Escreva Em Casa: Poesia com Marília Garcia

 

A Escreva Em Casa é uma série com oficinas online ministradas por escritores do catálogo da Companhia das Letras. Inicialmente, faremos quatro vídeos temáticos com diferentes gêneros: poesia, conto, cordel e romance. Estreando a série, Marília Garcia fala sobre as vozes do poema e propõe a escrita de um poema que descentralize o “eu”. Assista ao vídeo completo aqui. Durante a oficina, a poeta lê alguns poemas e os trechos lidos podem ser consultados abaixo:

***

A mulher de Lot

Wislawa Szymborska 

Poema presente no livro Poemas, com tradução de Regina Przybycien:

 

Dizem que olhei para trás curiosa.

Mas quem sabe eu também tinha outras razões.

Olhei para trás de pena pela tigela de prata.

Por distração – amarrando a tira da sandália.

Para não olhar mais para a nuca virtuosa

do meu marido Lot.

Pela súbita certeza de que se eu morresse

ele nem diminuiria o passo.

Pela desobediência dos mansos.

Alerta à perseguição.

Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.

Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.

Senti em mim a velhice. O afastamento.

A futilidade da errância. Sonolência.

Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.

Olhei para trás por receio de onde pisar.

No meu caminho surgiram serpentes,

aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.

Já não eram bons nem maus –simplesmente tudo o que vivia

serpenteava ou pulava em pânico consorte.

Olhei para trás de solidão.

De vergonha de fugir às escondidas.

De vontade de gritar, de voltar.

Ou foi só quando um vento me bateu,

despenteou o meu cabelo e levantou meu vestido.

Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma

e caíam na risada, uma vez, outra vez.

Olhei para trás de raiva.

Para me saciar de sua enorme ruína.

Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.

Olhei para trás sem querer.Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.

Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.

Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.

E foi então que ambos olhamos para trás.

Não, não. Eu continuava correndo,

me arrastava e levantava,

enquanto a escuridão não caiu do céu

e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.

Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.

Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.

É concebível que meus olhos estivessem abertos.

É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.

 

***

Um boi vê os homens

Carlos Drummond de Andrade

Poema presente no livro Claro enigma

 

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm

e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos

de alguma coisa. Certamente falta-lhes

não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres

e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,

até sinistros. Coitados, dir-se-ia que não escutam

nem o canto do ar nem os segredos do feno,

como também parecem não enxergar o que é visível

e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes

e no rasto da tristeza chegam à crueldade.

Toda a expressão deles mora nos olhos – e perde-se

a um simples baixar de cílios, a uma sombra.

Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,

e como neles há pouca montanha,

e que secura e que reentrâncias e que

impossibilidade de se organizarem em formas calmas,

permanentes e necessárias.

Têm, talvez, certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem

perdoar a agitação incômoda e o translúcido

vazio interior que os torna tão pobres e carecidos

de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme

(que sabemos nós), sons que se despedaçam e tombam no campo

como pedras aflitas e queimam a erva e a água,

e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

 

***

Uma baleia vê os homens

Antonio Tabucchi

Trecho retirado do livro A mulher de Porto Pim.

 

Sempre tão afobados e com longos membros que agitam com frequência. E são tão pouco redondos, sem a majestade das formas plenas e acabadas, e com uma pequena cabeça móvel na qual parece se concentrar toda a sua estranha vida. Chegam deslizando sobre o mar mas não a nado, quase fossem pássaros e dão a morte com fragilidade e amável ferócia. Ficam muito tempo em silêncio, mas depois, com fúria repentina, gritam entre eles, num emaranhado de sons que quase não varia e ao qual falta a perfeição dos nossos sons essenciais: chamamento, amor, pranto de luto. E como deve ser penosa a sua forma de amar: e rude, quase brusca, imediata, sem uma fofa manta de gordura, favorecida pela natureza filiforme deles que não pressupõe a heroica dificuldade da união, nem os magníficos e ternos esforços para consegui-la.

Não gostam da água, receiam-na, e não se entende por que a frequentam. Eles também andam em bandos, mas não levam fêmeas, e se imagina que elas fiquem em outro lugar, mas sempre visíveis. Às vezes cantam, mas só para si, e o canto deles não é um chamamento mas uma forma de lamento comovente. Cansam-se depressa e quando a noite cai deitam-se sobre as pequenas ilhas que os conduzem e talvez durmam ou olhem a lua. Deslizam em silêncio e percebe-se que estão tristes.

 

***

Quadrilha

Carlos Drummond de Andrade

Poema presente no livro Alguma poesia.

 

"João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes

que não tinha entrado na história."

 

***

Os três mal amados

trecho de João Cabral de Melo Neto 

 

Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

 
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