História casual do papel (parte 1)

Marcílio França Castro

Detalhe de pintura. Japão, fim do século 19. Autoria desconhecida.

 

Na cultura chinesa, Zhang Guo Lao é o mais velho dos chamados “Oito Imortais”, figuras lendárias do Taoismo que têm a função de proteger a tradição e instruir os seus adeptos. O grupo é heterogêneo. Cada um traz sua história, seus símbolos; cada um cultiva um aspecto da humanidade. Seriam todos habitantes de Penglai, uma ilha mítica situada em algum mar oriental. Entre eles, sabe-se, três ou quatro tiveram existência terrena. É o caso de Zhang Guo Lao, que teria vivido como eremita no século 8, durante a dinastia Tang, nas proximidades do rio Fen, no atual estado de Xanxi. Montado em sua mula branca, peregrinava entre os montes Zhongtiao e Hengue, considerados sagrados. Alquimista e mágico, Guo Lao dominava técnicas de equilíbrio e conservação do corpo. Fabricava elixires da longevidade. Conhecia os benefícios do vinho, manipulava suas substâncias. Exercitava a necromancia e a arte da invisibilidade. Hipnotizava pássaros; ao apontar-lhes o dedo, podia convertê-los em pedra. Antigos tratados de adivinhação e astrologia, ainda hoje usados na China, são atribuídos a ele.

Segundo consta, vários imperadores tentaram atrair Guo Lao à Corte para servi-los com seu talento. Avesso à ordem burocrática, o sábio recusou cargos, honrarias, e a oferta de casamento com uma princesa. Mais de uma vez, enganando os emissários que iam procurá-lo nas montanhas, usou de seus truques para passar-se por morto. Ante um convite insistente da Imperatriz Wu, por exemplo, Guo Lao chegou a ir ao encontro da soberana, mas tombou desfalecido no portal do palácio. Vários testemunharam seu corpo sendo devorado por vermes; algum tempo depois, era visto cavalgando nos arredores do monte Hengue. Dizem que a mula de Guo Lao conseguia viajar centenas de milhas por dia sem se cansar. Ao fim da jornada, o mestre a transformava em uma gravura de papel; dobrava-a e guardava-a em uma pequena caixa ou dentro do bolso. Para fazê-la retornar à forma anterior, bastava desdobrá-la e espargir sobre ela um pouco de água. A mula ressurgia pronta para cavalgar. Em sua iconografia, Zhang Guo Lao quase sempre é mostrado com um tambor cilíndrico de bambu e uma pena de fênix. Segundo alguns, o cavalo de papel é seu emblema. Guardião da fertilidade, é tido também como patrono dos pintores e dos calígrafos.

Leio aqui e ali várias histórias sobre Zhang Guo Lao. Anoto contradições, lacunas, obscuridades. Como toda lenda, como toda narrativa feita em coautoria com os séculos, a de Guo Lao é esfumaçada, com encaixes imperfeitos. Em todas as versões, porém, um elemento forte se mantém, uma imagem plástica, singular, que me chama a atenção — a da mula dobrável e portátil, feita de papel. Em uma época em que os europeus ainda usam pergaminho para escrever, a China inventa uma mágica feita com esse material revolucionário, estranho ao resto do mundo. A lenda de Guo Lao, imagino, não teria sido possível se os chineses, pelo menos desde o século 2, não conhecessem o papel. A lenda de Guo Lao traz o signo do papel.

 

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Sonho que dirijo um automóvel, esse automóvel avança pela estrada e decola, em direção ao mar. É um sonho recorrente. Um dia um homem, ou uma mulher, deve ter sonhado que suas pernas eram redondas, e que giravam no contato com o chão. Seria um sonho de leveza e velocidade. Kafka, que sonhava muito e com muitas engrenagens, certa vez sonhou com uma máquina dentada; a mordida dessa máquina deixava letras impressas na pele. Lewis Carrol sonhou com uma dimensão dentro do espelho; Borges narrou a conjunção entre um espelho e uma biblioteca. Jules Verne sonhou com uma embarcação submarina e uma viagem ao fundo do mar; mais do que isso, sonhou com uma biblioteca suntuosa dentro dessa embarcação — a biblioteca mais silenciosa do mundo. Não faz muito tempo, sonhei que avistava uma pessoa em uma praça, ao longe, e me parecia conhecida, mas não conseguia enxergá-la direito. Então simplesmente movi meus dedos no ar, como se o mundo fosse uma tela, e ampliei o rosto da pessoa à distância. Era uma amiga que não encontrava há décadas.

Em cada um desses sonhos há uma tecnologia subjacente em ação. Pode ser um engenho ao qual já estamos acostumados, e que por isso mal será notado; mas pode ser o sinal de algo novo na cultura humana, o indício de uma transformação. Uma tecnologia ameaça a outra, me parece, não quando a anterior cai em desuso, mas quando, sorrateiramente, os mecanismos da nova começam a agir nos sonhos das pessoas, nos seus processos de fabulação. Não se trata apenas de incorporar à memória os traços de um objeto ou uma substância, e sim de assimilar o modo de operar da invenção. É aí que a mente se acostuma à novidade e passa a depender dela. É o momento em que a inteligência se torna uma extensão do artifício que ela própria criou.

