Hoje está sempre aqui. Amanhã, nunca.

Jarid Arraes

Graffiti de Toni Morrison no barrio de Aranzabela-Salburua, em Vitoria-Gasteiz (País Vasco, Espanha). Imagem de 30/12/2010. O graffiti foi substituído entre 2013 e 2014.

 

Já não me lembrava de muita coisa quando peguei Amada, de Toni Morrison, para uma releitura, aproveitando que a Companhia das Letras lançou recentemente uma nova reimpressão da obra. Mas não esperava que essa releitura crescesse tanto dentro de mim, muito maior do que a primeira vez em que li o livro.

Para criar a obra, Toni “se inpirou” na vida de Margaret Garner, uma mulher negra que fugiu da escravidão, cruzando o rio Ohio, e que, quando os brancos a encontram, matou sua filha para que a criança não fosse escravizada. O livro ganhou o Pulitzer em 1988 e foi adaptado para o cinema tendo Oprah Winfrey como estrela.

Sempre recomendo livros escritos por pessoas negras que falem sobre a escravidão. Digo que esse é um assunto que precisamos discutir, visto que as consequências dessa extrema violência e desumanização são presentes até hoje. Desejo que autores negros escrevam sobre muitos temas, é claro, mas enxergo um valor profundo em identificar como a supremacia racial de brancos contra negros molda nossa sociedade contemporânea.

Amada é também sobre isso. Há a escravidão, a tortura, a fome, a violência sexual e a fuga que muitas vezes não é conquistada. No entanto, Amada nos faz pensar sobre liberdade de um jeito muito complexo. A liberdade, nessa obra, está emaranhada com o passado que nunca vai embora. Com verdadeiros e literais fantasmas que continuam retornando, retornando e retornando.

Talvez, lendo o livro, você pense que a liberdade nunca chega. As manchas internas são fortes demais. A dor é um bicho indomável que faz escolhas próprias. Pontiagudas. E o sangue derramado por sua faca pinta a vida inteira.

Sethe, a mãe que mata sua filha, vive assombrada por sua criança morta. Na casa onde vive com Denver, uma das filhas que sobreviveu, os móveis se mexem com violência, as coisas saem do lugar, os potes de geléia voam e se quebram. Há uma assombração que, embora assustadora, se torna coisa da vida. É desse modo que os fantasmas do passado atuam: fazendo ranger tudo o que há dentro de nós, enquanto dizemos para nós mesmos que é assim mesmo que funciona.

Em Amada, a culpa que tenta remendar o que foi feito é uma das piores armadilhas existentes. Se muito presente, se materializa. Come sua comida, senta ao seu lado na mesa, dorme em sua casa, parece algo possível de se ter como companhia, mas em seguida toma força, rouba sua mente. No fim, nunca será apaziguada. Enquanto ela existir entre seus móveis e sentimentos, tudo será sugado de você.

Em certo momento do livro, Sethe escuta que o “Hoje está sempre aqui. Amanhã, nunca.” E essa é uma afirmação que, em sociedade, tentamos traduzir em diversas técnicas. Psicoterapia, meditação, respiração, remédios. Estar no presente é um esforço gigantesco. Vivemos demais no passado e cansados demais para o futuro, que nos deixa ansiosos e aflitos. Porém, nessa pequena frase, está uma dessas verdades que poderíamos treinar, até torná-la um talento. O talento de enxergar que o Hoje está sempre se mostrando como chance. É no espaço do Hoje que as mudanças podem acontecer, que as ideias podem ser transformadas; que o passado pode se tornar o passado, não um monstro que paira sobre sua cabeça.

Em Amada, você pode entender que os erros, quando constantemente revividos, muitas vezes triplicam de tamanho. Crescem nutridos por tentativas de reparar o que jamais poderá ser consertado. E o remorso é um grande mentiroso e dissimulado manipulador: ele não permite o perdão.

Toni Morrison escreve sobre racismo e relações raciais de forma especialmente profunda. Amada nos ensina que Hoje devemos trazer a liberdade que será perpetuada no Amanhã.

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Nascida em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 12 de fevereiro de 1991, Jarid Arraes é escritora, cordelista, poeta e autora do premiado Redemoinho em dia quente, vencedor do APCA de literatura na categoria contos, e dos livros Um buraco com meu nomeAs lendas de Dandara e Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis. Atualmente vive em São Paulo (SP), onde criou o Clube da Escrita para Mulheres e tem mais de 70 títulos publicados em literatura de cordel.

 

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