Flip 2023 | Leia um trecho de “Rilke shake”, de Angélica Freitas

Entre 22 e 26 de novembro, a literatura volta a ocupar as ruas de Paraty em mais uma edição da Festa Literária Internacional da cidade fluminense, e a Companhia das Letras é presença confirmada nesta celebração. Leia um trecho de “Rilke shake”, de Angélica Freitas, autora convidada da Flip 2023.

***


dentadura perfeita, ouve-me bem: 

não chegarás a lugar algum. 

são tomates e cebolas que nos sustentam, 

e ervilhas e cenouras, dentadura perfeita. 

ah, sim, shakespeare é muito bom, 

mas e beterrabas, chicória e agrião? 

e arroz, couve e feijão? 

dentinhos lindos, o boi que comes 

ontem pastava no campo. e te queixaste 

que a carne estava dura demais. 

dura demais é a vida, dentadura perfeita. 

mas come, come tudo que puderes, 

e esquece este papo, 

e me enfia os talheres. 

 

*

 

entro na livraria do bobo. 

não tenho dinheiro 

e tampouco tenho talento para o crime. 

 

desfilam ante meus olhos 

títulos maravilhosos 

moribundos de tanto estar 

nas prateleiras. 

 

roube-nos, dizem eles. 

não aguentamos mais ficar aqui 

na livraria do bobo. 

 

quem acreditaria 

nesta versão dos fatos? 

ajudem-me, maragatos 

nesta hora afanérrima 

de uma libertadora paupérrima 

de livros. 

 

retumba meu coração. retumba 

mais que a bateria do salgueiro. 

treme o corpo por inteiro 

e as mãos já suam em bicas. 

 

ganho a rua, as mãos vazias 

e os livros gritam: maricas. 

 

 

autofocus 

 

o remordimento é algo 

muito difícil 

você me disse

mordendo 

o próprio rabo 

 

eu te compreendi 

enquanto você dava voltas 

e baixei o volume do rádio 

 

era um scherzo 

um sei lá 

um allegro andante 

não era boa 

trilha sonora 

 

enquanto me ocupava 

dessas tralhas 

você já tinha se engolido 

pela metade 

 

o remordi é al 

mui di 

 

eu chamei a ambulância 

fliperama às margens do tâmisa 

jogo basquete indoors com minhas irmãs 

 

no primeiro arremesso 

— não meço bem a distância 

entre a mão e a cesta — 

a bola some atrás do aparelho 

 

minhas irmãs gargalham 

eu também 

 

a bola sumiu atrás do aparelho 

 

e então é a vez delas 

e elas jogam e acertam e jogam de novo 

e da máquina sai uma tripa de bônus 

 

que depois trocamos por balas 

ou um brinquedinho — 

não lembro 

 

ai que bom seria ter um bigodinho 

além das lentes dos óculos ficar 

escondida por trás de uma taturana 

capilar 

 

um bigodinho para poder estar 

 

um bigodinho para sair à rua e ver 

o mundo mas se esconder 

 

um bigodinho para poder ser 

 

um apêndice nasobucal 

buconasal 

 

tipo um chapéu 

 

ninguém te incomoda nos cafés 

(a beleza está nos olhos 

de quem não pode crer) 

 

e no fim do dia ainda ouvir 

obrigada senhor 

ao entrar por último no elevador. 

 

*

 

february mon amour 

 

janeiro não disse a que veio 

mas fevereiro bateu na porta 

e prometeu altas coisas 

“como o carnaval”, ele disse. 

(fevereiro é baixinho, 

tem 1,60 m e usa costeletas 

faria melhor propaganda 

do festival de glastonbury.) 

pisquei ligeira nas almofadas: 

“nem tô, fevereiro 

abandonei o calendário”. 

“você é um saco”, ele disse 

e foi cheirar no banheiro. 

 

*

 

agosto a oitava coelhinha da playboy 

ou o templo dourado de kinkakuji 

ou um gato e um pato num cesto 

 

meu avô não gostava de agosto 

dizia agosto mês de desgosto 

quando passava dizia agora não morro mais

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