Erico, Walt e Luis Fernando

Por Samir Machado de Machado

Numa tarde de 1936, Erico Verissimo e o editor da Livraria do Globo, Henrique Bertaso, discutiram a ideia de uma coleção de livros infantis. O momento era oportuno: ambos tinham filhos pequenos, e para fazer face às despesas crescentes, Erico apresentava, na rádio Farroupilha de Porto Alegre, um programa dedicado a contar histórias para crianças. Dessa fusão entre experiência e vontade, surgiram as sete histórias infantis que publicaria nos anos seguintes: As Aventuras do Avião Vermelho, Rosa Maria no Castelo Encantado, Os Três Porquinhos Pobres e Meu ABC (todos de 1936), O urso-com-música-na-barriga (em 1938) e A vida do Elefante Basílio e Outra vez os Três Porquinhos (em 1939).

À parte as referências pessoais de Erico — o arteiro Fernando de Avião Vermelho foi inspirado no filho homônimo de Bertaso, o Urso-com-música-na-barriga era a história criada para um dos brinquedos favoritos de seus filhos, e assim por diante —, o que sempre me fascinava quando as lia quando criança era o seu ritmo. Ágeis e permeadas de um senso de aventura quase cinematográfico, cada história costurava uma sucessão de eventos imaginativos e surreais, que em muito se assemelhavam ao ritmo de uma maratona de curta-metragens animados.

Nesse contexto, é bom lembrar a época em foram escritas: em 1936, ainda não existiam animações de longa metragem (a Branca de Neve de Disney só viria no ano seguinte). Mas enquanto o cinema de animação em geral era sinônimo de excelência artística da modernidade, cabia a Walt Disney em particular o papel de gênio em sua arte. E, conforme recorda a pesquisadora Paula Ramos em seu livro A Modernidade Impressa (UFRGS, 2016), o impacto dos curtas animados de Walt sobre Erico não era pouco. Num editorial da Revista do Globo de 1934, Erico já dizia que “Walt Disney merece um lugarzinho entre os grandes homens do nosso tempo (...) conseguiu realizar o grande sonho das crianças e dos poetas: fazer as gravuras coloridas dos livros de história de fadas ganhem movimento e comecem a viver suas aventuras sem precisar mais das palavras do texto, (...) para mim, particularmente, programa com Mickey Mouse é programa que declaro bom sem olhar para o que vem depois...”.

Não é coincidência que, em Os Três Porquinhos Pobres de Erico, os leitões Sabugo, Salsicha e Linguicinha decidam partir em aventuras justamente após entrarem escondidos no cinema, e assistirem — justamente — a Os Três Porquinhos de Disney, um desenho cujo impacto cultural em sua época só seria comparável hoje ao dos blockbusters hollywoodianos.

A relação de Erico com a obra de Disney continuaria, de modo mais direto, alguns anos depois. Em 1941, EUA e Alemanha tentavam cada qual nos convencer a apoiar seu lado da guerra, e como parte da “política de boa-vizinhança” americana, Erico viajou aos EUA. Conheceu não só os estúdios Disney como o próprio Walt: os dois almoçaram na cantina do estúdio logo após Erico assistir, em primeira mão, a Fantasia, que seria considerada a obra-prima de Walt. Conforme o próprio Erico recorda em seu Gato preto em campo de neve, Disney perguntou-lhe se gostara do filme. Erico respondeu que gostara muito, tendo restrições apenas ao tom cômico escolhido para a Pastoral de Beethoven. E de todos os segmentos do filme, o favorito de ambos calhava de ser o mesmo: A Noite do Monte Calvo, que encerra o filme. Mas há um detalhe curioso, que parece escapar a Erico no momento: dois anos antes, lançara Viagem à Aurora do Mundo, romance didático juvenil sobre um escritor que, de férias, hospedava-se na casa de um grupo de estudiosos. Ali testemunhava seu invento, uma moderna tela de cristal capaz de sintonizar imagens pré-históricas, onde assistem a desfiles de dinossauros enquanto tocava-se músicas clássicas na casa. Teria ocorrido a Erico, dois anos depois, nos estúdios Disney, que agora ele tornara-se seu personagem, hóspede na casa de gênios criativos, assistindo aos dinossauros de Fantasia sendo projetados numa tela, ao som de música clássica?

Somando Erico a Walt, e multiplicando por Luis Fernando, exatos oitenta anos separam as primeiras histórias infantis de cada geração de Verissimos. Ao terminar de ler As gêmeas de Moscou, fui tomado por três sentimentos: surpresa, indignação e deleite. Surpresa porque eu poderia jurar — fundindo na minha memória as obras dos dois Verissimos — que não era possível que esta fosse a primeira incursão de Verissimo no universo infantil. Indignação porque não tenho mais meus oito ou dez anos, aquela época em que, como colocou Borges, o tempo dos meninos passa mais devagar que os dos homens, e teria feito as 32 páginas do livro se prolongarem infinitamente na leitura. E deleite porque, para um leitor que formou suas leituras de infância com as histórias do Verissimo pai, e a adolescência com a leitura das crônicas do Verissimo filho, é inevitável buscar, de algum modo, uma continuidade entre a obra infantil dos dois.

Olga e Tatiana são gêmeas idênticas e ambas bailarinas, embora completamente diferentes: Olga se destaca mais, mas é arrogante e maltrata sua irmã. Quando sua meia-calça cai no meio de uma apresentação, Olga foge da cidade humilhada, acreditando que tudo fora tramado por Tatiana. As gêmeas de Moscou tem não só a sensibilidade imaginativa dos contos de fadas tradicionais (a ambientação russa, a temática do balé que remete indiretamente ao Quebra-Nozes, a relação entre duas irmãs idênticas porém diferentes), como alia uma “moral da história” muito pertinente aos tempos atuais de “pós-verdades”: cuidado com o auto-engano, não assuma como verdadeiro aquilo que é só uma suposição apenas por ir ao encontro de ideias pré-concebidas. E assim como nos livros de Erico, o de Luis Fernando compartilha do mesmo senso de aventura: ao fugir de Moscou, Olga embarca num trem, viaja para outros países, vai viver entre ciganos até enfim decidir retornar para sua cidade disfarçada — e descobrir, numa lição de humildade, não só seu auto-engano, como o sacrifício que Tatiana fizera em sua ausência, para poupar a reputação da irmã.

No conjunto, se a obra infantil do Verissimo pai dialogava com os curtas animados de Disney de sua época, é impossível não ler As gêmeas de Moscou sem imaginar os longas-metragens animados modernos, como Frozen, com seu arco de auto-aprendizado da protagonista, no ritmo bem construído, somando-se à sensibilidade estética e a um tom de “jornada do herói” quase épico, que lembra os mais clássicos Cinderela ou A Pequena Sereia. Tudo isso somado ao colorido visual rico e estonteante, mérito das ilustrações de Rogério Coelho que surgem entre as páginas com uma grandiosidade imponente, num efeito de alegria vivaz, quase como números musicais.

Como Oliver Twist, a vontade é de chegar frente ao autor e dizer: por favor, senhor, quero mais. Ora, se o pai nos legou sete deliciosos livros infantis, é justo que se cobre do filho pelo menos mais uns seis. A criança em mim está pedindo. E parafraseando Erico, “mais tarde ou mais cedo, o adulto acaba satisfazendo os caprichos de menino”.

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Samir Machado de Machado nasceu em Porto Alegre (RS), em 1981. É escritor, roteirista e designer gráfico. Publicou o romance Quatro Soldados (Não Editora) em 2013. Seu último livro, Homens Elegantes (Rocco), foi lançado em 2016.

 

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