Ian McEwan sobre reescrever o passado: 'Não chega a ser uma distopia, mas algo um pouquinho melhor que a realidade'

Leia a entrevista em inglês no site da Penguin UK

 

Máquinas como eu tem como cenário um mundo que não é exatamente o nosso. Criar uma realidade alternativa foi uma experiência autoral libertadora?

Meu romance se passa em 1982. A ciência está em um lugar diferente, e eu pensei que se a ciência está em um outro lugar, mais avançado do que aquele em que estamos agora, eu poderia muito bem mexer um pouco também com a política e o pano de fundo social. A senhora Tatcher está às voltas com uma boa dose de problemas, já que a Guerra das Malvinas não deu certo. E se no início dos verdadeiros anos 1980 Tony Benn quase venceu a disputa pela liderança do Partido Trabalhista, no meu romance ele venceu de fato. E assim vai: há muitos, muitos desvios quanto a outras lembranças que temos do passado. Por exemplo: lemos de passagem que o presidente Kennedy quase foi assassinado; ou que quase lançaram “a bomba” em Hiroshima; de modo que não chega a ser uma distopia, mas algo ligeiramente melhor que a realidade.

E a ciência, claro, é muito diferente. Alan Turing está vivo e bem — ele não se suicidou em 1954 e, assim, nos encontramos em um lugar muito mais avançado no que se refere à inteligência artificial. Então, sim, após passar a metade de minha vida às voltas com pesquisas detalhadas para a escrita de meus romances, foi libertador simplesmente sentar à mesa e não me preocupar com a verdade dos fatos ao escrever meus dois últimos romances, este e Enclausurado.

 

Pode uma forma de vida artificial ser tão cativante quanto um protagonista humano?

Estamos bem longe, muito longe, de produzir uma forma de vida artificial que seja tão complicada, falha e maravilhosa quanto nós mesmos, mas já estamos às margens desse vasto oceano. Estamos na fase de ter que fazer escolhas. Deixemos um pouco de lado o software e concentremo-nos no hardware; pensemos nos seres humanos e em seu extraordinário cérebro biológico, o computador orgânico que carregamos por aí sobre nossos ombros. Trata-se de um biocomputador com capacidade de um litro, tridimensional e com um sistema de refrigeração líquido. Tem cerca de cem bilhões de neurônios, cada um deles fazendo em média sete mil conexões. Essa interconexão do cérebro está ainda não foi igualada, mesmo de forma incipiente, por qualquer artefato. Como se não bastasse, essa máquina precisa de apenas 25 watts para funcionar a contento — energia equivalente à de uma lâmpada bem fraca. Temos um longo caminho a percorrer, mas se pudermos replicar o cérebro humano em uma máquina, então não haveria porque esse ente não pudesse ser tão interessante e complexo como nós mesmos.

Ao pesquisar na internet por imagens de robôs que se pareçam com as criaturas ao nosso redor, note que há sempre um grosso cabo de energia escondido de nossas vistas. Nem ao menos conseguimos um modo de armazenar de forma eficiente a quantidade de energia elétrica necessária para permitir a um homem artificial de oitenta quilos caminhar livremente por aí por um tempo razoável. Ainda não resolvemos esse problema tão simples, então, sim, estamos bem longe da inteligência artificial.

O que fiz em meu livro foi simplesmente dar aquele salto de imaginação e decidir que, em 1982, já seria possível para um jovem cuja mãe falecera, e que portanto herdara uma considerável soma de dinheiro, que seria possível a esse jovem comprar um ser humano artificial que ninguém fosse capaz de distinguir de outra pessoa qualquer.

 

Com nossa experiência da realidade sendo alterada e ampliada, os artistas precisarão mudar o foco de suas obras?

Acredito que seja uma aposta segura afirmar que assim que a inteligência artificial atingir um certo nível de sofisticação, ela irá oferecer alguns problemas interessantes — não sérios, mas interessantes — para os artistas, do mesmo modo que irá apresentar problemas para médicos e advogados.

Eu diria que assim que um bom software puder escrever um romance que desperte interesse e seja atraente, em que as emoções humanas, os sentimentos e pensamentos sejam representados de um modo atraente, será então que teremos atingido uma encruzilhada. No que se refere de modo particular ao romance, mais do que a qualquer outra forma de expressão, esse será o sinal de que um computador terá por fim compreendido de forma integral a vasta complexidade das interações humanas. E então chegaremos ao Teste de Turing: se não formos capazes de estabelecer a diferença entre uma mente humana e uma mente artificial, então —  como Turing afirma — teremos que tratar a mente artificial assim como tratamos a mente humana.

É claro, então, que nos encontraremos frente a um vasto conjunto de caminhos que por sua vez se ramificam em outros conjuntos de problemas. Deveríamos conceder direitos a essas mentes? E responsabilidades? Se você comprar um humano artificial, ele se torna sua propriedade? Você poderá então destruí-lo ou isso o tornará um assassino? Este é um ponto muito importante em Máquinas como eu.

 

Ao escrever sobre figuras históricas reais, até que ponto o senhor se sente responsável em relação a elas e a seus legados?

É claro que há romances que abordam personalidades históricas e esmiúçam suas vidas de um modo muito intenso e profundo. Penso que os romancistas devem ser responsáveis no que concerne a certa noção de verdade. Máquinas como eu é muito menos sisudo. Embora eu não explore no meu livro os personagens de Tony Benn ou da senhora Tatcher, os destinos de ambos são totalmente diversos daqueles que eles experimentaram no curso da história real. Eu me permiti ser menos fiel à verdade porque eles são peças no jogo que estou jogando, tanto com a história, quanto com a política e a ciência. É o caso de Alan Turing, que no livro se torna uma pessoa conhecidíssima não apenas no campo da ciência, mas no campo social. Ele se torna uma espécie de figura de proa no movimento pela mudança de atitudes em relação a pessoas gays. Fiquei deveras satisfeito ao prestar essa homenagem a um homem a quem sempre admirei intelectualmente.

