Formas de escrever com os olhos

Marcílio França Castro

Prova corrigida por Balzac de La femme supérieure (1837). Biblioteca Nacional da França, Paris.

 

Que a revisão é um procedimento de leitura parece algo natural. O próprio termo já alude à função dos olhos e ao movimento de retornar. Ler, ler de novo. Ainda que quem escreve seja também quem vai revisar, a cisão entre os olhares sempre cria um duplo, uma sombra se projeta sobre o texto. Refazer a perspectiva – esse é o princípio da revisão. Quando você pensa em um revisor, logo surge a imagem do leitor minucioso e implacável, às vezes secreto, com caneta ou mouse em punho, pronto para te salvar. Para isso, ele fará o que for necessário – com o sacrifício inevitável das palavras. Trata-se mesmo de um anjo, aquele que por um instante irá tomar o seu lugar, encenar a sua lógica e a sua imaginação, os seus fracassos. Um eu de aluguel, armado com olhar de forasteiro, para ver o que você não viu. Depois esse anjo bate asas e se afasta; você volta e assina o seu nome.

Entre os seres de sentido apurado, a águia se distingue pela visão de longo alcance e muito nítida. Das alturas, ela é capaz de identificar uma presa miúda no horizonte; o ataque costuma ser fatal. O lince, que habita matagais e florestas, tem talento parecido, mas sua caça se dá na linha do chão. É comum invocar essas figuras quando se quer elogiar a visão de alguém. Tal como a águia ou o lince, o revisor também tem seu olhar de caçador. Faz parte de seu repertório a leitura de sobrevoo, aquela em que ele rastreia, no terreno já explorado, uma palavra repetida ou a letra fora de lugar. Entre ver e ler, porém, há uma gramática inteira, e o revisor precisa adaptar constantemente as suas lentes: os ângulos, o foco, a direção. Coerência, articulação. Vocabulário e ortografia. Manchas, linhas, lacunas. Ainda que as camadas se confundam, cada uma solicita uma função distinta, um ajuste na máquina de enxergar. Uma leitura de reconhecimento, atenta à sintaxe e ao som, pede os olhos multifacetados de uma libélula. Uma leitura transversal requer a agilidade óptica dos coelhos. Para uma conferência final, que limpa os restos no escuro, a visão aguda de uma coruja. O catálogo completo dessas metáforas ainda está por ser feito.

O revisor persegue e golpeia o texto, mas sabe o que deve proteger. Aceita as regras do autor, presume as do leitor; oscila no intervalo entre os dois. Tenta decodificar o jogo, mas apenas para cifrá-lo melhor. Na ordem dos revisores, tal como na dos anjos, há serafins e potestades, querubins e anjos comuns, como descreve São Tomás de Aquino. Mas, ao contrário dos anjos (pelo menos os bíblicos), os revisores saltam de um coro a outro; sua hierarquia não é definitiva, nem inerte. De acordo com a incumbência, eles se transfiguram, mudam de esfera, de sexo e de humor – assumem vários papéis.

Um poema, por exemplo. Diante de versos obscuros, de um poeta obscuro, o revisor será fiel à criação. Sentenças suicidas requerem uma técnica suicida; um léxico pobre requer conhecimento da pobreza. Se as sílabas caem no abismo, que seja uma queda infalível. É preciso aperfeiçoar as armadilhas. Tal como um serafim, que, próximo da divindade, guarda o mistério da palavra, o revisor, se é guardião do poeta, deve amar o segredo e a maravilha. Suas asas fazem sombra sobre o autor. Cada texto, porém, pede um revisor diferente. Se a missão é ler um decreto, ou uma bula, ele corre para o lado do leitor. Como um anjo menor, o revisor precisa favorecer a compreensão humana; aqui sua função é reveladora. Quer antecipar o comportamento do leitor – por isso imagina um leitor e o encena. O revisor de leis está preocupado com a queda, com a língua dos homens.

