Esse vai e vem

Noemi Jaffe

Acordo para a fragmentação do mundo e, por isso, o sonho uno e informe se fragmenta. Recebo restos de imagens e tento reuni-las no continuum de que elas faziam parte, mas não consigo. Desisto e o celular, príncipe da fragmentação, me ganha. Dele, parto com tudo para a vida aos pedaços, que é meu dia-a-dia. Tico as tarefas na agenda, me desdobro em muitas para desempenhar atividades de todas as naturezas – domésticas, profissionais, familiares, públicas – e minha relação com as coisas é toda mediada, o dia inteiro. Sempre o celular e o computador, as notícias, os telefonemas, o zoom, as reuniões, as mensagens, todas pontes que, se me unem às coisas, primeiramente me separam delas ao estabelecerem-se como canais. Uso a linguagem em estado funcional, pois ela deve servir para realizar melhor as tarefas que me cabem.

De vez em quando, no dia, voltam imagens do sonho. Estou comendo uma fatia de mamão e o laranja da fruta me remete fugitivamente à cor de uma parede que, por sua vez, me lança num quarto cheio de ondulações, aparece uma voz chamando “vem, vem” e de repente me sinto calmamente triste. Mas acaba. Quando me dou conta das imagens e busco ir adiante, elas escapam, voltam para o não-lugar de onde vieram.

Me dedico ao mamão, tendo perdido mais alguma coisa no dia.

Noto, no parágrafo anterior, a presença das palavras “de vez em quando”, “voltam”, “me remete”, “fugitivamente”, “lança”, “aparece” e “de repente”. São termos todos pertencentes ao domínio do incontrolável, daquilo que involuntariamente vem. Guimarães Rosa e Clarice Lispector, para citar somente dois autores, são flechados constantemente por variações de “sem querer”, “despropositadamente”, “de súbito”, “sem explicação”, “do nada”. Seus personagens agem muito por efeito do inexplicável e suas principais descobertas acontecem sem advertência. É o lugar de uma integralidade imediata, que alguns, para Clarice, chamam de epifania e para Guimarães de metafísica ou de imanência transcendente.

O certo é que as palavras aproximam, mas também distanciam. Como faço para resgatar meu sonho? Não faço. Aguardo. Ou ainda, nem aguardar eu aguardo. É importante que haja uma “disposição” para ser capturado pela surpresa.

Gosto muito dessa palavra: disposição. Ela implica uma atitude corporal de abertura, de posicionamento físico, além da inclinação mental e emocional. Dispor-se a. A quê? Não se sabe bem.

Todo escritor procura a palavra certa, aquela que reduzirá a distância entre como se diz e o que se diz. Todo escritor quer que a palavra seja menos ponte e mais imitação da coisa; o escritor quer que as coisas falem e não falar sobre elas.

Fecho os olhos, sem dormir. Vejo pontinhos de luz, manchas, formas que não sei de onde vêm. Do meu cérebro, de reflexos de luz, de coisas que vi durante o dia e que marcaram minhas pupilas? Deito-me nelas e me deixo balançar, pra lá e pra cá. Durmo. Eis que, no sonho, penetram o dia e seus afazeres celulares.

Recomeço, dentro dele, a faina desse vai e vem.

 

***

Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Escreveu Não está mais aqui quem falouÍrisz: as orquídeas e O que os cegos estão sonhando?, entre outros. Dá aulas de escrita em seu espaço, a Escrevedeira.

 

Neste post