As lendas sobre Zhang Guo Lao e os Imortais taoistas se popularizaram no século 13, mas suas matrizes remontam ao século 2. Na época em que viveu o Guo Lao histórico, documentos oficiais e sutras já eram copiados em papel há centenas de anos, como testemunham os manuscritos encontrados nas grutas de Mogao. Não um papel de tiras prensadas e entrelaçadas, como acontecia com o papiro. Feito com trapos de roupa e cascas de árvore, e assim contendo cânhamo e rami, ou amoreira e cânhamo, o papel chinês é leve e flexível. A mistura das substâncias se dá em seu âmago; a intimidade é molecular. Na lenda de Guo Lao, a mula branca, para caber na caixa, não é enrolada, nem comprimida, nem derretida. Não é de madeira, nem de seda ou bambu. Ela é um corpo de papel — dobrada e guardada como papel. Gosto de supor, sob essa perspectiva, que está aí o alvorecer de uma forma e, com ela, de uma série infinita de metáforas. Um sonho em seus primórdios, um modo de perceber e representar que se espalhará por todo o mundo.

 

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Na Odisseia homérica, os companheiros de Ulisses, chegando ao palácio de Circe, são servidos com queijo e vinho. Misturada à bebida, uma poção mágica induz o feitiço — a deusa os transforma em porcos, tocando-os com um cajado. Circe deve ter sido uma das primeiras bruxas a usar varinha de condão. Nos contos das Mil e uma noites, a esposa de um xeique é convertida em gazela, a de outro, em mula; irmãos ganham a forma de cães, um rei é petrificado da cintura para baixo. Os feitiços, aí, acontecem por punição ou vingança; às vezes reverberam uma passagem do Corão. Também por castigo, a mulher de Ló se torna estátua de sal, como narra o Velho Testamento. Nas lendas medievais, magos como Merlin têm o poder de transformar e de transformar-se. E quem leu contos de fada não se esquece do príncipe que foi sapo, ou do cisne que era pato (ainda que aqui a mudança corresponda apenas a uma descoberta).

O tema da metamorfose é comum a várias mitologias e literaturas. Mudança de animal para humano, de humano para animal, para pedra. Troca de identidade, de sexo, disfarces. Há certas formas de transfiguração, porém, que se dão não exatamente no corpo, mas na realidade em torno do personagem. O ser salta de um mundo a outro, de um sonho a outro, de uma dimensão a outra. Penso nos contos tradicionais chineses. Um camponês, passando pela abertura de um travesseiro, penetra em uma existência paralela, e vive uma vida inteira de riquezas e conquistas, antes de acordar de volta no albergue onde dormia. Uma moça, para realizar um amor impossível, sai de si e duplica-se; um corpo viaja, o outro jaz acamado. O jovem Pao Yu sonha com outro Pao Yu, que por sua vez sonha com o primeiro — é o sonho infinito. Essa situação de duplicidade, às vezes circular, é também a chave da transfiguração que ocorre na lenda de Guo Lao.

À primeira vista, pareceria um encanto secundário. Como forma prática de descansá-la, Guo Lao dobra a mula e guarda-a dentro da caixinha, até restaurá-la no dia seguinte. Nessa perspectiva, o animal acaba se tornando uma espécie de adereço, e sua transformação, um truque menor no conjunto da lenda. Entretanto, se invertemos o ponto de vista, se passamos a considerar que a mula é, desde sempre, um desenho, o peso e o efeito do truque também mudam; o verdadeiro lance de mágica, ou pelo menos o mais fabuloso, acontece no sentido inverso. É a gravura que se anima com o sopro do mestre, e não o contrário — o poder do taoista está em trazê-la à vida. E é exatamente por sair do papel para a vida que o animal puxa consigo o espírito da dimensão de onde vem, sua suavidade e rapidez (e também sua efemeridade). Por isso a mula corre tão ligeira, por isso chega a voar. Como um ouro alquímico, a mula branca de Zhang Guo Lao é possuída pelas propriedades extraordinárias de uma gravura de papel — seu destino de armazenar conhecimento e imaginação.

No conto maravilhoso, o episódio de transformação normalmente envolve um objeto (um anel, um cajado), uma substância (uma poção, um pó), palavras. A mágica de Guo Lao se dá com um sopro. Ele não profere nenhuma palavra, não usa seu tambor, sua pena de fênix. Talvez essa economia tenha a ver com o próprio objeto do encanto.  Pois o elemento que sofre a mágica – o papel – é também o único capaz de realizá-la. O papel, com um desenho grafado nele, é como um talismã — o instrumento capaz de conectar o mundo visível ao secreto. O papel é, desde sempre, sobrenatural.

Há nessa imagem uma metáfora óbvia. O encanto que é o de animar uma gravura anuncia um encanto posterior, bem mais extenso e vertiginoso, aquele que se desenvolverá junto com o livro impresso, e à medida que o papel se difunde pelo Ocidente. O que está gravado no papel pode ser transformado por um toque de mágica — o da leitura. Essa é a verdadeira metamorfose em curso.

 

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Marcílio França Castro nasceu em Belo Horizonte, em 1967. Mestre em estudos literários pela UFMG, publicou, entre outros, Histórias naturais e Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse, pelo qual recebeu o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional.

 

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