Apontar, assinalar, anotar. O revisor se esgueira, quase invisível, mas sua passagem deixa rastros. Não exatamente aroma, nem luz – o que sobra nas margens são as setas e os balões, barras e notas, às vezes desenhos. Rodolfo Walsh, em um conto chamado “A aventura das provas de prelo”, mostrou como as marcas de revisão podem mudar a compreensão de um acontecimento. O relato traz um duelo de pontos de vista envolvendo as provas revisadas de um texto, na tentativa de esclarecer uma morte, seu caráter acidental ou criminoso. São três interpretações, e todas se mostram verossímeis, mas a que determina o desfecho é a única que concilia intimamente o texto com as circunstâncias do evento – com o mundo. Daniel Hernandez é o nome do personagem que soluciona o caso. Seu procedimento, ancorado nas provas de prelo, consiste em nada mais do que imitar um revisor, um revisor múltiplo, capaz de coordenar ao mesmo tempo três das funções que o tornam um profissional do ofício: a de detetive, a de crítico, a de leitor comum. Afinal, o revisor é de certa maneira isto: a comunidade de um ser só.

A revisão como procedimento de leitura pode afetar um texto ou uma obra inteira. No extremo dessa composição está o crítico, espécie de revisor que chega sempre atrasado, depois do livro: se lhe é vedado mudar o que foi escrito, corrige o passado com os olhos. Às vezes, esse empenho toma a forma de romance, de livros que cercam outros livros. Um “caderno de notas de rodapé sobre um texto invisível”, como quer o narrador de Bartleby e companhia, de Vila-Matas. Um informe sobre um texto desconhecido de Robert Arlt, como anuncia Piglia em Nome falso. Ou apenas um viajante numa noite de inverno, como propõe Calvino para todo leitor que captura. Exemplos não faltam, dessas narrativas que crescem onde o revisor acampa – do lado de fora da cerca. Pierre Menard talvez seja o patriarca moderno de todas elas.

 

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O erro é um dos princípios da criação. Sem o erro, a vida seria uma estrada tediosa e previsível. Mas a correção também pode criar; em vez de restaurar, às vezes ela complica ou desdobra o mundo original. Na História do cerco de Lisboa, romance de José Saramago, o revisor Raimundo Silva constrói uma narrativa paralela à oficial ao introduzir uma correção indevida; desliza da condição de revisor para a de autor. Assim funcionam as emendas: a partir delas, a leitura se mistura com a escrita. Às vezes não se sabe onde termina uma, onde começa a outra. Corrigir ou alterar, mais do que editar, pode significar escrever. A revisão se torna um procedimento de escrita.

Uma frase ou uma imagem vem à sua cabeça, é estranha e sem propósito, mas você gosta dela, sem saber por quê. Tem a ver com uma casa, uma cidade, um pássaro. Pode ser alguma coisa que você viu na rua, ou sonhou, você não se lembra. De qualquer modo, não parece uma ideia sua, é como se alguém tivesse ditado aquilo para você ou soprado no seu ouvido. Você anota as palavras em um papelzinho, um guardanapo, um cupom, ou no celular. Guarda o papel na gaveta, sai, dorme. Passa uma semana, você abre a gaveta, revê a frase, escreve outra ao lado, modificando a primeira. Anota, anota, dorme, anota. Um dia você transcreve os rabiscos para o computador, acrescenta alguma coisa, corta palavras. Aos poucos, aquilo se transforma em um texto, esse texto cresce, você começa a numerar suas versões. Mas é sempre como se não lhe pertencesse, como se não tivesse sido escrito por você. Eis aí o ponto. Você vai alterar esse texto como se revisasse o de outro. Pelas beiradas, nas tangentes, você foge da posição de escritor, para, quem sabe, atravessá-la em algum momento. Rever, emendar, rever de novo. Nunca deixar o escritor tomar o lugar do revisor. Uma escrita em fuga, uma escrita que foge de seu centro, e só assim começa a durar. Essa é uma forma de escrever com os olhos.

Muitos manuscritos testemunham esse método, sinais de uma gênese inalcançável. Veja-se uma prova revisada de Balzac ou de Flaubert, de Austen, de Joyce, de Heine. Um caderno de Valery ou de Proust. Compare-se Proust com Graciliano Ramos – é um bom exercício. No primeiro, as linhas não têm limite, saltam em franjas para fora da página, formam um bosque. Em Graciliano, as linhas são limpas e retas, aparadas como grama. Ao emendar o primeiro volume do Tempo perdido, Proust comenta, em carta a Jean-Louis Vaudoyer: “Minhas correções até aqui... não são correções. Não resta uma linha em vinte do texto primitivo”. Graciliano, ao contrário, prefere tratar o texto esfregando-o e limpando-o à exaustão, como “as lavadeiras fazem o seu ofício”. O método de Graciliano, que trabalhou como revisor de jornal no início da carreira, é a antítese do de Proust – mas ambos são formas de revisão. Quando se revisa, os olhos escrevem junto com as mãos, e quase as substituem, moldam a escrita à sua maneira, com sua própria nervura e eletricidade.