 

Se fosse escrever um romance situado no presente, ou em um passado bem recente, que acontecimentos, mais ou menos importantes, o senhor alteraria, e por quê?

Venho pensando muito sobre um romance que abordaria nossa realidade presente. Há dois caminhos que eu gostaria de explorar. Em 2010, publiquei um romance sobre as mudanças climáticas, chamado Solar, e gostaria de voltar a esse tema, já que ele se tornou mais urgente agora; não temos sido capazes de juntar a vontade política para evitar o desastre que se avizinha. Além disso, e mais regionalmente, de menor interesse para o resto do mundo, mas de grande interesse aqui, no Reino Unido, temos o Brexit e o quanto isso nos dividiu, separou famílias e amigos, inflamou os debates à hora das refeições e assim por diante. Mas é uma história ainda sem conclusão, claro: no momento mesmo em que conversamos (abril de 2019), o Parlamento inglês ainda debate a questão, e a dificuldade é como encaixar esses dois temas, o do aquecimento global e o do Brexit, na forma de um romance que preferencialmente gravite em torno das relações entre as pessoas. Não me interessa escrever um romance repleto de fatos e dados sobre recuos, ou sobre a fronteira com a Irlanda permanecer ou não aberta, ou sobre rusgas comerciais; quero, sim, escrever um romance sobre como chegamos a esse estado de divisão, com todo mundo preferindo agir mais a partir dos seus instintos sobre seja o que for, do que de refletir bem sobre o assunto — e aqui falo tanto dos “Remainers”, os que votaram por ficar na região do Euro, quanto dos que tão apaixonadamente defendem a saída da União Europeia.

 

Por que a ficção-científica e as obras de especulação oferecem terreno tão fértil para a literatura?

Vivemos numa época em que a velocidade das mudanças não é apenas rápida, mas acelerada, e imagino que seja por isso que os romancistas se sentem atraídos para esse fértil terreno de para onde o futuro conduz. Sempre me pareceu ser uma questão sobre o enorme fascínio com o fato de estarmos construindo o futuro no mesmo momento em que construímos o presente, ao mesmo tempo em que não estamos nem no controle daquele futuro e nem no de nosso presente. Vou lhe dar um exemplo da velocidade dessas mudanças. Meu amigo Matt Ridley me mostrou uma foto de dois objetos. Os dois eram ovais e encaixavam perfeitamente na palma de sua mão. Um era um instrumento feito de pedra para esfolar animais mortos, em outras palavras, uma pedra polida; o outro era um mouse sem fio. O mouse sem fio tinha talvez dez, quinze, até mesmo vinte anos; o mouse com fio deve ter no máximo trinta anos. A pedra teria, digamos, entre um quarto de milhão de anos e um milhão de anos, mas durante todo esse tempo não sofreu nenhuma alteração em sua forma, tamanho ou função. O mouse é possivelmente formado de quinhentas outras invenções, do plástico aos eletrônicos, todas concebidas em um curto espaço de tempo. É uma incrível curva de aceleração essa que estamos quando comparamos aquele milhão de anos de existência do instrumento feito de pedra com os trinta anos de existência do mouse; e é por isso que eu imagino que os romancistas tenham essa atração por nos situar no futuro.

Quanto a nossa tendência de imaginar que o futuro seja sempre sombrio, julgo que seja simplesmente porque nossa realidade, social ou política, não está nos oferecendo uma dose suficiente de esperança. Vimos falando de aquecimento global desde que aquele mouse começou a circular por aí — eu me lembro de ter começado a pensar no assunto no início dos anos 1990. O aumento da quantidade de CO2, e de outras substâncias prejudiciais na atmosfera, que colaboram para a temperatura aumentar, não vem diminuindo. Ainda não atingimos esse ponto de redução — conseguimos baixar um pouco nos últimos três anos, mas no curso do último ano os índices começaram a crescer novamente, o que é motivo de decepção para todos. Não vislumbramos a vontade política para mudar isso; não vemos nossa classe política abraçar de fato a causa. Não percebemos os povos abraçando essa causa, notadamente nas democracias em que os políticos podem ser reeleitos, e portanto buscam fazer coisas que lhes garantam a reeleição, de modo que uma coalizão entre políticos e seus eleitores nos mantém presos a um conjunto de considerações imediatistas. Há uma tendência vigorosa em desconfiarmos das máquinas que nos trouxeram até aqui desde a Revolução Industrial — nosso ponto de partida para a emissão de gases sendo o ano de 1800.

A maioria das pessoas que se preocupam com o futuro enxergam uma paisagem devastada, em que a biodiversidade está desaparecendo, os recursos se esgotando e a cultura e a civilização em si estão pressionadas contra uma parede.

Assim, toda a ficção científica e os romances sobre o futuro tendem a ser realmente sobre o presente — que é de fato o que se espera.

 

***

 

 

O que nos torna humanos? Nossa aparência? Nossa racionalidade? Nossa subjetividade? Uma máquina é capaz de entender o coração humano? Máquinas como eu, o novo romance de Ian McEwan, desafia nosso entendimento sobre a linha tênue que separa o humano do não humano e trata do perigo de criar coisas que podem estar além do nosso controle. Traduzido por Jorio Dauster, o livro já está disponível nos formatos físico e e-book.

 

Neste post
Acesse a Letrinhas nas redes sociais