Experiência do poema

Marília Garcia

 

Logo no início do romance Estação Atocha, de Ben Lerner, o protagonista diz que só gosta de ler poesia quando encontra versos e fragmentos de poemas citados no meio de ensaios com aquelas barras substituindo as quebras de linha. Ele explica que, ao ler os versos fora de contexto, tinha uma experiência poética diferente: em vez de apreender o poema todo de uma vez, os versos isolados seriam uma espécie de “sugestão” do que poderia ser o poema.

Tal relação no mínimo curiosa do personagem de Lerner com a poesia aparece em outros momentos de sua obra como no ensaio (hilário e delicioso) “Ódio pela poesia”, espécie de defesa da poesia que abarca as muitas contradições em torno do discurso poético e também em torno da escrita (o ensaio foi publicado na revista Serrote 25, com tradução de Leonardo Froés); neste ensaio entendemos um pouco mais a ideia acerca da “promessa” do poema (vislumbrada nos versos fora de contexto) ou de um ideal utópico da poesia (que, segundo o autor, parece nunca se cumprir).

Muitas vezes, quando penso em um poema, lembro dele da forma descrita por Lerner: versos destacados do resto, que permanecem na memória em meio a um fluxo “em prosa” do pensamento. Letras e palavras ritmadas, apenas um flash, uma imagem. Se quero citar um poema, só me ocorrem alguns fragmentos, um ou dois versos, um eco de linguagem que parece pausar o tempo, que detém o pensamento e faz uma quebra para que eu possa respirar.

Outro dia, em busca de um livro, deparei por acaso com outro que não relia há décadas, Retrato do amor quando jovem, reunião de textos e poemas que constituem um pequeno panorama do “amor jovem” – com Dante, Shakespeare, Sheridan e Goethe, organização e tradução de Décio Pignatari. Lembro que ganhei este livro de presente de aniversário de 15 anos da minha madrasta, Ana Cecília, e, junto, ela escreveu um cartão no qual destacava dois versos de Romeu e Julieta: “Good night, good night! Parting is such a sweet sorrow / that I shall say good night till it be morrow”. (2º ato, cena 2)

Fui aos versos e à cena que ela havia destacado no cartão para ler a fala de Julieta ao se despedir de Romeu:

“Boa noite. A despedida é uma dor tão doce,

Que eu falo de manhã como se fosse noite”

                        (tradução de Décio Pignatari)

 

Esses versos nunca mais saíram da minha cabeça e, ao longo dos anos, fui buscando o dístico em todas as traduções que encontrava — de Barbara Heliodora: “Foi tão doce este boa-noite agora, / Que eu direi boa-noite até a aurora”; José Francisco Botelho:  “Adeus! Doce tristeza é ir embora: / Direi adeus até raiar a aurora.”; Carlos Alberto Nunes: “Adeus; calca-me a dor com tanto afã, / que boa-noite eu diria até amanhã.”

Como na descrição de Lerner sobre a leitura de poesia, os versos com a fala de Julieta se destacam em minha memória do resto do texto, são a promessa do encontro, do amor e do desfecho trágico. São a promessa do poema. E é curioso que a própria peça (com vários momentos em prosa) seja atravessada por muitos sonetos e versos – sobretudo nas falas dos jovens enamorados, mas não só: em vários momentos os personagens falam em versos, com um ritmo que interrompe o fluxo e transforma o andamento da peça. Versos que surgem no meio da prosa e parecem ser o eco de alguma outra coisa. Nas palavras de Northrop Frye, ao comentar a estrutura de Romeu e Julieta, versos e dísticos aparecem na peça de repente para indicar que alguma coisa está fora do lugar, para sugerir algo que não está ali. E quando eles irrompem no meio da leitura, somos levados a pausar o tempo e, por um instante, viver a experiência do poema.

 

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Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).

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