O impulso de retificar por vezes ultrapassa a genética da narrativa e toma conta da sua sintaxe, de seu tema, impondo ao leitor o rangido da revisão. Penso novamente na História do cerco de Lisboa, romance que, brincando com o engano, funciona à base de avanços e retificações, um vaivém laborioso entre memória e imaginação, sonho e verdade, desejo e fracasso. As costuras desse tecido – correções, emendas, repetições – ficam à mostra, e podem até mesmo sobrar (detecto uma página inteira que retorna). Em “O imortal”, conto de Borges, a técnica é semelhante: o relato é uma revisão em curso ao longo de centenas de anos. Nessa matéria, é impossível não citar Borges, todos os textos de Borges, o que, paradoxalmente, torna desnecessário fazê-lo. Basta ficar com duas de suas fórmulas: “o original é sempre o outro”; “o conceito de texto definitivo pertence apenas à religião ou ao cansaço”.

Revisar é olhar para trás. Sobre o percurso existente, riscar um novo, apagando o anterior. De um traçado para o outro, no entanto, solta-se sempre um espectro, a alma de um texto perdido, no papel ou na tela do computador. É esse o preço que se paga pela permissão de corrigir: conviver com os fantasmas do que não foi. Penso nos que se negam a revisar, nos que tentam escrever sem voltar o rosto. Abstêm-se de escolher, apenas avançam. Se tal situação é possível, imagino sua tensão, o tipo de tortura que representa. Robert Walser, o escritor que Kafka admirava, delimitou um campo literário com essa premissa: a de não olhar para trás. Foi uma decisão deliberada, a de afastar a caneta e escrever a lápis, com uma caligrafia microscópica e comprimida, em papéis de segunda mão. Foi o que ele chamou de “território do lápis”. Eram esboços de publicações futuras, mas ali ele não revisava. As linhas seguem direitas, com disciplina e sem rasuras, como as do escriba de um livro sagrado, que não pode falhar. Walser deixou centenas desses manuscritos, em folhas de calendários, envelopes, cartões de visitas. Se para cada palavra escrita há outra à espreita, escrever sem revisar é fugir dessa sombra. É uma estratégia dura, mas de algum modo libertadora. Penso nela como uma forma de entregar-se de vez ao fracasso das palavras, sem pudor, sem preocupação – um encontro amoroso e definitivo. Quem escreve dessa maneira certamente teme olhar para trás, tornar-se uma estátua de sal – perderia o amor da língua para sempre.

 

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O gesto de retificar o texto, ainda que típico, é certamente insuficiente para explicar a tarefa do revisor. Tomado isoladamente, pode esconder os outros mecanismos que, concomitantes, conferem à máquina de rever o atributo da invenção. Porque retificar o texto pressupõe retificar o olhar sobre o texto. E retificar o olhar é, antes, retificar o próprio sujeito. Aqui está um procedimento literário: tornar-se outro a cada versão. Vários sujeitos se revezam – com a mesma mão.

Essa transformação, esse deslocamento às vezes supera a própria relação com o texto; torna-se puro impulso criativo, o modo de inventar um ponto de vista. É o que faz Kafka quando aponta Dom Quixote como demônio de Sancho Pança, ou quando descreve o silêncio das sereias. O que se produz aí é um efeito de desordem – desconcertante, improvável.

Inaugurar um ponto de vista é escrever. Ao escritor caberia aprender com o revisor essa técnica que é sua especialidade – absorvê-la como uma ginástica sincronizada entre os olhos e as mãos.

 

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Marcílio França Castro nasceu em Belo Horizonte, em 1967. Mestre em estudos literários pela UFMG, publicou, entre outros, Histórias naturais e Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse, pelo qual recebeu o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional.

 

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