Faço e não faço parte

Noemi Jaffe

 

Desde que começou essa pandemia, quarentena, covid 19, corona, situação, crise, catástrofe - nunca sei que nome dar às coisas. Faço e não faço parte de uma comunidade gigantesca, que me aproxima de um vendedor de amendoins chinês e de uma limpadora de vidros neozelandeza, com quem, provavelmente, nunca iria dividir nada em minha vida. Eles e eu adotamos os mesmos hábitos antes de sair de casa, tememos as mesmas coisas (não exatamente), pensamos algumas vezes antes de abraçarmos nossos filhos. Faço e não faço parte também de comunidades menores do que essas, como a dos brasileiros, dos paulistanos, dos moradores da zona oeste, do meu bairro. Em todas elas participo do grupo das pessoas afetadas pelo vírus e em todas elas não faço parte das pessoas que estão sob maior risco de contraírem a doença e de morrerem por causa dela.

Fico em casa com prazer e demora, lendo, trabalhando ainda mais do que antes, próxima do meu companheiro. Poderia ficar nesse estado por muito tempo. A doença, as pessoas que fazem parte dos outros grupos, a presidência, o desemprego aumentando, a fome, entretanto, não me permitem aproveitar ou fruir desse prazer. Sinto dever, culpa, medo e raiva. Não sei como ajudar, me mobilizo mas é sempre insuficiente, me divido entre observar, resistir, divulgar e agir - muito pouco. Do que faço parte?

Faço parte de um grupo que se caracteriza especialmente por fazer perguntas como essa que acabo de fazer: do que faço parte, o que posso fazer, por que isso está acontecendo. São pessoas privilegiadas, intelectualmente esclarecidas, mas impotentes e imobilizadas, tanto por efeitos da quarentena como por toda a situação política em que nos encontramos. Seremos os tais meio intelectuais, meio de esquerda, notabilizados por Antonio Prata; seremos a esquerda caviar ou seremos mais do que isso, uma comunidade cujas perguntas podem ressoar além das boas consciências e das intimidades de nossas casas repletas de delivery e de álcool gel?

O radical prest, do latim praesto, significa "à mão, em presença de, à disposição" e pode ser encontrado em diversas palavras do português como "prestar, emprestar, prestação, préstimo, presteza e prestidigitação", entre outras. Isso porque "prestar" significa estar à disposição, pôr-se em presença de, colocar-se à mão, todas expressões que implicam contato corporal, ou seja, colocar o corpo ao dispor daquele a quem nos propomos ajudar.

Numa das hipóteses etimológicas para a origem de "serviço" está a palavra "shepherd", ou pastor, em inglês. "Shepherd" é aquele que observa as ovelhas, o que, com o tempo e pejorativamente, passou a adquirir o sentido de "aquele que se põe a serviço" delas, que se torna seu "servo", seu escravo. Mas é, no mínimo, curioso, que "serviço" e "observar" tenham a mesma raiz.

Dessas etimologias é possível concluir, poética e historicamente, que "prestar serviço" pode ser algo como "colocar o corpo à disposição de algo ou alguém a quem observamos e pretendemos servir".

Penso que, para nós, perguntadores luxuosos da quarentena, cabe, nesse momento, prestar serviços. As possibilidades são inúmeras: aulas online, ajuda financeira, distribuição de cestas básicas, marmitas (vide o projeto Panela Coletiva), lives de esclarecimento, apoios de todos os tipos, desde financeiro até o artístico ou a conversa. É preciso estar continuamente em estado de observação e disposição corporal, o corpo em estado de alerta. Nossas perguntas precisam sempre comportar "como vou ajudar"? Como vou prestar e emprestar meu corpo, meus saberes e meu dinheiro para diminuir o sofrimento de alguém?

Aqui, apenas alguns endereços de sites que aceitam doações: Unidos contra a COVID-19, eSolidar (G10 das favelas), Fundo de emergência para Sem-Tetos afetados pelo coronavírus, Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, #VemPraGuerra (equipamentos para a Faculdade de Medicina da USP) e (11) 32286223 (Casa de Oração do Padre Julio Lancelotti). Você pode, facilmente, encontrar muitos outros endereços em sua cidade.

Isso tudo só serve para atenuar um pouco mais as culpas de tantas naturezas e para liberar espaço mental para prosseguir com os privilégios? Sinceramente, não sei. Depende da frequência, do engajamento e das motivações e emprenho de cada um. Mas se servir somente para isso, é uma pena, mas teve algum efeito ativo, que, nesse momento de indefinição e urgência, importa mais do que nossos exames de consciência.

 

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Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Escreveu Não está mais aqui quem falouÍrisz: as orquídeas e O que os cegos estão sonhando?, entre outros. Dá aulas de escrita em seu espaço, a Escrevedeira.

 

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