Espaço, lugar e tempo

Por Visca

Andar faz parte da minha rotina. Um exemplo: 5h30 da manhã toca o despertador. Minha filha adolescente, que entrou no 8o ano, me chama já pronta. Pai? Vamos? Respondo: Sim. O susto do horário já não permite aquele “Bom dia” gostoso. Me troco rápido, lavo o rosto, escovo os dentes e pergunto: Comeu alguma coisa? Bebo um copo de água, confiro a carteira, as chaves, pergunto: Vamos? Saímos. Cedo, a hora passa muito rápido. 6h05 já no ponto. Ela pega o celular, pluga o fone com aquele ar de desprezo com o dia que começa e o coloca no ouvido. 6h10 o coletivo chega. Subimos. É verão e está escuro. As ruas estão vazias, pessoas com sono sobem aos poucos, mas não dá tempo de ficar totalmente lotado. Já temos que descer. Tchau, se cuida. Volto só e aflito, sempre pensando em como ocupar melhor esses frágeis espaços de tempo, sempre falta algo pra dizer a ela.

Quando comecei a ler o Aquela água toda para fazer este trabalho, fui logo fisgado por certa angústia sobre a frágil relação que temos com nossos espaços, tempos, lugares, relações pessoais e situações ao longo da vida. Essa sensação acabou sendo um dos pontos de partida no projeto.

Para mim, fazia sentido que, para encontrar o caminho de construção dessas imagens, eu tivesse que chegar o mais próximo possível dos espaços onde estariam exemplos semelhantes de tempos e situações perdidas; as experiências marcantes que estavam presentes nos contos de João Anzanello Carrascoza. Vi que o trabalho não estava no meu estúdio, nos meus guardados, referências, cadernos de desenho, tão pouco na internet. Tive que ir buscá-lo lá fora.

Andar a pé por conta de minha logística pessoal ajudou nisso, então diariamente desconstruí meu ir e vir, criando pequenos e diferentes percursos em busca desses lugares de tempo, “lugares fluxo”. Andando pela cidade, usei a fotografia como pesquisa. Já no estúdio, a repetição desse observar: organizando e editando esses registros. Uma nova repetição surge enquanto desenho fragmentos dessas cenas e incorporo outros elementos de lembranças pessoais e dos contos. Depois, veio a pintura e a aquarela — seu descontrole associando semelhanças entre as imagens e construindo, assim, esta série de ilustrações.

Só tenho a agradecer a Carrascoza e sua poética com Aquela água toda, que me proporcionou de forma muito sensível a oportunidade de olhar melhor para o tempo presente. Sem essas histórias, eu certamente não teria encontrado essas imagens. Agradeço também ao Alceu Nunes e à editora pelo convite para o trabalho.

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Equilibrado e repleto de realismo e sensibilidade, Aquela água toda é um dos principais exemplos da força emotiva da prosa de João Anzanello Carrascoza. No conto que dá nome a esta coletânea, um simples domingo de verão na praia se transforma, pelas mãos do autor, em um exemplo singelo de beleza. Já em “Passeio”, a expectativa por um fim de semana diferente leva toda a família a um estado de excitação e suspense. O primeiro beijo, descrito no conto “Cristina”, vem carregado de todo desejo inocente da primeira juventude. Mas também existem lembranças dolorosas, como a cobrança do aluguel atrasado no conto “Paz”, que incita um jovem garoto a se preocupar com a mãe. Conjunto expressivo da obra de um dos principais contistas contemporâneos, Aquela água toda é magistral. Nesta nova edição, o artista plástico e ilustrador Visca compõe algumas imagens que expressam toda a potência e delicadeza das palavras de um dos autores mais sensíveis do país.

Já nas livrarias.

 

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Visca é ilustrador e artista pláscito. Ilustrou o novo livro de João Anzanello Carrascoza, Aquela água toda, que acaba de ser lançado pelo selo Alfaguara.

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