos importantes do que a narrativa do que pode ou não ter acontecido. E central nas múltiplas histórias que circulam em torno do incidente que deflagra a trama, está exatamente essa questão: é possível amar as obras de Lovecraft sabendo que ele era racista, antissemita e – a gota que faltava – provavelmente um pedófilo? (William Burroughs e Isaac Asimov também fazem parte da trama, e Burroughs não se sai bem muito bem da peleja...)

A questão de separar autor/a e obra é um traço essencial da história – ao longo de mais das sete décadas que a narrativa cobre, amar ou odiar autores depende, em vários momentos, de quem eles são e o que fazem no mundo de carne e osso, e não naquilo que colocam em seus textos. Em um momento crucial – o auge do Macartismo, nos anos 1950 – a tensão entre autor e obra gera um novo monstro: deveria toda a ficção científica e literatura fantástica ser condenada e banida por conta de quem seus autores são?

The Night Ocean é bárbaro, mas não há respostas fáceis. Nunca suportei o machismo de Hemingway, mas sempre fui leitora assídua e apaixonada de suas obras – o que me levou a descobrir a outra metade dessa história, que é Martha Gellhorn, outro ícone da minha vida de peregrina das letras.

Existe a máscara e existe a face, e existem os pequenos mundos que criamos para justificar o tempo que passamos entre o berço e o túmulo. É possível desfazer o nó que costura vida e arte?

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do Brasil e Folha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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